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Poesia

"Quando a vida não funcionar: poesia. Quando os pedaços se perderem: poesia. Quando os espaços aumentarem: poesia. Quando os silêncios lhe tomarem: poesia. Quando a poesia morrer: poesia. E o resto, sabe-se lá… Venho preferindo a vida numas boas linhas." Camila Costa. Vi nas asas daquele passarinho, voar pra bem longe de mim, sem aviso, meu último ninho. Pois lar é onde o coração está, e meu coração estava naquelas asas e por mais tortura e lamentação, por mais canto e choro, por mais verso que eu verse, não volta passarinho, não volta...

A Ruína

Uma estranha, dentro de seu carro esporte do último ano, cruzou os batentes da citadela. Levou o carro pelas ruelas até se aproximar da floresta. Abandonando o carro, seguiu a pé por uma pequena trilha entre as últimas casas. Apoiada na janela, uma senhora cujas rugas podiam dar-lhe mais de 100 anos, apertou os oblíquos olhos azuis para a visitante e sussurrou: - Ora, mas voltou, Madie... O rosto cansado se voltou para a velhinha. Os grandes olhos cor de noz pareciam tristes e vazios, círculos roxos e profundos os haviam sulcado naquela face. - Pois é, vó Gilda. A filha pródiga, à mãe retorna... Ela foi se afastando, e as casas foram ficando pra trás. O vento gelado do começo do inverno rodopiada em  torno de seus tornozelos, balançando seu vestido e atravessando seu casaco. Sentia sua pele arrepiar por baixo do tecido, mas já era tarde demais. Atravessou o limiar formado pelas árvores e foi seguindo por uma trilha meio escondida pelo mato, a luz diminuindo enquanto o sol se ...

Amor, amor

Seus dedos pálidos tocaram a tampa da caixinha de música com carinho. Alisou a madeira, tirando a camada de pó, e abriu-a. Notas trêmulas invadiram o ar, que de tão velho, dava ao quarto uma pátina de sépia. Sabia que assistira à um concerto em que aquela música tocara, há um milhão de anos. O vento fazia as cortinas endurecidas pelo tempo tremerem. Olhou por uns instantes para a janela, que fora fechada pelo lado de fora com grossas tábuas de madeira, que só deixavam o sol passar por pequenas frestas. Quando tornou a olhar para a caixinha de música, viu algo brilhante, escondido por entre as camadas de veludo. Refletia uma luz azulada e pequenina, como se fosse uma fada se escondendo. Com as pontas dos dedos já envelhecidos e afinados pelo tempo, afastou o pano com cuidado. - Ó, Joseph... Então foi aqui que você o escondeu. Lágrimas brotaram de seus olhos. Ela apanhou o objeto e rolou-o entre os dedos, incerta, até por fim encaixá-lo no anelar esquerdo. Ficou olhando para a própri...

Sol, areia e mar

- MAMÃE! Mamãe, veja o que eu acheeeei, depressa! Júlio tinha 5 anos, os olhos castanhos mais lindos do mundo e cabelos cor de chocolate, cujos cachos abundantes se espalhavam pela cabeça. Corria de um lado pro outro, afundando os pés na areia molhada e encontrando pequenos tesouros, a pele já rosada pelo sol. A mãe se aproximou, já um pouco cansada de ver tantas algas e conchas de todos os tamanhos e formas. Tentara se bronzear, mas o filho requeria atenção demais. Deixou-se convencer a caçar conchas com o menino. Aquilo, no entanto, não era nem alga nem concha. Era um carangueijo de casca meio esbranquiçada que o menino segurava nem uma das mãos e estendia para ela. - Largue o bichinho, Júlio, ele pode... Antes que avisasse, a garra do pequeno carangueijo prendeu-se ao dedão do menino, que imediatamente o largou e começou a chorar.  - Ora, venha cá. - A mãe o abraçou. - Você tem que tomar cuidado com as criaturas do mar, meu querido, carangueijos mesmo filhotinhos podem te ...

Brisa Marítima

Ele subiu as escadas de madeira pé ante pé para não acordá-la, e abriu a porta com a certeza de que encontraria aquelas pálpebras rosadas ainda trêmulas, envolvidas num sonho. Entretando, os lençóis estavam arrumados e ela, sentada na janela, vestindo sua camisola branca de cetim. O cabelo preto caía-lhe pelos ombros, e seus olhos muito azuis estavam voltados para fora. - A dor é uma coisa muito difícil de se encarar, concorda? Todos nós, ao sentir dor, nos escondemos... - Que coisa para se pensar logo agora, Giulia. Desça daí, eu trouxe seu café. Ela o olhou com desprezo. - Você é muito mesquinho, Pierre. Jogou suas pernas magras pra fora da janela e pulou, deixando-o boquiaberto segurando uma bandeja cuidadosamente arrumada. Correu até a janela aberta e viu-a no jardim, espanando a grama de seus shortinhos que sempre vestia por baixo da camisola. - Giulia, onde você está indo? - gritei da janela, mais desesperado do que com raiva. - Não é óbvio? Estou fugindo! - ela gritou em...

Solitude

Muito poucos já experimentaram o verdadeiro valor da solidão. Não é algo passageiro, nem fácil de reconhecer. Essas minhas mãos velhas e calejadas bem o sabem, a solidão é silenciosa, escura e irreversível. Só um acontecimento muito grande nos tira ou nos põe nela... E quando meu Wilbert partiu no último inverno, tossindo sangue, já há muito sendo acariciado pela tuberculose, eu soube que ela viria. Não se sabe quando ela começa ou termina. Não há limiar desse sentimento, como há no dia e na noite. Só sei que, de repente, me descobri na escuridão sem me lembrar sequer de como era a luz. Meus cabelos, já brancos pela idade, foram caindo, e minha pele já velha, enrugou-se ainda mais, sulcos fundos marcados no meu rosto, trilha das lágrimas. A vida toda vivi nesse vilarejo, criando ovelhas. Estação vem, estação vai. Ordenhar. Tosar. Medicar... E tudo de novo, num ciclo sem fim. As pessoas vêm à minha fazendinha e nem vejo seus rostos, a solidão me tirou isso também. Não são minhas vista...

Aulas de Dança

Ela tinha quinze anos e ele, dezessete. Ele era alto e desengonçado, os braços longos e pálidos, e ela se movia com a graça de um cisne através do salão, rodopiando em seus sapatinhos recém engraxados. Cansada de vê-lo sempre num canto, treinando sozinho, ela desvencilhou-se dos vários meninos que queriam tê-la como par e se aproximou com cuidado. - Você gostaria de ser meu par? Ele tinha grandes olhos castanhos. Sorriu. - Adoraria. Algo dentro dela se aqueceu ao ver aquele sorriso, e ela o retribuiu, os olhos brilhando. Aproximou seu corpo do dele, colocando a mão em seu ombro e tomando-lhe a mão livre com delicadeza, e riu ao ver que ele tentava segurá-la como um bibelô. - Assim não, bobo. - Riso de cristal. - Aqui, coloque a mão na minha cintura. Você quer que eu guie? Você pode pisar nos meus pés. Algo dentro dele se aqueceu ao ver o sorriso dela, e ele assentiu, a expressão de espanto cuidadosamente disfarçada. A música começou ele tentava acompanhá-la. Ela olhou-o de ...

Memórias de Apartamento

Pelo que ouvi na reunião de condomínio, eu era "aquela moça branquinha do 502". Pobre gentio, mal sabem o monstro mal humorado que abrigam. Vim escrever minhas historinhas para que, quando velha, eu possa relê-las e sentir esse mesmo arroubo de amor que sinto agora. Me mudei pra cá assim que me formei e consegui um bom emprego numa agência publicitária, enlouquecida atrás da paz de viver sozinha. Trabalhava em horários bizarros e sentia um estranho prazer em entrar e sair de casa de madrugada. O apartamento era pequeno, mas eu e Noodles - meu gato - nos sentíamos muito bem ali. Bem demais pra falar a verdade. Meu único problema era com o domingo de folga, quando só me restava deitar de barriga pra cima no corredor entre o quarto e a sala, acender um cigarro e assistir a fumaça espiralar em direção ao teto. Não era solidão... Era tédio. Foi então que, em uma tarde de quinta feira, enquanto eu dormia no sofá, alguém bateu suavemente na porta. Algo me fez despertar bruscament...

Aquele Segredo...

Esperei por dias, meses, anos. Esperei que meus olhos secassem e meu peito, se esvaziasse. Esperei que meu canto calasse, e de desgosto, ele calou. O gosto dos meus dias, adocicado e leve, agora é metal. O sol se escondeu, as nuvens fecharam e chove todos os dias. Até minha escrita, mesmo que trêmula e inconstante, fechou-se para mim. Foi como se o céu se apagasse e todas as janelas da minha casa, se fechassem. Tudo na esperança de um raio de sol. Um confeito doce, que desmancha assim que toca a ponta da língua. Uma estrela, rasgando os céus escuros, realizando desejos. Tudo na espera de um som mais alto que o som do vazio que ecoa dentro de mim, uma doce loucura que pega de surpresa. Um descanso, um porto, uma caverna, pra descansar a cabeça e o peito. E nada disso foi em vão. O problema é que a estrela que caiu, dourada e brilhante, não era minha.

Ampulheta

Noites negras e dias brancos. 24 horas consecutivas passadas no completo vazio. E os dias vão passando como quando o vento sopra a chuva, e só vemos as gotículas se perderem no ar. Como quando enfiamos as mãos nuas na água corrente de um rio. Tudo vai passando... As estações começam e terminam e o sopro quente do verão não me atinge, nem o ar seco do outono. As flores da primavera são sem cor, e o vento do inverno passa por mim ressoando nas minhas costelas. E assim vou levando...

Neve Escura

O barulho dos passos na neve era reconfortante. Schrug, schrug, schrug ... As botas pareciam mais largas do que deviam ser e meus pés pequenos patinavam dentro delas. O vento fazia com que os flocos de neve batesse no meu rosto como navalinhas. Parei um instante, as mãos apoiadas nos joelhos, respirando o ar frio que lacerava meu peito. Olhei pra trás só pra observar minhas pegadas, mas metade delas já tinham sido apagadas pelo vento. Sem rastros. Continuei meu caminho. A noite era tão escura... Cada passo fazia meus pés doerem e meu rosto arder de frio. Sentia calafrios percorrerem não meu corpo, mas minha alma, como toda vez que tenho medo. Mas o medo já tinha me impedido de fazer tanta coisa, agora eu não falharia. A floresta ia se aproximando, os troncos das árvores tão negros quanto o céu sem estrelas, galhos sem folhas e aparência assustadora. Chamavam-na Floresta das Sombras e no inverno ninguém precisava perguntar o porquê. Schrug, schrug, schrug, schrug ... Comecei a lem...

Almas

Madrugada alta e o vento da noite me abraçava como a uma filha. O silêncio, meu companheiro das ruas desertas, já vinha me acompanhando há dias. A luz macia dos postes fazia meu rosto parecer ainda mais terrível do que já fora - aprofundava minhas marcas, sombreava meus ossos e tornava, senão cruéis, muito melancólicos aqueles meus olhos. E aquele silêncio... Aquele silêncio me incomodava. Quase ninguém sabe, mas há pessoas cuja alma canta. Ou vibra ao som de cordas. Ou mancha nossa visão com cores, de vez em quando. A minha devia ser cantante, mas há tanto tempo jazia calada... Como se tivessem apertado sua garganta. E por acaso a minha garganta também estava apertada agora. Na boca tinha aquele gosto de cabo de guarda chuva que a gente sente depois de acordar de ressaca e meus olhos estavam meio embaçados. Enquanto eu dobrava a esquina, começou a chover fininho. Pareciam lágrimas doces que acariciavam meu rosto, misturadas com as minhas, tão amargas. Pois quando a pessoa se tor...

Sofrimento Carmim II

Ajoelhada na cama, nua, os pulsos e tornozelos amarrados. Uma venda cobria seus olhos e uma mordaça selava seus lábios. Os cabelos quase azuis de tão negros estavam despenteados e caíam tampando os seios. Não que ela se importasse, se ele estivesse olhando. A pele rosada se arrepiou quando sentiu o perfume dele no ar. Tentou chamá-lo, mas a mordaça só permitia grunhir. - Shhh... Um dedo em riste tocou seus lábios. Aquele era sempre o momento favorito dos dois. A mordaça foi tirada delicadamente e também a venda. A pele dourada fazia os olhos azuis de seu senhor ainda mais bonitos aquela noite, mesmo coberta pelo terno. - Lhe comprei um presente e quero que use para mim. - Obrigada, meu senhor. Não mereço sua generosidade. Ele tirou do guarda-roupas uma caixa grande e branca. Abrindo-a, cobertas de cetim, estava um par de botas pretas de couro cano alto, salto fino, quase um pecado de tão bonitas. Os olhos dela marejaram. - Tem certeza? - Shhh. Seu senhor sempre tem ce...

Cinzas

Chove bonito e triste lá fora. E chove também aqui dentro de mim. O vapor do café se enrola nos meus cabelos enquanto tento engolir a situação. Chovem aqui no meu peito gotas castanhas, como mil reflexos dos seus olhos. Gotas de âmbar e mogno que escorrem por dentro das minhas costelas e arrastam consigo meu pouco amor próprio. Minhas mãos tremem. Meus olhos tremem. Meus ossos tremem na sua direção. Minhas palavras também tremem... Minhas preciosas palavras! A única coisa na qual podia me apoiar, esfarela sob meus dedos. E meu coração também se esfarelou. Tal qual pedaço duro de carvão que após a queima, mal resvala e já é cinzas. Nem brasa me restou. Só poeira escurecida e doce, como seus olhos e como a minha tristeza. Tão doces que fazem minha cabeça girar. Já passava da hora de te ver partir.

Velha História

A noite tinha um aspecto achocolatado. Quente, seca, triste. De novo eu estava na janela, fumando meu cigarro pra ver se tirava os problemas do pensamento. Eram sempre os mesmos problemas... Por que eles vivem em círculos? Meu problema é com teu sorriso. Dentes brancos que mastigam minh'alma. E também com seus olhos expressivos, que não se voltam para nada além do infinito sonho. Meu problema vem das tuas poucas carícias, da tua pouca opinião. Da tua pouca atenção. Do teu muito mistério. Porque te fizeram assim, de massa mais pura e distinta da minha? Meus olhos são cascalho, os seus, ágatas marrons. Dos teus lábios em concha brotam pérolas, dos meus, palavras vazias. Minhas mãos rudes e desgraciosas tentam veementemente cobrir e acariciar as suas mãos de artista. Bebo mais uma dose de uísque. Já deve ser o quarto ou quinto. Parei de contar as doses quando você parou de se preocupar. Mastigo uma ponta da gola do meu casaco, pois roer os dentes me dói. Uma lufada de ar quente ...

Dia de Verão

- Ei, você está acordado? Um grande e sonolento par de olhos azuis se abriu. Confuso, Jacques olhou em volta. Marine havia escalado de novo o suporte da hera e entrado por sua janela, e estava parada em pé junto ao guarda roupa. Penteava languidamente os cabelos alaranjados muito compridos e ondulados, olhando para as pinturas do teto que ela mesma deixara na noite anterior. Sentando-se na cama, ele sentiu aquele cheiro de lavanda que ela exalava... Era como se, a todo momento, ela tivesse saído do banho. - Por que você sempre faz isso? - Isso o quê? - Entra pela minha janela enquanto estou dormindo. Você sabe que eu detesto isso. Ela deu ombros e girou os olhos. - Eu estava entediada... - Entediada às cinco horas da manhã?! - soou mais ríspido do que ele pretendia. Ela deu ombros novamente e saiu do quarto. Jacques podia apostar suas cuecas que ela fora assaltar a geladeira. Enquanto ela descia as escadas, ele se arrastou pra dentro do chuveiro. Quando saiu do banho,...

Apartamento Vazio

Os dias passam devagar desde que você foi embora. Vazios. Dias brancos e noites negras. Seus passos ainda reboam no corredor. A fumaça branca do meu último cigarro - e eu fumei três maços numa noite só - espirala em direção ao teto, mas nem todos os cigarros que fumei conseguiram disfarçar o perfume que você deixou, como num rastro, pela casa. A meia luz da cortina fechada ilumina o quarto. A lareira apagada mostra vestígios de lenha queimada. Uma garrafa vazia pende da minha mão esquerda e um cigarro, da direita. Meu corpo parece frágil e doente afundado nessa poltrona. No outro cômodo, encimando a escrivaninha, repousa a máquina de escrever, silenciosa pela primeira vez em dias. Cheguei a escrever dezoito poemas e cinco contos durante a madrugada. Palavras tão vazias quanto meus dias. Escritas somente na intenção de tirá-las dos meus pensamentos. Levanto-me, ou melhor, arrasto-me. Deixo de lado a garrafa e vou até a janela. A luz me fere os olhos, os prédios parecem cinzentos, ...

Domingo de Manhã

Entro no chuveiro e sinto a água escorrer pelo meu corpo. De olhos fechados, passo os dedos pelo meu rosto. A barba crescida arranha e coça, já está pela hora de fazê-la. Abro os olhos e apanho meu pequeno espelho e o barbeador. Num dos cantos do espelho, uma mancha de batom vermelho. O seu batom. Aquilo me tira do sério. Atiro o espelho pra fora do boxe com raiva. Não importa se estilhaçou e está no chão molhado. Era o que eu faria com qualquer outra lembrança sua, mas jamais seria capaz de fazer com você. Olho para minhas mãos, bronzeadas e cheias de sabão. Jamais sonhei que mãos rudes segurariam algo tão frágil, frívolo e mágico como você. E que sua passagem seria tão rápida, como quando apanhamos o sabonete em plena queda e ele escapole pelos dedos, e por mais que tentemos segura-lo, ele continua a cair. No outro quarto, escuto ela cantar. Mas ela não é você. Ela já conhece meu temperamento e não reclama, mas você... você conseguia arrancar o pior e o melhor de mim. As noites...

Amor adoecido

Ela colocou a escova de cabelos em cima da penteadeira e encarou pela última vez o reflexo louro de olhos azuis, enquanto ouvia ele se aproximar. Guardou os grampos na gaveta, espantou as lágrimas dos olhos com a ponta dos dedos e ficou encarando as próprias mãos, depositadas em cima de suas coxas. Passos pesados, de pés dentro de coturnos militares, vinham ao seu encontro no mesmo ritmo de seu coração lento e descompassado. Ela segurava os soluços como se segurasse sua vida. Mordia o lábio que insistia em tremer, denunciando-a. Os passos pararam às suas costas, mas ela jamais se atreveria a encarar o reflexo do espelho. Ali encontraria os duros olhos azuis de Matthäus, e se pegaria de novo admirando os traços fortes do seu rosto, o modo como seu cabelo loiro era cuidadosamente aparado, as narinas levemente infladas quando ele estava furioso. Ela vestia o presente que ele havia lhe dado, o lindo vestido tomara que caia que tanto pedira, cor azul cobalto. Nunca estivera mais boni...

O Último Adeus

Estava sentada à mesa, levemente curvada, a nuca pálida à mostra enquanto escrevia uma carta. Ajeitou os óculos num gesto habitual seu empurrando-os e emendou os movimentos, apoiando a testa na palma da mão com os olhos fechados, os dedos tomando uma palidez ainda maior. Ficou assim uns instantes e voltou a escrever. Seus olhos cor-de-noz, tristes e de longas pestanas, moviam-se pelo papel como a vasculhar algo muito importante. Ela procurava uma brecha na breve carta que escrevia ao seu pai, que morava do outro lado do continente europeu. Não achando nenhuma, assinou seu nome com um floreio. Aquela era só uma das muitas cartas que já escrevera, e seria a única a realmente chegar até o destinatário. Todas as outras estavam trancadas no fundo falso de sua mala pronta, ao pé da escada, e seriam queimadas assim que ela tivesse partido. Tirou os óculos, respirou fundo. Ouvia os passos dele se dirigindo ao escritório, a porta abrir, ele se aproximar de suas costas. Sentiu sua mão de d...