Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo fantasia

Stacatto parte I

Assume-se que seres da noite como eu sentem repulsa por seres da luz, como anjos e outros parecidos com eles; mas não poderiam estar mais errados. Se não é a imensa vontade de corromper tudo o que é bom e belo, o que nos atrái é o caráter às vezes malicioso, enganador, como o das fadas. Tive minhas experiências com pessoas assim. Naquela noite em específico, entrei num clube noturno como tantos outros. Ultimamente um anjo, dentre todas as criaturas, andava frequentando os inferninhos comuns às outras raças. Era impossível não notá-lo: além do brilho dourado que emitia, estava cercado de mulheres de diversas espécies, todas hipnotizadas pela possibilidade de estar perto de um anjo. Claro que era bonito. Alto, dos olhos verdes e a pele tão branca e uniforme que parecia pedra. Parecia incrivelmente entediado, muito mais interessado em fumar um cigarro lentamente do que dar atenção à alguma de suas várias acompanhantes. Reconheci algumas das moças cujo olhar estasiado varria aquele rosto...

Trinado

Só um tolo beberia sangue de fada, diz o ditado. Para humanos, ele pode fazer enlouquecer. Para outras fadas, pode ser um veneno. Mas para quem se alimenta de outros seres... ah... Ele se torna um vício. Quando a vi novamente, quase duzentos anos depois de nos conhecermos, estávamos ambas mudadas. Enquanto eu preferia me retirar às sombras do anonimato, ela decidira usar todo o poder de sua aparência para conquistar um lugar onde poderia facilmente manejar seres humanos. Nos vimos do outro lado da rua, e ela logo veio até mim me cumprimentar. - Não é hora de moças como nós estarmos na rua. - deu uma risada rouca. - Essa é a hora exata para moças como eu. Felizmente sei me cuidar. - sorri para ela, perscrutando seus olhos escuros por alguma zombaria, mas não encontrei nenhuma. Ela sorriu e tomou-me uma das mãos, levando-a aos lábios e beijando-a delicadamente. Aquele beijo fez todos os pelos do meu corpo se arrepiarem, como se tivesse me eletrizado. Ela não se deixou abater pelo meu...

Arpeggio

Acordei suado com o corpo embolado entre os lençóis. Minha cabeça ainda estava confusa, mas a primeira coisa que percebi foram todos os meus nervos esticados por conta de uma onda avassaladora de tesão. O lençol escondia uma ereção quase dolorosa, ainda presa sob a cueca, que precisava ser resolvida o mais rápido possível. Eu tinha sonhado de novo com aquela mulher predadora. Saí de casa disposto a encontrá-la e trazê-la comigo, nem que isso custasse um preço um pouco alto demais. Entrei em alguns bares e clubes ao acaso, olhei rapidamente quem estava ali e saí de novo, mas encontrei meu objetivo quando me virei para o outro lado da rua. Lá estava ela, com um vestido fendado expondo uma das coxas, que estava sensualmente envolvida nos quadris de um homem trêmulo. Quando me aproximei ela cruzou olhares comigo e seus grandes olhos castanhos fizeram um calafrio cruzar meu corpo. Lambeu os lábios gostosamente e sorriu - fazendo eu sentir um latejar dentro das calças - e deixou o homem que...

Crescendo (continuação)

Com um estrondo, alguém abriu a porta o suficiente para enfiar a cabeça e olhar pra dentro, deixando derramar luz colorida e música alta pelo cômodo. Quando fixei meus olhos na moça, reconheci imediatamente no padrão de manchas em seu cabelo que ela era uma selkie. Ela olhou com desdém para o corpo que eu não me preocupei em cobrir e soltou uma risada baixa. - Não vou atrapalhar sua diversão. - depois, virou-se para minha companhia - Você sabe onde está se metendo? Senti uma pontada de adrenalina. Aquela selkie estava me desmascarando, já que não tinha tido atenção pra enfeitiçá-la também, mas minha companheira levantou seus olhos completamente negros e os estreitou em direção à ela, fazendo um gesto dismissivo para que saísse. A porta se fechou sozinha, empurrando a selkie e a luz para fora. - O quê...? - Eu sei quem você é. Seu feitiço não funciona em mim. Minha mente ficou em branco por um momento antes que a balbúrdia de perguntas preencherem todo o espaço. Essa situação ...

Fetiche

Deixei que o relógio terminasse de dar onze batidas no outro cômodo para enfim me levantar. Minha última aventura tinha me enfraquecido tanto que agora já tinha se passado uma semana que eu dormia, e não me sentia na melhor das disposições ainda. Mas a fome falava mais alto que a indisposição e meu interior parecia uma folha seca no fogo, cujos lados se curvam para dentro enquanto ela morre. Penteei os cabelos e me vesti de forma simples, não esperava nada dessa noite além de uma refeição quente. Saí, não andei nem duas quadras e já avistei meu tipo favorito: nas mãos uma garrafa meio vazia de aguardente, um cigarro pendendo dos lábios, roupas surradas e aquele ar de miséria. Podia reconhecer um escritor há milhas de distância. Não demorou para que me convidasse para seu apartamento, e quase estraguei a diversão quando minha boca tocou seu ombro. Ele cheirava a cigarro e perfume, o que era ao mesmo tempo desagradável e irresistível. O prédio onde ele vivia parecia ser habitado por ou...

Crescendo

O som abafado de uma batida rítmica vinha do outro cômodo, mas a porta fechada garantia que estivéssemos sozinhas no escuro. Ouvi o som de suas asas de libélula tremendo de desejo, e uma fresta na porta lançava um raio de luz colorida que deixava ver a nuvem formada por sua respiração ofegante. Me aproximei devagar, encostando uma mão na parede atrás de sua cabeça e a outra em sua cintura. - Você tem certeza? Senti seu olhar vagar pelo quarto e ela respondeu com voz trêmula. - Tenho. Mesmo que ela não pudesse enxergar, sorri. Tateei seu rosto levemente, como a me guiar pelas mãos, e encontrei onde podia enfiar meus dedos por seus cabelos macios. Com a boca, encontrei sua frágil orelha e escorreguei minha língua por ela, deixando soprar um pouco de respiração. Como previ, isso foi lido como um sinal de desejo. Senti suas pequenas mãos agarrarem minha cintura e me puxarem para mais perto, chocando nossos quadris enquanto seus lábios procuravam os meus. Deixei escapar uma risada, ma...

Como um meteorito

Pedi companhia à noite para que minha solidão não fosse aparente, e logo ela me cobriu com um manto negro de estrelas. Quando saí de casa, a lua já estava no céu, como um rosto a me observar lá de cima. Aumentei o som nos meus fones de ouvido até que as batidas ficassem quase  ensurdecedoras e obscurecessem os suspiros de outros como eu que estavam escondidos pelos cantos da cidade. Escondi uma adaga na bota e ajustei o vestido sob a manta da noite. Poucos passos e a situação que eu queria me foi oferecida. Uma porta de um bar bem iluminado que cheirava a carvalho abriu-se derramando luz dourada na calçada e um homem mal vestido foi jogado para fora. - E não volte mais! Está me ouvindo? O cabelo castanho do rapaz refletia de modo muito bonito a luz dourada, e seus olhos faiscaram na minha direção. Ele pareceu embaraçado por um segundo, antes de me oferecer o sorriso mais delicioso que eu já tinha visto e me estender a mão. - A senhorita, ao contrário, está muito convidada a entr...

Caçada

Entrei no quarto e fui atingida pelo cheiro fraco de incenso e perfume amadeirado, o chuveiro estava ligado e sussurrava baixinho no outro cômodo. Suas roupas estavam largadas de qualquer jeito sobre a cama, como se não pudesse esperar se livrar delas e tivesse arrancado de seu corpo assim que possível. Não era a primeira vez que eu entrava em um quarto barato de motel, com a cama desconfortável e ar burocrático, mas sentia uma pontada de ansiedade no fundo do estômago. Acho que é assim que a pantera se sente logo depois de avistar sua presa. Deixei meu casaco em uma cadeira e me aproximei da porta entreaberta do banheiro, de onde escapava vapor. Quando vi seu cabelo molhado e suas costas nuas, comecei a salivar. Lambi os lábios, nervosa, sedenta. Bati na porta com os nós dos dedos para anunciar minha chegada e encostei meu quadril na pia, de onde podia observa-lo. - Você quer companhia? Meus dedos já acariciavam o tecido de minha roupa, inquietos, esperando um sinal de aprovação...

O Orgulho e A Culpa

Caminhavam de mãos dadas por uma trilha. Joelhos ossudos e olhos fundos, cabelos finos e despenteados. A pele coberta de veias, hematomas, cicatrizes. A Culpa mantinha na outra mão uma série de fotografias, que já estavam amareladas, amassadas e rasgadas de tanto tempo e manuseio. Já sua pequena mão esquerda era segurada por um cavalheiro distinto. A pele escura e lustrosa, os olhos cor de ônix, uma cartola e um monóculo de ouro pendendo sob o nariz largo. Seus lábios grossos se moviam rapida e silenciosamente, sussurrando as próprias glórias. Volta e meia usava a mão livre para ajeitar sua bonita cartola de cetim no topo da gloriosa cabeça. E seguiam, cada um à sua maneira, para dentro da escuridão.

Ruínas

Meu palácio era de pedra escura. Pedregulhos grandes e rústicos formavam as paredes,  que tornaram os cômodos escuros e frios. Agora, gastas, as pedras são de um cinza sem graça. As janelas, de cristal claro como o dia, já foram cobertas por hera. Depois que os criados foram embora, meu palácio está sem cuidados... Os cômodos cobertos de tapeçarias turcas e lençóis de seda agora são apenas ninhos de traças. As velas dos castiçais não são mais trocadas e por isso vivo quase na escuridão total. O jardim? Ah, minhas queridas rosas vermelhas. A única delas que restou mantenho guardada seca, entre as páginas de um livro. O piano que existia na sala está desafinado há muito, muito tempo... E ninguém nunca mais veio tocar.

Conto terceiro

Os pés mal tocavam a areia quente, lépidos. Os cachos insistiam em entrar na frente de seus olhos, que escorriam, escorriam em cascatas. Nas costas, sangue e vestígios de luta, arranhões e uma asa arrancada, penas presas no sangue seco. Sua pele parecia um raio de luar e só usava um grande pedaço de cetim para cobrir-se como em uma toga com as costas abertas. E os olhos, que escorriam em cascatas. Sua asa restante movia-se trêmula, em pequenos espasmos, como que sentindo a falta da outra. Um filete rubro escorria diretamente de sua omoplata direita tal qual uma pequena mina d'água que brotara ali, manchando o tecido branco que envolvia seu corpo. Suas pernas estavam pesadas, cada vez mais pesadas, mas forçava-se à continuar, a correr naquela mesma direção. As pedras pontudas e a areia quente machucavam-lhe os pés, tão acostumados a voar, mas corria. Nuvens gordinhas se aglomeravam no céu do amanhecer todo colorido de violeta, rosa e dourado, e o sol despontava como...

Conto primeiro

Os cabelos brilhantes e de cor violenta, num estranho corte jovem, balançavam-se em volta de seu rosto como um halo. Ela corria e a cena sensual e juvenil de seus seios balançando fazia com que vários homens se virassem ao vê-la passar, e seu ar rebelde fazia as velhas senhoras balançarem a cabeça. Entrou na pequena loja de Earl, quase deslizando na madeira recém encerada e tocando o sininho perto da porta. Tudo ali parecia ser de outro século, até o próprio Earl. Ele era um boticário, e as prateleiras empoeiradas da loja continham toda sorte de vidrinhos com líquidos coloridos, quase um caleidoscópio. O velhinho, de olhos azuis e pele de seda, devia estar nos fundos fazendo suas preciosas fórmulas. Curiosa, contornou o balcão e pôs-se a examinar detidamente cada garrafinha de tamanho e cor diferente - cada uma parecia um pequeno tesouro, com suas cores vívidas e aura misteriosa. No entanto, um vidrinho chamou sua atenção. Era verde jade o líquido dentro dele, viscoso, p...

A Enforcada

A árvore era um grosso carvalho no jardim de trás. A casa era antiga, toda em estilo vitoriano, com aquela delicada pátina que apenas o tempo pode oferecer. Das varandas, pendiam samambaias que tocavam o chão como longos cabelos verdes, as janelas observavam a rua tão pitoresca quanto a casa. Joseph vinha visitá-la todas as tardes com uma flor na mão, roubada do cemitério. Não era bonito, mas era um rapaz atraente. Dotado de um sorriso gentil e mãos artísticas, ele era o pintor da pequena vila. Era frequentemente contratado para retratar a aristocracia quase rural daquela cidadela. Seus cabelos negros em ondas caprichosas estavam um tanto quanto amassados - arrumara uma nova namorada - e vinha em passos curtos com uma margarida na mão. Era amigo há meses de Manuela, a menina de olhos tristes e tez pálida. Em seus quinze anos, acumulava um incrível conhecimento filosófico e humanístico. Por ser hemofílica, a família a condenara a uma vida reclusa, cercada de delicadeza; e ela passava ...

Consulta

Delicado conto que levei um ano pra escrever, finalmente tive paciência para acabá-lo. - Por onde exatamente devo começar? - Comece por onde se sente mais confortável. - Mas... Ele pode aparecer... - É preciso confrontar todas as suas personalidades , para podermos tratá-las. Ou você não quer se tratar, Alexandra? Os grandes olhos se arregalaram ainda mais e ela enroscou-se na poltrona. Os cabelos cor de palha, com textura de teia de aranha, eram longuíssimos; tão longos que ultrapassavam a poltrona e iam repousar no carpete cor de vinho. Veemente, ela balançou a cabeça e abraçou os magros joelhos. - Ele... ele veio numa noite muito fria, a mais fria que me lembro. Da penteadeira , eu ouvia sussurros dizendo meu nome. Foi quando o vi encostado na cortina... Alexandra tomou uma pose diferente. Tombou as pestanas, sentou-se ereta , coçou uma barba inexistente. Quando falou, sua voz saiu do fundo do peito, grave e lenta. - Óbvio que era eu chamando, sua tonta...

Menina de Asas

O sonho de Elisa era voar. Seu quarto ficava no segundo andar da antiga casa, e sua janela ficava no meio do telhado. Ela punha-se pra fora subindo em uma cadeira e escalava as telhas até ficar lá no alto. Sentia o vento levantar seus cabelos e cheirava a humidade que vinha dos campos, tão distantes de seu pequeno bairro. Depois, cuidadosamente, descia de volta ao quarto pra fazer a lição de casa. A mãe a chamava para o almoço pontualmente ao meio dia, e antes de descer ela ainda olhava humildemente para o céu, estreitando os olhos para ver nuvens mais distantes. Depois da escola, deprimente e entediante, Elisa voltava pra casa olhando pro céu. Invejava os passarinhos e queria ser-lhes amiga, até aprendera a imitar seus cantos pra atraí-los. Quando achava um filhote, acariciava sua penugem macia imaginando como seria possuir grandes asas, brancas e macias como espuma do mar. Devolvendo o filhote ao ninho, ela seguia seu caminho habitual. À noite, à mesa com seus pais, a voz grave e...

Teus lábios finos

- Conte-me seus segredos. A voz que vinha da poltrona de costas para mim não deixava dúvidas, era ele que estava ali sentado. As pontas de seus longuíssimos cabelos loiros estavam enroladas sobre a manga de seu sobretudo, e tive um súbito desejo de trançá-las. Que tipo de amigo era eu, afinal? Havíamos nos conhecido no final de nossos cursos de Advocacia. Ele, sempre impecavelmente vestido, no auge de seus trinta e poucos, em seu terceiro curso superior. Sua família tinha uma vasta fortuna, que ele administrava cuidadosamente e lhe gerava lucros enormes. Eu? Eu era só mais um jovem medíocre que cruzava o campus todos o dias, carregando pilhas de livros e sem tempo entre o estudo e o trabalho. Aconteceu de, numa dessas cruzadas, ele passar por mim e tomar o primeiro livro da pilha que eu trazia e perguntar, com voz educada: - Será que se importaria de me emprestar este livro por três dias? Meu nome é Achille. Um Aquiles francês ou italiano, que estranho. E ele realmente tinha lábi...