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Mostrando postagens com o rótulo ficção

Stacatto parte I

Assume-se que seres da noite como eu sentem repulsa por seres da luz, como anjos e outros parecidos com eles; mas não poderiam estar mais errados. Se não é a imensa vontade de corromper tudo o que é bom e belo, o que nos atrái é o caráter às vezes malicioso, enganador, como o das fadas. Tive minhas experiências com pessoas assim. Naquela noite em específico, entrei num clube noturno como tantos outros. Ultimamente um anjo, dentre todas as criaturas, andava frequentando os inferninhos comuns às outras raças. Era impossível não notá-lo: além do brilho dourado que emitia, estava cercado de mulheres de diversas espécies, todas hipnotizadas pela possibilidade de estar perto de um anjo. Claro que era bonito. Alto, dos olhos verdes e a pele tão branca e uniforme que parecia pedra. Parecia incrivelmente entediado, muito mais interessado em fumar um cigarro lentamente do que dar atenção à alguma de suas várias acompanhantes. Reconheci algumas das moças cujo olhar estasiado varria aquele rosto...

Legatto

A vi pela primeira vez em na cidade que se chamaria Londres, dentro de uma liteira, com os cabelos dourados escondidos sob um véu azul salpicado de pontos de prata. O sol, que na época eu ainda podia tolerar, refletia nos ornamentos dourados do transporte. Era claro como o dia para mim que ela havia sido uma criança trocada por fadas, deixada no berço ao contrário de uma criança humana; mas seus pais e amigos não conseguiam reconhecer isso através do forte glamour que ela exalava. Mesmo a olhos treinados, ela tinha uma beleza sobrenatural. Entretanto, quem conseguia ver através de sua magia, podia visualizar suas pequenas tatuagens faciais que a marcavam como uma fada de algum escalão superior. Eu mesma só percebi por causa do extenso treinamento com bruxas. Seus pais verdadeiros haviam escolhido sua família humana com primor. Ela era considerada a filha de um casal muito rico e influente, senhores feudais de uma área nobre. Não vou mentir: Fayre era o amor da minha vida. Quando nos...

Trinado

Só um tolo beberia sangue de fada, diz o ditado. Para humanos, ele pode fazer enlouquecer. Para outras fadas, pode ser um veneno. Mas para quem se alimenta de outros seres... ah... Ele se torna um vício. Quando a vi novamente, quase duzentos anos depois de nos conhecermos, estávamos ambas mudadas. Enquanto eu preferia me retirar às sombras do anonimato, ela decidira usar todo o poder de sua aparência para conquistar um lugar onde poderia facilmente manejar seres humanos. Nos vimos do outro lado da rua, e ela logo veio até mim me cumprimentar. - Não é hora de moças como nós estarmos na rua. - deu uma risada rouca. - Essa é a hora exata para moças como eu. Felizmente sei me cuidar. - sorri para ela, perscrutando seus olhos escuros por alguma zombaria, mas não encontrei nenhuma. Ela sorriu e tomou-me uma das mãos, levando-a aos lábios e beijando-a delicadamente. Aquele beijo fez todos os pelos do meu corpo se arrepiarem, como se tivesse me eletrizado. Ela não se deixou abater pelo meu...

Renda

Hoje cedo tinham dependurado as bandeirinhas através da praça. Renata ajeitou os óculos escuros ao sair do restaurante e apertou sua jaqueta ao redor da cintura. Há duas semanas ela tinha chegado à cidade mas ainda parecia destoar onde quer que fosse, como se alguém colasse uma ilustração de uma dessas modelos do Instagram em um quadro de Monet. Sua pele morena refletia os tons dourados do sol do Rio de Janeiro enquanto ela descia a rua metida em um vestidinho esvoaçante cor de creme, claramente chamando a atenção por onde passava.  Ela se dirigia à praça com um livro nas mãos, a passos firmes, mas estacou onde estava ao fixar o olhar em um grupo de jovens logo à frente. Eram algumas moças também recém entradas na faculdade, como ela, que riam alto e sorriam muito, um pouco bêbadas. A mais alta delas tinha estampado no rosto um sorriso malicioso, que parecia perfeito para acompanhar sua aparência meio rebelde: sua cabeça parecia rodeada por vários vagalumes, pois seus vários brinc...

Memória de um amor

Éramos namorados, amantes, exageradamente apaixonados. No começo não nos demos bem, e eu me lembro de fugir pelas ruas em longos saltos. Ele, sem nome, foi atrás de mim e admitiu que minhas palavras o tornaram obssessivo. Nossas similaridades envolviam transtornos mentais sérios e uma total dependência na figura materna, mas acabavam aí. Sua psicose era tão extrema, que durante as noites ele deixava o conforto da cama que dividíamos para procurar-me mesmo se eu estivesse deitada ao seu lado. Sua personalidade se mantinha constantemente na corda-bamba, embora sua arrogância nunca diminuísse. Mas seu amor era tão real que acordei sozinha, sentindo sua falta.

Cetim

O parque de diversões abria pela primeira vez em muitos anos. Os brinquedos tinham ganhado uma nova demão de tinta, o cheiro de pipoca enchia o ar no fim da tarde e como já anoitecia, crianças mais novas já tinham ido embora. De tarde havia chovido e logo na entrada uma árvore tinha gotículas de chuva nas folhas. Quando Vicente passou por ela, alguém esbarrou no tronco e o cabelo preto dele se cobriu de minúsculas estrelas, que refletiam as luzes coloridas da roda gigante. Ricardo esperava junto ao carrossel comendo um algodão doce nervosamente, mas o mundo parou quando viu o outro vindo em sua direção. Ricardo tinha esperando mais de um ano para convidar Vicente pra sair e o nervosismo o consumia. Quando Vicente chegou perto o suficiente, sorriu para ele e o apertou contra si em um abraço afetuoso. Ricardo demorou um pouco a se soltar no fim do abraço, corando visivelmente. Apontando a roda gigante, disse em voz alta: - Você não queria ir na roda gigante? Vicente virou sua atençã...

Arpeggio

Acordei suado com o corpo embolado entre os lençóis. Minha cabeça ainda estava confusa, mas a primeira coisa que percebi foram todos os meus nervos esticados por conta de uma onda avassaladora de tesão. O lençol escondia uma ereção quase dolorosa, ainda presa sob a cueca, que precisava ser resolvida o mais rápido possível. Eu tinha sonhado de novo com aquela mulher predadora. Saí de casa disposto a encontrá-la e trazê-la comigo, nem que isso custasse um preço um pouco alto demais. Entrei em alguns bares e clubes ao acaso, olhei rapidamente quem estava ali e saí de novo, mas encontrei meu objetivo quando me virei para o outro lado da rua. Lá estava ela, com um vestido fendado expondo uma das coxas, que estava sensualmente envolvida nos quadris de um homem trêmulo. Quando me aproximei ela cruzou olhares comigo e seus grandes olhos castanhos fizeram um calafrio cruzar meu corpo. Lambeu os lábios gostosamente e sorriu - fazendo eu sentir um latejar dentro das calças - e deixou o homem que...

Branca de Neve

O barulho dos sapatos de dança contra o assoalho ditavam o ritmo. Tá-tá- tá  tá-tá- tá.  Mexi na gola do meu paletó, desconfortável, e empurrei meus óculos que teimavam em escorregar. As roupas emprestadas do meu irmão mais velho não causavam grande impressão, mas ao menos eu não parecia muito diferente dos outros rapazes. Aquelas eram as aulas de dança para o baile de inverno, dali a duas semanas, e eu nem ao menos tinha ideia de quem seria meu par. Para treinar, a professora me fazia colocar uma das mãos em sua cintura e com a outra, entrelaçava seus dedos roliços como salsichas nos meus. Nenhuma das outras garotas parecia remotamente comigo - enquanto todas eram altas, magras e pareciam rosadas como pêssegos, eu era como um reflexo pálido na madeira escura. Não formaria um bom par com nenhuma delas e nenhuma aceitaria, se eu convidasse. Já era a décima vez que fazia a professora girar e dessa vez tinha que trocar de par e girar outra garota, mas no meio do caminho um dos m...

Eterno

Ela caminhou até o outro lado do quarto e se jogou no divã, estendendo as pernas e cruzando os tornozelos, os braços pendendo em cada lado do móvel. Suspirou muito alto, e virou-se de costas para mim. - Jéssica, - disse eu - eu estava falando. - Não me importo, há momentos em que o som da sua voz me cansa. Ofendido e um pouco magoado, fechei a boca ainda aberta para retrucar, mas que parara assim por pura surpresa. Alisei o linho das coxas da minha calça e, olhando em volta sem saber o que fazer, decidi sair do quarto para a varanda. Os móveis escuros e os muitos objetos pessoais espalhados ali não me deram resposta sobre como reagir. Trouxe comigo um copo de uísque, mesmo que fossem apenas nove da manhã. Deixei-o no balaústre de pedra, vitoriano e caríssimo, enquanto acendia um cigarro. Enquanto sentia a fumaça circular dentro de mim, senti-me relaxar os músculos das costas, ainda tensos. Realmente, não fazia sentido ficar chateado. Aquela era uma reação muito típica de Jesse. Vi...

Maresia

Ela beijava com lábios salgados e não me surpreendi quando me disse se chamar Marina. Aquela que vem do mar... Moramos juntos por alguns meses. Aos domingos à tarde ela se recolhia exatamente no meio do sofá, como uma grande papoula: seu cabelo amarelo espalhado para todos os lados, as pernas longas ocultas sob a saia do vestido vermelho. Era assim que preferia ler. Sempre que me emprestava algum de seus livros, o encontrava cheio de rabiscos e pequenos poeminhas, com dedicatória tão cheia de amor que só a ingenuidade traz. Mas ai de mim se pensasse que era sua única face. Certa vez cheguei ao quarto para achar lençóis e cortinas rasgados, parte do carpete arrancado do chão e rasgos vertiginosos no papel de parede que ela mesma escolhera (cheio de flores de liz, suas favoritas, em tons pastéis). Ela exigia mudança, e exigia agora . Eu mais me divertia do que realmente me enfurecia com seus súbitos tornados na alma... E quando seu mar voltava à calmaria, ela me beijava as pálpebras e c...

Poesia Matinal

- Que horas são? - Sete e meia da manhã. - Sério isso? Eu virei a noite outra vez? Mas que merda. Ele coçou a barba, revirou aqueles olhos fundos e agarrou a caneca favorita, que eu tinha enchido de café. - Você escreveu algo novo? - Nada. Continuo preso naquele projeto que sei que não vai render nada. - Não se preocupe, querido. Ele me tomou a mão, distraído, massageando-me as juntas com as pontas dos dedos. Depois, acendeu um cigarro e o deixou pender molemente nos lábios. - Você quer cortar os cabelos hoje? Aquele olhar de criança surpresa sempre me fascinara. Rasgou-se num sorriso agradecido. - Se você puder... Só não estranhe se eu dormir. E foi-se, sentou na cadeira alta, o cigarro nos lábios e a caneca numa das mãos, um caderninho na outra. Enfiado atrás de uma orelha, um lápis muito mordido. Joguei a capa por cima de seus ombros, molhei seu cabelo, ia apanhando tufos entre os dedos e a tesoura deslizava. - Como você pretende escrever ideias se não larga desse café? ...

Taça de Vinho

A campainha do apartamento tocou. Lógico que era ele, o porteiro já o tinha anunciado, mas ela não se impediu de dar uma rápida espiadela pelo olho de vidro. Do outro lado da porta, passando a mão destraidamente pelo cabelo, ele olhava para os quadros pendurados pelo corredor. Usando um terno grafite e camisa branca, ela podia até sentir o perfume dele chegar numa lufada de ar. Ajeitou o vestido rapidamente nos quadris e os dedos escorregadios tropeçaram na fechadura, até ela conseguir girar a chave. Cuidadosamente, abriu a porta, mordendo o lábio inferior. Ele, no entanto, não estava lá. - Charles? Você está aí? Uma mão se estendeu na direção dela, segurando uma brilhante rosa vermelha. O riso dela tilintou quando ele, dando um passo pro lado, surgiu na porta segurando um pequeno buquê de rosas. - Alô, querida. São para você... Não sabia se você gostava de flores, então trouxe poucas. - Eu as adoro, ainda mais agora. - Se eu soubesse, tinha trago duas dúzias de uma vez. Tomando...

Olhos Teus

Minhas musas sempre tiveram pele clara e olhos azuis. Sardas que cobrem o nariz, cabelos que cascateiam pelos ombros. Já meus musos, esses sempre têm olhos escuros, andar melancólico e ar de quem desconhecem o bom sono. Como fui cair na armadilha de olhar nos teus olhos da mesma cor que os meus? Olhos que espelham o sorriso que se abre como flor da primavera toda vez que o meu olhar vai parar dentro deles. Olhos que lampejam luz, olhos de lava e água, minério de ferro e fogo.

Bailarina

O palco estava vazio e escuro, as luzes apagadas. Nas sombras, porém, podia-se ver a forma de alguém sentado bem no meio dele. Um holofote se ligou no alto, formando uma roda de luz amarela, onde surgia a pálida forma de uma bailarina. Tudo nela era branco: sapatilhas brancas, meias finas brancas, vestidinho branco e cabelos tão platinados que pareciam prateados, caindo-lhe pelas costas. Levantou-se do chão com a graça e a delicadeza de uma pétala no vento, ficou na ponta dos pés e começou a girar. Em algum lugar, no velho teatro, um piano tristonho começara a tocar. Era uma peça belíssima, cujas notas ressoavam como lágrimas caindo num poço escuro e sem fundo. E a bailarina girava. Quando a música parou, já amanhecia e a luz começava a entrar pelas janelas no alto do teatro. A luz dourada iluminou as poltronas, as teias de aranha nas cortinas e a grossa camada de pó que cobria o palco, vazio há tanto tempo.  Fim do primeiro ato.

Sussurro

- Você está arruinando minha vida. Ou o que resta dela. Os olhos escuros dele não responderam de imediato ao meu desabafo. Sorriu, aparentemente tão cansado quanto eu. - Me desculpe. Desabei na poltrona à sua frente, lágrimas escorrendo pelo meu rosto e ocasionalmente ficando presas nas lentes dos meus óculos escuros, formando gotas maiores e geladas. Antes que sua mão, grande e morena, me alcançasse, arranquei os óculos e limpei os olhos rudemente. - Seus olhos... - Eu sei. Levantei e fui parar, de costas para ele e de frente ao grande espelho inclinado que ficava sobre a cômoda. Realmente não era de se impressionar que ele comentasse dos meus olhos. Inchados pelo choro, avermelhados pelo cansaço e arroxeados pela falta de sono, eu era o retrato da miséria. Até meu rosto, agora muito sulcado, revelava que eu tinha passado pelo Vale das Sombras. - O que aconteceu? Antes, aquela pergunta me provocaria uma crise incontrolável. No entanto, mastiguei suas palavras, absorvendo lenta...

A Ruína

Uma estranha, dentro de seu carro esporte do último ano, cruzou os batentes da citadela. Levou o carro pelas ruelas até se aproximar da floresta. Abandonando o carro, seguiu a pé por uma pequena trilha entre as últimas casas. Apoiada na janela, uma senhora cujas rugas podiam dar-lhe mais de 100 anos, apertou os oblíquos olhos azuis para a visitante e sussurrou: - Ora, mas voltou, Madie... O rosto cansado se voltou para a velhinha. Os grandes olhos cor de noz pareciam tristes e vazios, círculos roxos e profundos os haviam sulcado naquela face. - Pois é, vó Gilda. A filha pródiga, à mãe retorna... Ela foi se afastando, e as casas foram ficando pra trás. O vento gelado do começo do inverno rodopiada em  torno de seus tornozelos, balançando seu vestido e atravessando seu casaco. Sentia sua pele arrepiar por baixo do tecido, mas já era tarde demais. Atravessou o limiar formado pelas árvores e foi seguindo por uma trilha meio escondida pelo mato, a luz diminuindo enquanto o sol se ...

Amor, amor

Seus dedos pálidos tocaram a tampa da caixinha de música com carinho. Alisou a madeira, tirando a camada de pó, e abriu-a. Notas trêmulas invadiram o ar, que de tão velho, dava ao quarto uma pátina de sépia. Sabia que assistira à um concerto em que aquela música tocara, há um milhão de anos. O vento fazia as cortinas endurecidas pelo tempo tremerem. Olhou por uns instantes para a janela, que fora fechada pelo lado de fora com grossas tábuas de madeira, que só deixavam o sol passar por pequenas frestas. Quando tornou a olhar para a caixinha de música, viu algo brilhante, escondido por entre as camadas de veludo. Refletia uma luz azulada e pequenina, como se fosse uma fada se escondendo. Com as pontas dos dedos já envelhecidos e afinados pelo tempo, afastou o pano com cuidado. - Ó, Joseph... Então foi aqui que você o escondeu. Lágrimas brotaram de seus olhos. Ela apanhou o objeto e rolou-o entre os dedos, incerta, até por fim encaixá-lo no anelar esquerdo. Ficou olhando para a própri...

Sol, areia e mar

- MAMÃE! Mamãe, veja o que eu acheeeei, depressa! Júlio tinha 5 anos, os olhos castanhos mais lindos do mundo e cabelos cor de chocolate, cujos cachos abundantes se espalhavam pela cabeça. Corria de um lado pro outro, afundando os pés na areia molhada e encontrando pequenos tesouros, a pele já rosada pelo sol. A mãe se aproximou, já um pouco cansada de ver tantas algas e conchas de todos os tamanhos e formas. Tentara se bronzear, mas o filho requeria atenção demais. Deixou-se convencer a caçar conchas com o menino. Aquilo, no entanto, não era nem alga nem concha. Era um carangueijo de casca meio esbranquiçada que o menino segurava nem uma das mãos e estendia para ela. - Largue o bichinho, Júlio, ele pode... Antes que avisasse, a garra do pequeno carangueijo prendeu-se ao dedão do menino, que imediatamente o largou e começou a chorar.  - Ora, venha cá. - A mãe o abraçou. - Você tem que tomar cuidado com as criaturas do mar, meu querido, carangueijos mesmo filhotinhos podem te ...

Brisa Marítima

Ele subiu as escadas de madeira pé ante pé para não acordá-la, e abriu a porta com a certeza de que encontraria aquelas pálpebras rosadas ainda trêmulas, envolvidas num sonho. Entretando, os lençóis estavam arrumados e ela, sentada na janela, vestindo sua camisola branca de cetim. O cabelo preto caía-lhe pelos ombros, e seus olhos muito azuis estavam voltados para fora. - A dor é uma coisa muito difícil de se encarar, concorda? Todos nós, ao sentir dor, nos escondemos... - Que coisa para se pensar logo agora, Giulia. Desça daí, eu trouxe seu café. Ela o olhou com desprezo. - Você é muito mesquinho, Pierre. Jogou suas pernas magras pra fora da janela e pulou, deixando-o boquiaberto segurando uma bandeja cuidadosamente arrumada. Correu até a janela aberta e viu-a no jardim, espanando a grama de seus shortinhos que sempre vestia por baixo da camisola. - Giulia, onde você está indo? - gritei da janela, mais desesperado do que com raiva. - Não é óbvio? Estou fugindo! - ela gritou em...

Aulas de Dança

Ela tinha quinze anos e ele, dezessete. Ele era alto e desengonçado, os braços longos e pálidos, e ela se movia com a graça de um cisne através do salão, rodopiando em seus sapatinhos recém engraxados. Cansada de vê-lo sempre num canto, treinando sozinho, ela desvencilhou-se dos vários meninos que queriam tê-la como par e se aproximou com cuidado. - Você gostaria de ser meu par? Ele tinha grandes olhos castanhos. Sorriu. - Adoraria. Algo dentro dela se aqueceu ao ver aquele sorriso, e ela o retribuiu, os olhos brilhando. Aproximou seu corpo do dele, colocando a mão em seu ombro e tomando-lhe a mão livre com delicadeza, e riu ao ver que ele tentava segurá-la como um bibelô. - Assim não, bobo. - Riso de cristal. - Aqui, coloque a mão na minha cintura. Você quer que eu guie? Você pode pisar nos meus pés. Algo dentro dele se aqueceu ao ver o sorriso dela, e ele assentiu, a expressão de espanto cuidadosamente disfarçada. A música começou ele tentava acompanhá-la. Ela olhou-o de ...