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Mostrando postagens com o rótulo janeiro

Pó de Estrelas

Ser tocado por alguém que - mil tempestades caiam sobre mim - te ama é como se você permanecesse em uma cela escura por meses, até que alguém vem e espalma uma mão cheia de vagalumes em sua pele nua. Como se, depois de enegrecer seu rosto com carvão, alguém lhe soprasse uma brisa cheia de lantejoulas que acabassem por ficar presas em suas bochechas.

Poesia Matinal

- Que horas são? - Sete e meia da manhã. - Sério isso? Eu virei a noite outra vez? Mas que merda. Ele coçou a barba, revirou aqueles olhos fundos e agarrou a caneca favorita, que eu tinha enchido de café. - Você escreveu algo novo? - Nada. Continuo preso naquele projeto que sei que não vai render nada. - Não se preocupe, querido. Ele me tomou a mão, distraído, massageando-me as juntas com as pontas dos dedos. Depois, acendeu um cigarro e o deixou pender molemente nos lábios. - Você quer cortar os cabelos hoje? Aquele olhar de criança surpresa sempre me fascinara. Rasgou-se num sorriso agradecido. - Se você puder... Só não estranhe se eu dormir. E foi-se, sentou na cadeira alta, o cigarro nos lábios e a caneca numa das mãos, um caderninho na outra. Enfiado atrás de uma orelha, um lápis muito mordido. Joguei a capa por cima de seus ombros, molhei seu cabelo, ia apanhando tufos entre os dedos e a tesoura deslizava. - Como você pretende escrever ideias se não larga desse café? ...

Taça de Vinho

A campainha do apartamento tocou. Lógico que era ele, o porteiro já o tinha anunciado, mas ela não se impediu de dar uma rápida espiadela pelo olho de vidro. Do outro lado da porta, passando a mão destraidamente pelo cabelo, ele olhava para os quadros pendurados pelo corredor. Usando um terno grafite e camisa branca, ela podia até sentir o perfume dele chegar numa lufada de ar. Ajeitou o vestido rapidamente nos quadris e os dedos escorregadios tropeçaram na fechadura, até ela conseguir girar a chave. Cuidadosamente, abriu a porta, mordendo o lábio inferior. Ele, no entanto, não estava lá. - Charles? Você está aí? Uma mão se estendeu na direção dela, segurando uma brilhante rosa vermelha. O riso dela tilintou quando ele, dando um passo pro lado, surgiu na porta segurando um pequeno buquê de rosas. - Alô, querida. São para você... Não sabia se você gostava de flores, então trouxe poucas. - Eu as adoro, ainda mais agora. - Se eu soubesse, tinha trago duas dúzias de uma vez. Tomando...

Teus lábios finos

- Conte-me seus segredos. A voz que vinha da poltrona de costas para mim não deixava dúvidas, era ele que estava ali sentado. As pontas de seus longuíssimos cabelos loiros estavam enroladas sobre a manga de seu sobretudo, e tive um súbito desejo de trançá-las. Que tipo de amigo era eu, afinal? Havíamos nos conhecido no final de nossos cursos de Advocacia. Ele, sempre impecavelmente vestido, no auge de seus trinta e poucos, em seu terceiro curso superior. Sua família tinha uma vasta fortuna, que ele administrava cuidadosamente e lhe gerava lucros enormes. Eu? Eu era só mais um jovem medíocre que cruzava o campus todos o dias, carregando pilhas de livros e sem tempo entre o estudo e o trabalho. Aconteceu de, numa dessas cruzadas, ele passar por mim e tomar o primeiro livro da pilha que eu trazia e perguntar, com voz educada: - Será que se importaria de me emprestar este livro por três dias? Meu nome é Achille. Um Aquiles francês ou italiano, que estranho. E ele realmente tinha lábi...