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Stacatto parte I

Assume-se que seres da noite como eu sentem repulsa por seres da luz, como anjos e outros parecidos com eles; mas não poderiam estar mais errados. Se não é a imensa vontade de corromper tudo o que é bom e belo, o que nos atrái é o caráter às vezes malicioso, enganador, como o das fadas. Tive minhas experiências com pessoas assim.
Naquela noite em específico, entrei num clube noturno como tantos outros. Ultimamente um anjo, dentre todas as criaturas, andava frequentando os inferninhos comuns às outras raças. Era impossível não notá-lo: além do brilho dourado que emitia, estava cercado de mulheres de diversas espécies, todas hipnotizadas pela possibilidade de estar perto de um anjo. Claro que era bonito. Alto, dos olhos verdes e a pele tão branca e uniforme que parecia pedra.
Parecia incrivelmente entediado, muito mais interessado em fumar um cigarro lentamente do que dar atenção à alguma de suas várias acompanhantes. Reconheci algumas das moças cujo olhar estasiado varria aquele rosto em branco, e me lembrei que uma vez todas elas já olharam assim para mim.
Ao vê-lo ali, um dos pecados que eu menos conhecia me assaltou: inveja.
Enquanto eu reconhecia esse sentimento e divagava sobre isso, ele me perscrutou com curiosidade. Haviam boatos de que anjos conseguiam ver a presença física dos pecados de cada um, então aquela seria uma experiência nova, já que a luxúria que o cercava era tão intensa que até mesmo eu era capaz de ver a nuvem vermelha que o cercava.
Ele estava deitado de lado em um sofá de veludo escuro, as pernas dobradas languidamente, a cabeça no colo de uma ninfa que punha botões de rosa entre seus cachos. Não era difícil imaginá-lo nu, já que usava só um kilt com fendas. Não sabia se era sua beleza, suas diversas fãs, sua suposta bondade angelical - mas naquele momento, eu o detestava. Queria deixar marcada sua pele marmórea, cravar meus dentes em sua carne exposta, destruí-lo. Mas não sou burra. Sangue de anjo, assim que sái do ser em questão, apodrece. Qualquer um que tentasse se alimentar de um anjo, se deterioraria de dentro pra fora.
Balançar os quadris ao som das batidas era uma experiência excitante, erótica, e cada vez que trocava um beijo com alguém, ficavam algumas gotas de sangue dos seus lábios. Isso trazia uma sensação elétrica que corria pelos meus nervos, como se cada mordida gerasse uma corrente momentânea. Estava tão entretida com minha própria satisfação que não notei a aproximação do anjo até que ele roçasse o cotovelo no meu, tão próximo quanto um suspiro.
Ele me olhava, não com o desejo costumeiro causado pelo meu glamour, mas com grande curiosidade.


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