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Caçada

Entrei no quarto e fui atingida pelo cheiro fraco de incenso e perfume amadeirado, o chuveiro estava ligado e sussurrava baixinho no outro cômodo. Suas roupas estavam largadas de qualquer jeito sobre a cama, como se não pudesse esperar se livrar delas e tivesse arrancado de seu corpo assim que possível. Não era a primeira vez que eu entrava em um quarto barato de motel, com a cama desconfortável e ar burocrático, mas sentia uma pontada de ansiedade no fundo do estômago. Acho que é assim que a pantera se sente logo depois de avistar sua presa.
Deixei meu casaco em uma cadeira e me aproximei da porta entreaberta do banheiro, de onde escapava vapor. Quando vi seu cabelo molhado e suas costas nuas, comecei a salivar. Lambi os lábios, nervosa, sedenta. Bati na porta com os nós dos dedos para anunciar minha chegada e encostei meu quadril na pia, de onde podia observa-lo. - Você quer companhia? Meus dedos já acariciavam o tecido de minha roupa, inquietos, esperando um sinal de aprovação. Ele…
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Memória de um amor

Éramos namorados, amantes, exageradamente apaixonados. No começo não nos demos bem, e eu me lembro de fugir pelas ruas em longos saltos. Ele, sem nome, foi atrás de mim e admitiu que minhas palavras o tornaram obssessivo. Nossas similaridades envolviam transtornos mentais sérios e uma total dependência na figura materna, mas acabavam aí. Sua psicose era tão extrema, que durante as noites ele deixava o conforto da cama que dividíamos para procurar-me mesmo se eu estivesse deitada ao seu lado. Sua personalidade se mantinha constantemente na corda-bamba, embora sua arrogância nunca diminuísse. Mas seu amor era tão real que acordei sozinha, sentindo sua falta.

Cetim

O parque de diversões abria pela primeira vez em muitos anos. Os brinquedos tinham ganhado uma nova demão de tinta, o cheiro de pipoca enchia o ar no fim da tarde e como já anoitecia, crianças mais novas já tinham ido embora. De tarde havia chovido e logo na entrada uma árvore tinha gotículas de chuva nas folhas. Quando Vicente passou por ela, alguém esbarrou no tronco e o cabelo preto dele se cobriu de minúsculas estrelas, que refletiam as luzes coloridas da roda gigante.
Ricardo esperava junto ao carrossel comendo um algodão doce nervosamente, mas o mundo parou quando viu o outro vindo em sua direção. Ricardo tinha esperando mais de um ano para convidar Vicente pra sair e o nervosismo o consumia. Quando Vicente chegou perto o suficiente, sorriu para ele e o apertou contra si em um abraço afetuoso.
Ricardo demorou um pouco a se soltar no fim do abraço, corando visivelmente. Apontando a roda gigante, disse em voz alta:
- Você não queria ir na roda gigante?
Vicente virou sua atenção p…

Arpeggio

Acordei suado com o corpo embolado entre os lençóis. Minha cabeça ainda estava confusa, mas a primeira coisa que percebi foram todos os meus nervos esticados por conta de uma onda avassaladora de tesão. O lençol escondia uma ereção quase dolorosa, ainda presa sob a cueca, que precisava ser resolvida o mais rápido possível. Eu tinha sonhado de novo com aquela mulher predadora.
Saí de casa disposto a encontrá-la e trazê-la comigo, nem que isso custasse um preço um pouco alto demais. Entrei em alguns bares e clubes ao acaso, olhei rapidamente quem estava ali e saí de novo, mas encontrei meu objetivo quando me virei para o outro lado da rua. Lá estava ela, com um vestido fendado expondo uma das coxas, que estava sensualmente envolvida nos quadris de um homem trêmulo. Quando me aproximei ela cruzou olhares comigo e seus grandes olhos castanhos fizeram um calafrio cruzar meu corpo. Lambeu os lábios gostosamente e sorriu - fazendo eu sentir um latejar dentro das calças - e deixou o homem que…

Crescendo (continuação)

Com um estrondo, alguém abriu a porta o suficiente para enfiar a cabeça e olhar pra dentro, deixando derramar luz colorida e música alta pelo cômodo. Quando fixei meus olhos na moça, reconheci imediatamente no padrão de manchas em seu cabelo que ela era uma selkie. Ela olhou com desdém para o corpo que eu não me preocupei em cobrir e soltou uma risada baixa.
- Não vou atrapalhar sua diversão. - depois, virou-se para minha companhia - Você sabe onde está se metendo?
Senti uma pontada de adrenalina. Aquela selkie estava me desmascarando, já que não tinha tido atenção pra enfeitiçá-la também, mas minha companheira levantou seus olhos completamente negros e os estreitou em direção à ela, fazendo um gesto dismissivo para que saísse.
A porta se fechou sozinha, empurrando a selkie e a luz para fora.
- O quê...?
- Eu sei quem você é. Seu feitiço não funciona em mim.
Minha mente ficou em branco por um momento antes que a balbúrdia de perguntas preencherem todo o espaço. Essa situação era tão a…

Branca de Neve

O barulho dos sapatos de dança contra o assoalho ditavam o ritmo. Tá-tá- tá-tá-tá. Mexi na gola do meu paletó, desconfortável, e empurrei meus óculos que teimavam em escorregar. As roupas emprestadas do meu irmão mais velho não causavam grande impressão, mas ao menos eu não parecia muito diferente dos outros rapazes. Aquelas eram as aulas de dança para o baile de inverno, dali a duas semanas, e eu nem ao menos tinha ideia de quem seria meu par. Para treinar, a professora me fazia colocar uma das mãos em sua cintura e com a outra, entrelaçava seus dedos roliços como salsichas nos meus.
Nenhuma das outras garotas parecia remotamente comigo - enquanto todas eram altas, magras e pareciam rosadas como pêssegos, eu era como um reflexo pálido na madeira escura. Não formaria um bom par com nenhuma delas e nenhuma aceitaria, se eu convidasse. Já era a décima vez que fazia a professora girar e dessa vez tinha que trocar de par e girar outra garota, mas no meio do caminho um dos meus sapatos d…

Fetiche

Deixei que o relógio terminasse de dar onze batidas no outro cômodo para enfim me levantar. Minha última aventura tinha me enfraquecido tanto que agora já tinha se passado uma semana que eu dormia, e não me sentia na melhor das disposições ainda. Mas a fome falava mais alto que a indisposição e meu interior parecia uma folha seca no fogo, cujos lados se curvam para dentro enquanto ela morre.
Penteei os cabelos e me vesti de forma simples, não esperava nada dessa noite além de uma refeição quente. Saí, não andei nem duas quadras e já avistei meu tipo favorito: nas mãos uma garrafa meio vazia de aguardente, um cigarro pendendo dos lábios, roupas surradas e aquele ar de miséria. Podia reconhecer um escritor há milhas de distância.
Não demorou para que me convidasse para seu apartamento, e quase estraguei a diversão quando minha boca tocou seu ombro. Ele cheirava a cigarro e perfume, o que era ao mesmo tempo desagradável e irresistível. O prédio onde ele vivia parecia ser habitado por out…

Jardim

Cada vez que sua mão alcançava a minha no alvoroço do momento, cascateavam jóias dos meus olhos. Cada palavra de amor que eu te dizia fazia rolarem pérolas dos meus lábios. Quando seu olhar tocava minha pele, eu sentia o calor do sol mesmo em um quarto escuro. Se seus lábios tocavam os meus, uma brisa envolvia minha alma e a tirava para dançar. Para cada vez que eu sorri para você, brotou uma flor. E, entre elas, caminho para sempre.

Crescendo

O som abafado de uma batida rítmica vinha do outro cômodo, mas a porta fechada garantia que estivéssemos sozinhas no escuro. Ouvi o som de suas asas de libélula tremendo de desejo, e uma fresta na porta lançava um raio de luz colorida que deixava ver a nuvem formada por sua respiração ofegante.
Me aproximei devagar, encostando uma mão na parede atrás de sua cabeça e a outra em sua cintura.
- Você tem certeza?
Senti seu olhar vagar pelo quarto e ela respondeu com voz trêmula.
- Tenho.
Mesmo que ela não pudesse enxergar, sorri. Tateei seu rosto levemente, como a me guiar pelas mãos, e encontrei onde podia enfiar meus dedos por seus cabelos macios. Com a boca, encontrei sua frágil orelha e escorreguei minha língua por ela, deixando soprar um pouco de respiração. Como previ, isso foi lido como um sinal de desejo. Senti suas pequenas mãos agarrarem minha cintura e me puxarem para mais perto, chocando nossos quadris enquanto seus lábios procuravam os meus.
Deixei escapar uma risada, mas nã…