Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo junho

Trinado

Só um tolo beberia sangue de fada, diz o ditado. Para humanos, ele pode fazer enlouquecer. Para outras fadas, pode ser um veneno. Mas para quem se alimenta de outros seres... ah... Ele se torna um vício. Quando a vi novamente, quase duzentos anos depois de nos conhecermos, estávamos ambas mudadas. Enquanto eu preferia me retirar às sombras do anonimato, ela decidira usar todo o poder de sua aparência para conquistar um lugar onde poderia facilmente manejar seres humanos. Nos vimos do outro lado da rua, e ela logo veio até mim me cumprimentar. - Não é hora de moças como nós estarmos na rua. - deu uma risada rouca. - Essa é a hora exata para moças como eu. Felizmente sei me cuidar. - sorri para ela, perscrutando seus olhos escuros por alguma zombaria, mas não encontrei nenhuma. Ela sorriu e tomou-me uma das mãos, levando-a aos lábios e beijando-a delicadamente. Aquele beijo fez todos os pelos do meu corpo se arrepiarem, como se tivesse me eletrizado. Ela não se deixou abater pelo meu...

Crescendo

O som abafado de uma batida rítmica vinha do outro cômodo, mas a porta fechada garantia que estivéssemos sozinhas no escuro. Ouvi o som de suas asas de libélula tremendo de desejo, e uma fresta na porta lançava um raio de luz colorida que deixava ver a nuvem formada por sua respiração ofegante. Me aproximei devagar, encostando uma mão na parede atrás de sua cabeça e a outra em sua cintura. - Você tem certeza? Senti seu olhar vagar pelo quarto e ela respondeu com voz trêmula. - Tenho. Mesmo que ela não pudesse enxergar, sorri. Tateei seu rosto levemente, como a me guiar pelas mãos, e encontrei onde podia enfiar meus dedos por seus cabelos macios. Com a boca, encontrei sua frágil orelha e escorreguei minha língua por ela, deixando soprar um pouco de respiração. Como previ, isso foi lido como um sinal de desejo. Senti suas pequenas mãos agarrarem minha cintura e me puxarem para mais perto, chocando nossos quadris enquanto seus lábios procuravam os meus. Deixei escapar uma risada, ma...

À coragem

Para a cavidade sob o sexto par de costelas Minha querida companheira, Todos esses anos não percebi sua companhia, delicadamente movendo as peças quando necessário, mas acho que é chegada a hora de reconhecer seu mérito. Obrigada por ter me carregado através dos anos mesmo quando eu não conseguia enxergar o caminho a frente, ou me empurrado nos braços de determinadas oportunidades às quais eu não iria sozinha.  Nunca fui de me considerar uma pessoa corajosa, mas vejo que sou, sim, nas pequenas coisas. Eu escolhi andar descalça em um terreno em que a terra se mistura a espinhos, sendo totalmente genuína e aberta sobre o que sinto enquanto a maioria das pessoas se fecha. Espero que você me leve pela mão durante mais um ano. Afetuosamente, Juliana.

À dor

À minha fiel companheira, Sei que hoje não é tão comum nos encontrarmos. Ao mesmo tempo em que suspiro de alívio, estremeço por medo de ter me tornado mais fraca sem você. Quem sou eu sem a sua presença? Tenho minhas dúvidas. Sei que sua existência, por mais que pareça desagradável, também indicava que eu estava viva. O que cumpre essa função agora? Nós estivemos tão interligadas que estou tendo dificuldades em me encontrar longe de você. Te procuro cegamente à noite, esperando cair em lâminas ao final do corredor escuro, atravessando a rua de olhos vendados, pulando refeições, me autodestruindo de várias formas. Sei que é ingratidão minha ter reclamado tanto e agora te querer de volta. Você me perdoa por ter te deixado? Com carinho, Juliana.

À saudade

À minha mais nova amante, Se todos têm um vazio na alma, o meu foi preenchido totalmente pela sua presença. Quando a luz do sol vai sumindo e eu atravesso um cômodo, no canto dos olhos posso te observar atrás de mim. Se estou acordada, você se esconde sob os móveis enquanto fuma um cigarro cuja fumaça faz meu peito se apertar. Se durmo, você seleciona as imagens que preenchem meus sonhos e acordo no meio da noite apavorada ao ouvir o som de sinos dourados que é a risada dele. Não sei se quero que me deixe ou não. Mas não posso negar que você me envolve completamente, como ninguém fez antes, e seus dedos tocam cada faceta de mim. Reconheço sua presença e amor pela minha escuridão, e a amo de volta. Devotamente sua, Juliana.

Ao amor

Ao meu precioso, peço desculpas por ter levado tanto tempo sem te levar em conta. Quando finalmente acordei para encarar que era você quem me movia, já era tarde demais. E quando achei que tinha encontrado minha ligação eterna com você, ela se transformou em cinzas diante dos meus olhos. Mesmo assim, tento te procurar nas pequenas coisas, e devo confessar que isso tem sido quase impossivelmente difícil, mas venho sobrevivendo há dias impossíveis há algum tempo. Aquele sopro de frio gelado sempre vem pela porta, mas agora tenho trancado-a à chaves toda vez que ele vem. Como eu te encontraria novamente, se partisse daqui? Da sua fiel amiga, Juliana.

Cachoeiras do universo

Observei a tez bem escura de uma moça, cujo cabelo se punha como uma coroa de cabelos crespos, e imaginei como diria a ela que sua cor é belíssima. Imagino que nos confins do universo, o céu se transforma em água e jorra em cachoeira para se desfazer em nada. Todos os dias, uma das deusas leva um jarro na cabeça para colher a água e reabastecer um pequeno poço. Ela tem a pele da cor dos grãos de café e o corpo delgado, com um fino e elegante pescoço onde a cabeça divina repousa, o cabelo crespo cortado bem baixo de modo a fazer pequenos círculos onde deveriam ser cachos. Vestida de laranja e dourado, seu ventre hoje está menor que o normal pois ela deu a luz recentemente. A menina veio como um bebê frágil e que quase não respirava. Sábia, a mãe-deusa banhou o bebê no céu escuro sem estrelas e garantiu a ela a cor divina que tinha por direito. Mas não digo nada.

Como um meteorito

Pedi companhia à noite para que minha solidão não fosse aparente, e logo ela me cobriu com um manto negro de estrelas. Quando saí de casa, a lua já estava no céu, como um rosto a me observar lá de cima. Aumentei o som nos meus fones de ouvido até que as batidas ficassem quase  ensurdecedoras e obscurecessem os suspiros de outros como eu que estavam escondidos pelos cantos da cidade. Escondi uma adaga na bota e ajustei o vestido sob a manta da noite. Poucos passos e a situação que eu queria me foi oferecida. Uma porta de um bar bem iluminado que cheirava a carvalho abriu-se derramando luz dourada na calçada e um homem mal vestido foi jogado para fora. - E não volte mais! Está me ouvindo? O cabelo castanho do rapaz refletia de modo muito bonito a luz dourada, e seus olhos faiscaram na minha direção. Ele pareceu embaraçado por um segundo, antes de me oferecer o sorriso mais delicioso que eu já tinha visto e me estender a mão. - A senhorita, ao contrário, está muito convidada a entr...

Amor, amor

Seus dedos pálidos tocaram a tampa da caixinha de música com carinho. Alisou a madeira, tirando a camada de pó, e abriu-a. Notas trêmulas invadiram o ar, que de tão velho, dava ao quarto uma pátina de sépia. Sabia que assistira à um concerto em que aquela música tocara, há um milhão de anos. O vento fazia as cortinas endurecidas pelo tempo tremerem. Olhou por uns instantes para a janela, que fora fechada pelo lado de fora com grossas tábuas de madeira, que só deixavam o sol passar por pequenas frestas. Quando tornou a olhar para a caixinha de música, viu algo brilhante, escondido por entre as camadas de veludo. Refletia uma luz azulada e pequenina, como se fosse uma fada se escondendo. Com as pontas dos dedos já envelhecidos e afinados pelo tempo, afastou o pano com cuidado. - Ó, Joseph... Então foi aqui que você o escondeu. Lágrimas brotaram de seus olhos. Ela apanhou o objeto e rolou-o entre os dedos, incerta, até por fim encaixá-lo no anelar esquerdo. Ficou olhando para a própri...

Sol, areia e mar

- MAMÃE! Mamãe, veja o que eu acheeeei, depressa! Júlio tinha 5 anos, os olhos castanhos mais lindos do mundo e cabelos cor de chocolate, cujos cachos abundantes se espalhavam pela cabeça. Corria de um lado pro outro, afundando os pés na areia molhada e encontrando pequenos tesouros, a pele já rosada pelo sol. A mãe se aproximou, já um pouco cansada de ver tantas algas e conchas de todos os tamanhos e formas. Tentara se bronzear, mas o filho requeria atenção demais. Deixou-se convencer a caçar conchas com o menino. Aquilo, no entanto, não era nem alga nem concha. Era um carangueijo de casca meio esbranquiçada que o menino segurava nem uma das mãos e estendia para ela. - Largue o bichinho, Júlio, ele pode... Antes que avisasse, a garra do pequeno carangueijo prendeu-se ao dedão do menino, que imediatamente o largou e começou a chorar.  - Ora, venha cá. - A mãe o abraçou. - Você tem que tomar cuidado com as criaturas do mar, meu querido, carangueijos mesmo filhotinhos podem te ...

Dia de Verão

- Ei, você está acordado? Um grande e sonolento par de olhos azuis se abriu. Confuso, Jacques olhou em volta. Marine havia escalado de novo o suporte da hera e entrado por sua janela, e estava parada em pé junto ao guarda roupa. Penteava languidamente os cabelos alaranjados muito compridos e ondulados, olhando para as pinturas do teto que ela mesma deixara na noite anterior. Sentando-se na cama, ele sentiu aquele cheiro de lavanda que ela exalava... Era como se, a todo momento, ela tivesse saído do banho. - Por que você sempre faz isso? - Isso o quê? - Entra pela minha janela enquanto estou dormindo. Você sabe que eu detesto isso. Ela deu ombros e girou os olhos. - Eu estava entediada... - Entediada às cinco horas da manhã?! - soou mais ríspido do que ele pretendia. Ela deu ombros novamente e saiu do quarto. Jacques podia apostar suas cuecas que ela fora assaltar a geladeira. Enquanto ela descia as escadas, ele se arrastou pra dentro do chuveiro. Quando saiu do banho,...

Apartamento Vazio

Os dias passam devagar desde que você foi embora. Vazios. Dias brancos e noites negras. Seus passos ainda reboam no corredor. A fumaça branca do meu último cigarro - e eu fumei três maços numa noite só - espirala em direção ao teto, mas nem todos os cigarros que fumei conseguiram disfarçar o perfume que você deixou, como num rastro, pela casa. A meia luz da cortina fechada ilumina o quarto. A lareira apagada mostra vestígios de lenha queimada. Uma garrafa vazia pende da minha mão esquerda e um cigarro, da direita. Meu corpo parece frágil e doente afundado nessa poltrona. No outro cômodo, encimando a escrivaninha, repousa a máquina de escrever, silenciosa pela primeira vez em dias. Cheguei a escrever dezoito poemas e cinco contos durante a madrugada. Palavras tão vazias quanto meus dias. Escritas somente na intenção de tirá-las dos meus pensamentos. Levanto-me, ou melhor, arrasto-me. Deixo de lado a garrafa e vou até a janela. A luz me fere os olhos, os prédios parecem cinzentos, ...

Domingo de Manhã

Entro no chuveiro e sinto a água escorrer pelo meu corpo. De olhos fechados, passo os dedos pelo meu rosto. A barba crescida arranha e coça, já está pela hora de fazê-la. Abro os olhos e apanho meu pequeno espelho e o barbeador. Num dos cantos do espelho, uma mancha de batom vermelho. O seu batom. Aquilo me tira do sério. Atiro o espelho pra fora do boxe com raiva. Não importa se estilhaçou e está no chão molhado. Era o que eu faria com qualquer outra lembrança sua, mas jamais seria capaz de fazer com você. Olho para minhas mãos, bronzeadas e cheias de sabão. Jamais sonhei que mãos rudes segurariam algo tão frágil, frívolo e mágico como você. E que sua passagem seria tão rápida, como quando apanhamos o sabonete em plena queda e ele escapole pelos dedos, e por mais que tentemos segura-lo, ele continua a cair. No outro quarto, escuto ela cantar. Mas ela não é você. Ela já conhece meu temperamento e não reclama, mas você... você conseguia arrancar o pior e o melhor de mim. As noites...

Amor adoecido

Ela colocou a escova de cabelos em cima da penteadeira e encarou pela última vez o reflexo louro de olhos azuis, enquanto ouvia ele se aproximar. Guardou os grampos na gaveta, espantou as lágrimas dos olhos com a ponta dos dedos e ficou encarando as próprias mãos, depositadas em cima de suas coxas. Passos pesados, de pés dentro de coturnos militares, vinham ao seu encontro no mesmo ritmo de seu coração lento e descompassado. Ela segurava os soluços como se segurasse sua vida. Mordia o lábio que insistia em tremer, denunciando-a. Os passos pararam às suas costas, mas ela jamais se atreveria a encarar o reflexo do espelho. Ali encontraria os duros olhos azuis de Matthäus, e se pegaria de novo admirando os traços fortes do seu rosto, o modo como seu cabelo loiro era cuidadosamente aparado, as narinas levemente infladas quando ele estava furioso. Ela vestia o presente que ele havia lhe dado, o lindo vestido tomara que caia que tanto pedira, cor azul cobalto. Nunca estivera mais boni...

O Último Adeus

Estava sentada à mesa, levemente curvada, a nuca pálida à mostra enquanto escrevia uma carta. Ajeitou os óculos num gesto habitual seu empurrando-os e emendou os movimentos, apoiando a testa na palma da mão com os olhos fechados, os dedos tomando uma palidez ainda maior. Ficou assim uns instantes e voltou a escrever. Seus olhos cor-de-noz, tristes e de longas pestanas, moviam-se pelo papel como a vasculhar algo muito importante. Ela procurava uma brecha na breve carta que escrevia ao seu pai, que morava do outro lado do continente europeu. Não achando nenhuma, assinou seu nome com um floreio. Aquela era só uma das muitas cartas que já escrevera, e seria a única a realmente chegar até o destinatário. Todas as outras estavam trancadas no fundo falso de sua mala pronta, ao pé da escada, e seriam queimadas assim que ela tivesse partido. Tirou os óculos, respirou fundo. Ouvia os passos dele se dirigindo ao escritório, a porta abrir, ele se aproximar de suas costas. Sentiu sua mão de d...

Velha Alma Rabugenta

Num antigo calabouço de almas, ali estava ela. Já havia sido presa há tanto tempo que nem se lembrava mais de seus crimes e nem os guardas. Estava ali presa por convenção. No entanto, por mais que o tempo passasse, não deixava de reclamar. Passava o dia a resmungar e mastigar fumo, cuspindo-o numa jarra. Certo dia, alguém lhe deu um pedaço de giz. No dia seguinte, a alma não mais estava ali. As paredes escuras do calabouço, todavia, brilhavam com palavras prateadas, harmonicamente espalhadas como pombas brancas na noite. E as palavras cuidadosamente escritas diziam: "Eis que fujo desse calabouço para repousar eternamente em minhas palavras. Nada mais me segura nessas paredes. Minhas palavras hão de alcançar cada frestinha do mundo, e eu alcançarei os lugares mais belos junto delas. Fujo, sim, depois de tantos anos. Considerem uma aposentadoria de uma alma cansada e doente. Uma alma que nem corpo tinha para arrastar. No entanto, resmungar sempre me divertiu. Agradeço por ter tant...