Pular para o conteúdo principal

Velha História

A noite tinha um aspecto achocolatado. Quente, seca, triste. De novo eu estava na janela, fumando meu cigarro pra ver se tirava os problemas do pensamento. Eram sempre os mesmos problemas... Por que eles vivem em círculos?
Meu problema é com teu sorriso. Dentes brancos que mastigam minh'alma. E também com seus olhos expressivos, que não se voltam para nada além do infinito sonho. Meu problema vem das tuas poucas carícias, da tua pouca opinião. Da tua pouca atenção. Do teu muito mistério.
Porque te fizeram assim, de massa mais pura e distinta da minha? Meus olhos são cascalho, os seus, ágatas marrons. Dos teus lábios em concha brotam pérolas, dos meus, palavras vazias. Minhas mãos rudes e desgraciosas tentam veementemente cobrir e acariciar as suas mãos de artista.
Bebo mais uma dose de uísque. Já deve ser o quarto ou quinto. Parei de contar as doses quando você parou de se preocupar. Mastigo uma ponta da gola do meu casaco, pois roer os dentes me dói. Uma lufada de ar quente entra pela janela, trazendo aquele seu perfume... Uma lágrima se dependura nos meus cílios, equilibrando-se antes de cair e manchar a carta escrita à minha frente.
Minha caligrafia sempre horrível me parece ainda mais grotesca agora, como se acompanhasse as ocilações do meu espírito. Se feliz, bela - se miserável, ininteligível. Não só é assim minha caligrafia, mas todos os aspectos do meu ser. São pequenas manivelas que formam meu modo de agir. E você veio e fez todas tremerem em hesitação.
Um conto de fadas, a alma medíocre que se apaixona pela mais bela. Os olhos vazios que veem dentro dos olhos cheios de segredo, aquilo que anseiam. A pele áspera que toca a pele suave. O fim.
Nada disso é novidade pra mim.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Encomenda

Metódico, cirurgicamente limpo, preciso. O sobretudo preto e a cartola de cetim da mesma cor; as delicadas luvas de pelica branca, tudo denotava sua classe. Era um assassino. E não era unicamente um assassino... era um gênio. O melhor e mais conhecido de todos os tempos, e além de tudo, o mais rico. Engraçado como essa noite não carregava sua maleta com seus preciosos instrumentos. Levava em uma das mãos sua bengala, engastada com pérolas negras; e na outra, um estranho embrulho branco. Era grande o suficiente para parecer um presente, mas a cobertura era uma tira de pano branco e simples. Não podia pertencer à nenhuma de suas amantes. Cuidadoso também nesse sentido, nunca deixara com que nenhuma delas sobrevivesse mais do que algumas noites de satisfação. Presenteava-as, claro, mas logo recuperava o lucro perdido. Até a noite em que a conhecera. Helena era uma figura mítica. Muito mais bela que Helena de Tróia, muito mais poderosa que qualquer rainha amazona. Seus cabelos de um ruivo ...

O Palhacinho

Volta e meia me pego olhando para aquela vitrine da antiga loja de brinquedos, que há muito foi fechada mas até hoje ninguém ousou arrombar e roubar. Os vidros já estão amarelados e tudo lá dentro está coberto de poeira, claro, mas os brinquedos parecem conter espíritos vivos dentro de si. De cada prateleira, seus olhos chamejam em nossa direção. De novo olhei para a estante de madeira escura e observei aqueles que sempre vinha ver, e podia jurar que mudavam de direção. Uma boneca, com ar sapeca e maravilhosos cabelos cor de rosa; um marionete de madeira, cujo títere sempre estava seguro em sua mão; e um palhacinho um tanto quanto macabro. Era um daqueles brinquedos educativos... Um poste coberto por aros coloridos de borracha, e na ponta, para segurar os aros, uma cabecinha sorridente de palhaço. Sempre me intrigava aquele brinquedo. Era o que mais parecia se mexer de propósito quando eu não estava olhando, e sorria de modo angelical lá da estante. Durante os últimos dias, tive até pe...

Ao amor

Ao meu precioso, peço desculpas por ter levado tanto tempo sem te levar em conta. Quando finalmente acordei para encarar que era você quem me movia, já era tarde demais. E quando achei que tinha encontrado minha ligação eterna com você, ela se transformou em cinzas diante dos meus olhos. Mesmo assim, tento te procurar nas pequenas coisas, e devo confessar que isso tem sido quase impossivelmente difícil, mas venho sobrevivendo há dias impossíveis há algum tempo. Aquele sopro de frio gelado sempre vem pela porta, mas agora tenho trancado-a à chaves toda vez que ele vem. Como eu te encontraria novamente, se partisse daqui? Da sua fiel amiga, Juliana.