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Mostrando postagens com o rótulo Contos Suicidas

Sussurro

- Você está arruinando minha vida. Ou o que resta dela. Os olhos escuros dele não responderam de imediato ao meu desabafo. Sorriu, aparentemente tão cansado quanto eu. - Me desculpe. Desabei na poltrona à sua frente, lágrimas escorrendo pelo meu rosto e ocasionalmente ficando presas nas lentes dos meus óculos escuros, formando gotas maiores e geladas. Antes que sua mão, grande e morena, me alcançasse, arranquei os óculos e limpei os olhos rudemente. - Seus olhos... - Eu sei. Levantei e fui parar, de costas para ele e de frente ao grande espelho inclinado que ficava sobre a cômoda. Realmente não era de se impressionar que ele comentasse dos meus olhos. Inchados pelo choro, avermelhados pelo cansaço e arroxeados pela falta de sono, eu era o retrato da miséria. Até meu rosto, agora muito sulcado, revelava que eu tinha passado pelo Vale das Sombras. - O que aconteceu? Antes, aquela pergunta me provocaria uma crise incontrolável. No entanto, mastiguei suas palavras, absorvendo lenta...

Neve Escura

O barulho dos passos na neve era reconfortante. Schrug, schrug, schrug ... As botas pareciam mais largas do que deviam ser e meus pés pequenos patinavam dentro delas. O vento fazia com que os flocos de neve batesse no meu rosto como navalinhas. Parei um instante, as mãos apoiadas nos joelhos, respirando o ar frio que lacerava meu peito. Olhei pra trás só pra observar minhas pegadas, mas metade delas já tinham sido apagadas pelo vento. Sem rastros. Continuei meu caminho. A noite era tão escura... Cada passo fazia meus pés doerem e meu rosto arder de frio. Sentia calafrios percorrerem não meu corpo, mas minha alma, como toda vez que tenho medo. Mas o medo já tinha me impedido de fazer tanta coisa, agora eu não falharia. A floresta ia se aproximando, os troncos das árvores tão negros quanto o céu sem estrelas, galhos sem folhas e aparência assustadora. Chamavam-na Floresta das Sombras e no inverno ninguém precisava perguntar o porquê. Schrug, schrug, schrug, schrug ... Comecei a lem...

Conto terceiro

Os pés mal tocavam a areia quente, lépidos. Os cachos insistiam em entrar na frente de seus olhos, que escorriam, escorriam em cascatas. Nas costas, sangue e vestígios de luta, arranhões e uma asa arrancada, penas presas no sangue seco. Sua pele parecia um raio de luar e só usava um grande pedaço de cetim para cobrir-se como em uma toga com as costas abertas. E os olhos, que escorriam em cascatas. Sua asa restante movia-se trêmula, em pequenos espasmos, como que sentindo a falta da outra. Um filete rubro escorria diretamente de sua omoplata direita tal qual uma pequena mina d'água que brotara ali, manchando o tecido branco que envolvia seu corpo. Suas pernas estavam pesadas, cada vez mais pesadas, mas forçava-se à continuar, a correr naquela mesma direção. As pedras pontudas e a areia quente machucavam-lhe os pés, tão acostumados a voar, mas corria. Nuvens gordinhas se aglomeravam no céu do amanhecer todo colorido de violeta, rosa e dourado, e o sol despontava como...

Conto segundo

Ele era um jovem prodígio. Tocava violino desde os oito anos, num talento sem igual. Seus olhos castanhos e vívidos se fechavam quando suas mãos punham-se em ação , em melodias melancólicas e contagiantes. Não havia criança mais bela e tímida que ele na pequena vila. Seu pai era barbeiro, e ele o via afiar as lâminas cuidadosamente todas as tardes. Orgulhoso, o pai bagunçava os caprichados cachos do menino e pedia para que tocasse alguns minutos para ele. Ele sentava-se num banquinho , posicionava seu querido instrumento musical e fechava os olhos - os minutos seguintes se passavam num doce torpor. Sua pele pálida refletia os cálidos e últimos raios de sol, quando a barbearia era fechada, e o pai o convidava a ir jantar no restaurante da esquina. E lá iam os três, homem, garoto e violino. Ao chegar no conhecido lugar, sentavam-se numa mesa gasta e amarelada, pediam o prato do dia e comiam silenciosamente. Vez ou outra, passava um conhecido para cumprimentá -los e ver o brilho nos...

Conto primeiro

Os cabelos brilhantes e de cor violenta, num estranho corte jovem, balançavam-se em volta de seu rosto como um halo. Ela corria e a cena sensual e juvenil de seus seios balançando fazia com que vários homens se virassem ao vê-la passar, e seu ar rebelde fazia as velhas senhoras balançarem a cabeça. Entrou na pequena loja de Earl, quase deslizando na madeira recém encerada e tocando o sininho perto da porta. Tudo ali parecia ser de outro século, até o próprio Earl. Ele era um boticário, e as prateleiras empoeiradas da loja continham toda sorte de vidrinhos com líquidos coloridos, quase um caleidoscópio. O velhinho, de olhos azuis e pele de seda, devia estar nos fundos fazendo suas preciosas fórmulas. Curiosa, contornou o balcão e pôs-se a examinar detidamente cada garrafinha de tamanho e cor diferente - cada uma parecia um pequeno tesouro, com suas cores vívidas e aura misteriosa. No entanto, um vidrinho chamou sua atenção. Era verde jade o líquido dentro dele, viscoso, p...

A Enforcada

A árvore era um grosso carvalho no jardim de trás. A casa era antiga, toda em estilo vitoriano, com aquela delicada pátina que apenas o tempo pode oferecer. Das varandas, pendiam samambaias que tocavam o chão como longos cabelos verdes, as janelas observavam a rua tão pitoresca quanto a casa. Joseph vinha visitá-la todas as tardes com uma flor na mão, roubada do cemitério. Não era bonito, mas era um rapaz atraente. Dotado de um sorriso gentil e mãos artísticas, ele era o pintor da pequena vila. Era frequentemente contratado para retratar a aristocracia quase rural daquela cidadela. Seus cabelos negros em ondas caprichosas estavam um tanto quanto amassados - arrumara uma nova namorada - e vinha em passos curtos com uma margarida na mão. Era amigo há meses de Manuela, a menina de olhos tristes e tez pálida. Em seus quinze anos, acumulava um incrível conhecimento filosófico e humanístico. Por ser hemofílica, a família a condenara a uma vida reclusa, cercada de delicadeza; e ela passava ...