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Maresia

Ela beijava com lábios salgados e não me surpreendi quando me disse se chamar Marina. Aquela que vem do mar... Moramos juntos por alguns meses. Aos domingos à tarde ela se recolhia exatamente no meio do sofá, como uma grande papoula: seu cabelo amarelo espalhado para todos os lados, as pernas longas ocultas sob a saia do vestido vermelho. Era assim que preferia ler. Sempre que me emprestava algum de seus livros, o encontrava cheio de rabiscos e pequenos poeminhas, com dedicatória tão cheia de amor que só a ingenuidade traz.
Mas ai de mim se pensasse que era sua única face. Certa vez cheguei ao quarto para achar lençóis e cortinas rasgados, parte do carpete arrancado do chão e rasgos vertiginosos no papel de parede que ela mesma escolhera (cheio de flores de liz, suas favoritas, em tons pastéis). Ela exigia mudança, e exigia agora. Eu mais me divertia do que realmente me enfurecia com seus súbitos tornados na alma... E quando seu mar voltava à calmaria, ela me beijava as pálpebras e cantava ao meu ouvido...

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