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Mostrando postagens com o rótulo outubro

Memória de um amor

Éramos namorados, amantes, exageradamente apaixonados. No começo não nos demos bem, e eu me lembro de fugir pelas ruas em longos saltos. Ele, sem nome, foi atrás de mim e admitiu que minhas palavras o tornaram obssessivo. Nossas similaridades envolviam transtornos mentais sérios e uma total dependência na figura materna, mas acabavam aí. Sua psicose era tão extrema, que durante as noites ele deixava o conforto da cama que dividíamos para procurar-me mesmo se eu estivesse deitada ao seu lado. Sua personalidade se mantinha constantemente na corda-bamba, embora sua arrogância nunca diminuísse. Mas seu amor era tão real que acordei sozinha, sentindo sua falta.

O Orgulho e A Culpa

Caminhavam de mãos dadas por uma trilha. Joelhos ossudos e olhos fundos, cabelos finos e despenteados. A pele coberta de veias, hematomas, cicatrizes. A Culpa mantinha na outra mão uma série de fotografias, que já estavam amareladas, amassadas e rasgadas de tanto tempo e manuseio. Já sua pequena mão esquerda era segurada por um cavalheiro distinto. A pele escura e lustrosa, os olhos cor de ônix, uma cartola e um monóculo de ouro pendendo sob o nariz largo. Seus lábios grossos se moviam rapida e silenciosamente, sussurrando as próprias glórias. Volta e meia usava a mão livre para ajeitar sua bonita cartola de cetim no topo da gloriosa cabeça. E seguiam, cada um à sua maneira, para dentro da escuridão.

Eterno

Ela caminhou até o outro lado do quarto e se jogou no divã, estendendo as pernas e cruzando os tornozelos, os braços pendendo em cada lado do móvel. Suspirou muito alto, e virou-se de costas para mim. - Jéssica, - disse eu - eu estava falando. - Não me importo, há momentos em que o som da sua voz me cansa. Ofendido e um pouco magoado, fechei a boca ainda aberta para retrucar, mas que parara assim por pura surpresa. Alisei o linho das coxas da minha calça e, olhando em volta sem saber o que fazer, decidi sair do quarto para a varanda. Os móveis escuros e os muitos objetos pessoais espalhados ali não me deram resposta sobre como reagir. Trouxe comigo um copo de uísque, mesmo que fossem apenas nove da manhã. Deixei-o no balaústre de pedra, vitoriano e caríssimo, enquanto acendia um cigarro. Enquanto sentia a fumaça circular dentro de mim, senti-me relaxar os músculos das costas, ainda tensos. Realmente, não fazia sentido ficar chateado. Aquela era uma reação muito típica de Jesse. Vi...

Maresia

Ela beijava com lábios salgados e não me surpreendi quando me disse se chamar Marina. Aquela que vem do mar... Moramos juntos por alguns meses. Aos domingos à tarde ela se recolhia exatamente no meio do sofá, como uma grande papoula: seu cabelo amarelo espalhado para todos os lados, as pernas longas ocultas sob a saia do vestido vermelho. Era assim que preferia ler. Sempre que me emprestava algum de seus livros, o encontrava cheio de rabiscos e pequenos poeminhas, com dedicatória tão cheia de amor que só a ingenuidade traz. Mas ai de mim se pensasse que era sua única face. Certa vez cheguei ao quarto para achar lençóis e cortinas rasgados, parte do carpete arrancado do chão e rasgos vertiginosos no papel de parede que ela mesma escolhera (cheio de flores de liz, suas favoritas, em tons pastéis). Ela exigia mudança, e exigia agora . Eu mais me divertia do que realmente me enfurecia com seus súbitos tornados na alma... E quando seu mar voltava à calmaria, ela me beijava as pálpebras e c...

Serenata

Se teu riso não fosse tão fácil de decorar e se suas sobrancelhas não se juntassem com seus cílios longos de forma a tornar teus olhos tão expressivos, eu não estaria aqui. E se suas mãos não coubessem exatamente nas minhas, meus dedos pesariam nos seus até que você os largasse horrorizado. Talvez o caramelo da tua pele não combine com os tons inócuos da minha. Penso que seu sorriso, estrela esculpida em seu rosto - com pequenas falhas para não ser perfeito demais -, não possa ser, exatamente, comparado ao meu. Como se compara um baú de tesouro a uma concha achada na praia? Se é verdade o que dizem, que cada um tem um mundo em si, verdade seja dita que sou um planeta morto. Minha terra deserta e árvores mortas nem choram mais porque morrem de sede, mas ao ver você tudo estremeceu e salivou. Estou fadada a ser apenas isso: planetinha morto, enquanto assisto cometas maravilhosos passarem pela minha vida... e partirem. Geralmente por minha culpa. Como entreter figuras tão maravilhosas? C...

Bailarina

O palco estava vazio e escuro, as luzes apagadas. Nas sombras, porém, podia-se ver a forma de alguém sentado bem no meio dele. Um holofote se ligou no alto, formando uma roda de luz amarela, onde surgia a pálida forma de uma bailarina. Tudo nela era branco: sapatilhas brancas, meias finas brancas, vestidinho branco e cabelos tão platinados que pareciam prateados, caindo-lhe pelas costas. Levantou-se do chão com a graça e a delicadeza de uma pétala no vento, ficou na ponta dos pés e começou a girar. Em algum lugar, no velho teatro, um piano tristonho começara a tocar. Era uma peça belíssima, cujas notas ressoavam como lágrimas caindo num poço escuro e sem fundo. E a bailarina girava. Quando a música parou, já amanhecia e a luz começava a entrar pelas janelas no alto do teatro. A luz dourada iluminou as poltronas, as teias de aranha nas cortinas e a grossa camada de pó que cobria o palco, vazio há tanto tempo.  Fim do primeiro ato.

Neve Escura

O barulho dos passos na neve era reconfortante. Schrug, schrug, schrug ... As botas pareciam mais largas do que deviam ser e meus pés pequenos patinavam dentro delas. O vento fazia com que os flocos de neve batesse no meu rosto como navalinhas. Parei um instante, as mãos apoiadas nos joelhos, respirando o ar frio que lacerava meu peito. Olhei pra trás só pra observar minhas pegadas, mas metade delas já tinham sido apagadas pelo vento. Sem rastros. Continuei meu caminho. A noite era tão escura... Cada passo fazia meus pés doerem e meu rosto arder de frio. Sentia calafrios percorrerem não meu corpo, mas minha alma, como toda vez que tenho medo. Mas o medo já tinha me impedido de fazer tanta coisa, agora eu não falharia. A floresta ia se aproximando, os troncos das árvores tão negros quanto o céu sem estrelas, galhos sem folhas e aparência assustadora. Chamavam-na Floresta das Sombras e no inverno ninguém precisava perguntar o porquê. Schrug, schrug, schrug, schrug ... Comecei a lem...

Almas

Madrugada alta e o vento da noite me abraçava como a uma filha. O silêncio, meu companheiro das ruas desertas, já vinha me acompanhando há dias. A luz macia dos postes fazia meu rosto parecer ainda mais terrível do que já fora - aprofundava minhas marcas, sombreava meus ossos e tornava, senão cruéis, muito melancólicos aqueles meus olhos. E aquele silêncio... Aquele silêncio me incomodava. Quase ninguém sabe, mas há pessoas cuja alma canta. Ou vibra ao som de cordas. Ou mancha nossa visão com cores, de vez em quando. A minha devia ser cantante, mas há tanto tempo jazia calada... Como se tivessem apertado sua garganta. E por acaso a minha garganta também estava apertada agora. Na boca tinha aquele gosto de cabo de guarda chuva que a gente sente depois de acordar de ressaca e meus olhos estavam meio embaçados. Enquanto eu dobrava a esquina, começou a chover fininho. Pareciam lágrimas doces que acariciavam meu rosto, misturadas com as minhas, tão amargas. Pois quando a pessoa se tor...