Pular para o conteúdo principal

Solitude

Muito poucos já experimentaram o verdadeiro valor da solidão. Não é algo passageiro, nem fácil de reconhecer. Essas minhas mãos velhas e calejadas bem o sabem, a solidão é silenciosa, escura e irreversível. Só um acontecimento muito grande nos tira ou nos põe nela... E quando meu Wilbert partiu no último inverno, tossindo sangue, já há muito sendo acariciado pela tuberculose, eu soube que ela viria.
Não se sabe quando ela começa ou termina. Não há limiar desse sentimento, como há no dia e na noite. Só sei que, de repente, me descobri na escuridão sem me lembrar sequer de como era a luz. Meus cabelos, já brancos pela idade, foram caindo, e minha pele já velha, enrugou-se ainda mais, sulcos fundos marcados no meu rosto, trilha das lágrimas.
A vida toda vivi nesse vilarejo, criando ovelhas. Estação vem, estação vai. Ordenhar. Tosar. Medicar... E tudo de novo, num ciclo sem fim. As pessoas vêm à minha fazendinha e nem vejo seus rostos, a solidão me tirou isso também. Não são minhas vistas de velha, não senhor.
Olho no espelho e o que vejo são sombras. Sombras nos meus olhos que, de tanto chorar, ficaram aquosos... Olhos de velha sempre são chorosos, onde já se viu? Olhos de velha que se fecham ao escurecer mas jamais veem o amanhecer.
Bem, já está ficando tarde, já fechei o celeiro e as janelas. Hora de mais uma noite insone...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Palhacinho

Volta e meia me pego olhando para aquela vitrine da antiga loja de brinquedos, que há muito foi fechada mas até hoje ninguém ousou arrombar e roubar. Os vidros já estão amarelados e tudo lá dentro está coberto de poeira, claro, mas os brinquedos parecem conter espíritos vivos dentro de si. De cada prateleira, seus olhos chamejam em nossa direção. De novo olhei para a estante de madeira escura e observei aqueles que sempre vinha ver, e podia jurar que mudavam de direção. Uma boneca, com ar sapeca e maravilhosos cabelos cor de rosa; um marionete de madeira, cujo títere sempre estava seguro em sua mão; e um palhacinho um tanto quanto macabro. Era um daqueles brinquedos educativos... Um poste coberto por aros coloridos de borracha, e na ponta, para segurar os aros, uma cabecinha sorridente de palhaço. Sempre me intrigava aquele brinquedo. Era o que mais parecia se mexer de propósito quando eu não estava olhando, e sorria de modo angelical lá da estante. Durante os últimos dias, tive até pe...

Caçada

Entrei no quarto e fui atingida pelo cheiro fraco de incenso e perfume amadeirado, o chuveiro estava ligado e sussurrava baixinho no outro cômodo. Suas roupas estavam largadas de qualquer jeito sobre a cama, como se não pudesse esperar se livrar delas e tivesse arrancado de seu corpo assim que possível. Não era a primeira vez que eu entrava em um quarto barato de motel, com a cama desconfortável e ar burocrático, mas sentia uma pontada de ansiedade no fundo do estômago. Acho que é assim que a pantera se sente logo depois de avistar sua presa. Deixei meu casaco em uma cadeira e me aproximei da porta entreaberta do banheiro, de onde escapava vapor. Quando vi seu cabelo molhado e suas costas nuas, comecei a salivar. Lambi os lábios, nervosa, sedenta. Bati na porta com os nós dos dedos para anunciar minha chegada e encostei meu quadril na pia, de onde podia observa-lo. - Você quer companhia? Meus dedos já acariciavam o tecido de minha roupa, inquietos, esperando um sinal de aprovação...

Memória de um amor

Éramos namorados, amantes, exageradamente apaixonados. No começo não nos demos bem, e eu me lembro de fugir pelas ruas em longos saltos. Ele, sem nome, foi atrás de mim e admitiu que minhas palavras o tornaram obssessivo. Nossas similaridades envolviam transtornos mentais sérios e uma total dependência na figura materna, mas acabavam aí. Sua psicose era tão extrema, que durante as noites ele deixava o conforto da cama que dividíamos para procurar-me mesmo se eu estivesse deitada ao seu lado. Sua personalidade se mantinha constantemente na corda-bamba, embora sua arrogância nunca diminuísse. Mas seu amor era tão real que acordei sozinha, sentindo sua falta.