Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo maio

Brisa Marítima

Ele subiu as escadas de madeira pé ante pé para não acordá-la, e abriu a porta com a certeza de que encontraria aquelas pálpebras rosadas ainda trêmulas, envolvidas num sonho. Entretando, os lençóis estavam arrumados e ela, sentada na janela, vestindo sua camisola branca de cetim. O cabelo preto caía-lhe pelos ombros, e seus olhos muito azuis estavam voltados para fora. - A dor é uma coisa muito difícil de se encarar, concorda? Todos nós, ao sentir dor, nos escondemos... - Que coisa para se pensar logo agora, Giulia. Desça daí, eu trouxe seu café. Ela o olhou com desprezo. - Você é muito mesquinho, Pierre. Jogou suas pernas magras pra fora da janela e pulou, deixando-o boquiaberto segurando uma bandeja cuidadosamente arrumada. Correu até a janela aberta e viu-a no jardim, espanando a grama de seus shortinhos que sempre vestia por baixo da camisola. - Giulia, onde você está indo? - gritei da janela, mais desesperado do que com raiva. - Não é óbvio? Estou fugindo! - ela gritou em...

Solitude

Muito poucos já experimentaram o verdadeiro valor da solidão. Não é algo passageiro, nem fácil de reconhecer. Essas minhas mãos velhas e calejadas bem o sabem, a solidão é silenciosa, escura e irreversível. Só um acontecimento muito grande nos tira ou nos põe nela... E quando meu Wilbert partiu no último inverno, tossindo sangue, já há muito sendo acariciado pela tuberculose, eu soube que ela viria. Não se sabe quando ela começa ou termina. Não há limiar desse sentimento, como há no dia e na noite. Só sei que, de repente, me descobri na escuridão sem me lembrar sequer de como era a luz. Meus cabelos, já brancos pela idade, foram caindo, e minha pele já velha, enrugou-se ainda mais, sulcos fundos marcados no meu rosto, trilha das lágrimas. A vida toda vivi nesse vilarejo, criando ovelhas. Estação vem, estação vai. Ordenhar. Tosar. Medicar... E tudo de novo, num ciclo sem fim. As pessoas vêm à minha fazendinha e nem vejo seus rostos, a solidão me tirou isso também. Não são minhas vista...

Aulas de Dança

Ela tinha quinze anos e ele, dezessete. Ele era alto e desengonçado, os braços longos e pálidos, e ela se movia com a graça de um cisne através do salão, rodopiando em seus sapatinhos recém engraxados. Cansada de vê-lo sempre num canto, treinando sozinho, ela desvencilhou-se dos vários meninos que queriam tê-la como par e se aproximou com cuidado. - Você gostaria de ser meu par? Ele tinha grandes olhos castanhos. Sorriu. - Adoraria. Algo dentro dela se aqueceu ao ver aquele sorriso, e ela o retribuiu, os olhos brilhando. Aproximou seu corpo do dele, colocando a mão em seu ombro e tomando-lhe a mão livre com delicadeza, e riu ao ver que ele tentava segurá-la como um bibelô. - Assim não, bobo. - Riso de cristal. - Aqui, coloque a mão na minha cintura. Você quer que eu guie? Você pode pisar nos meus pés. Algo dentro dele se aqueceu ao ver o sorriso dela, e ele assentiu, a expressão de espanto cuidadosamente disfarçada. A música começou ele tentava acompanhá-la. Ela olhou-o de ...

Foge comigo?

Me dê sua mão, me siga por essa trilha. Vê, no final dela brilha um raio de sol. Não, não tema, que bifurcações virão. Te levarei sempre pelos caminhos que têm mais flores. Pode ouvir? Os passarinhos chamam o seu nome, só o seu. Me dá a mão, vamos correr, que o vento bate nas folhas e traz esse burburinho, as árvores cochicham da beleza dos seus olhos. As andorinhas trouxeram um verão só pra você e eu, vem, que mal tem? Cuidado com esses galhinhos que querem te arranhar, eles não compreendem a nossa corrida atrás da felicidade. Prendem nos cabelos e nas roupas, fazem barulho, twic, twic, twic , perguntando em euforia... Onde vão? Quem são? O que querem? Vamos aonde nossos pés nos levam. Sou nada e quem me acompanha, é tudo. Queremos a fuga descompromissada atrás de algo novo. Trago uma cesta com frutas, que é pro meu amor não sentir fome. Trago uma estrela amarrada num lampião, que é pra iluminar quando anoitecer. Trago um pedaço de nuvem, pra descansar a cabeça, e um rouxinol m...

A Janela

Os cabelos em cachos caprichosos e vermelhos caíam pelas costas dela, e entre eles, podia se ver a tenra pele rosada que estava exposta. Ela usava um vestido de frente única e o cetim azul abraçava-lhe o corpo como um amante. Sentada de lado em uma cadeira, apoiava-se no encosto da janela cujos vidros estavam fechados. Seus tristes olhos castanhos olhavam uma figura se aproximar. Para vê-lo melhor, aproximou-se até sentir o vidro frio pressionando a ponta de seu nariz e seus longos cílios. Espalmou as mãos pequeninas e alvas contra a janela, as unhas longas arranhando o vidro, uma tentativa vã de segurar entre os dedos aquele momento. Lá vinha ele... O semblante sério, um cigarro pendendo molemente dos lábios, os olhos escuros e grandes semicerrados contra o vento frio. Os cabelos despenteados e a magreza davam um ar de desamparo ao seu rosto. Vinha apressado, mas aproximando-se da casa, parou de súbito como se algo chamasse sua atenção. Colada contra a janela, os olhos chorosos ...

Solitária I

Já era o quarto dia e já podia crer que meu juízo estava perdido. Mas deixe-me contar minha história, talvez isso me faça são. Certo dia, abri meus olhos. Ao invés do teto iluminado em tons pastéis pelo sol, achei estar cego, tamanha a escuridão ao meu redor. Toquei meu rosto pra perceber que estavam abertos e logo em seguida entrei em pânico. Encontrava-me deitado num catre, preso à uma parede de pedra, por correntes. Toquei meu próprio corpo em busca de cicatrizes, podiam ter roubado-me os órgãos enquanto dormia, um desses crimes terríveis dos dias de hoje. Mas nada estava fora do normal, e pelo que parecia, vestia o mesmo da noite anterior: meu suéter branco, minha camiseta, e minhas calças de pijama cor de creme. Levantei-me. Com braços esticados, segui as paredes e constatei que me achava num quarto vazio com paredes de pedra, na completa escuridão e tudo além do catre, era uma pia com água gelada, um sanitário e uma porta. Estava só. Fazia frio, e a única coisa que possuía ...

Ensinamentos de uma Criança

Com o tempo, aprendi que amores nascem, mas morrem também. Que amigos vêm, vão, voltam... E que inimigos se acumulam. Aprendi que nunca vou encontrar alguém igual a mim, apenas semelhante. E que as semelhanças também estarão nos meus erros. Aprendi que só se pode confiar em si mesmo, guardar um segredo é nunca contá-lo. Que o pôr-do-sol é mais bonito acompanhado. Que a música tem mais sentido quando se gosta de alguém. Que quando a gente faz alguma coisa pra alguém e com dedicação, fica muito melhor. Aprendi que falta de diálogo mata pessoas e relacionamentos, nessa ordem. E que beijos não curam feridas, nem fazem doer menos. Aprendi também que nunca se deve confiar muito nem no corpo, nem na mente. Eles mentem. Seguir o espírito é o ideal. Aprendi, a duras penas, que ninguém estará lá pra te confortar. Mas a maioria estará presente na sua derrota. Aprendi que levantar dói, mas é necessário após a queda; mesmo que ela seja consecutiva. Que momentos felizes são bons... mas sempre nos le...