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Memória de um amor

Éramos namorados, amantes, exageradamente apaixonados. No começo não nos demos bem, e eu me lembro de fugir pelas ruas em longos saltos. Ele, sem nome, foi atrás de mim e admitiu que minhas palavras o tornaram obssessivo. Nossas similaridades envolviam transtornos mentais sérios e uma total dependência na figura materna, mas acabavam aí. Sua psicose era tão extrema, que durante as noites ele deixava o conforto da cama que dividíamos para procurar-me mesmo se eu estivesse deitada ao seu lado. Sua personalidade se mantinha constantemente na corda-bamba, embora sua arrogância nunca diminuísse. Mas seu amor era tão real que acordei sozinha, sentindo sua falta.

Cetim

O parque de diversões abria pela primeira vez em muitos anos. Os brinquedos tinham ganhado uma nova demão de tinta, o cheiro de pipoca enchia o ar no fim da tarde e como já anoitecia, crianças mais novas já tinham ido embora. De tarde havia chovido e logo na entrada uma árvore tinha gotículas de chuva nas folhas. Quando Vicente passou por ela, alguém esbarrou no tronco e o cabelo preto dele se cobriu de minúsculas estrelas, que refletiam as luzes coloridas da roda gigante. Ricardo esperava junto ao carrossel comendo um algodão doce nervosamente, mas o mundo parou quando viu o outro vindo em sua direção. Ricardo tinha esperando mais de um ano para convidar Vicente pra sair e o nervosismo o consumia. Quando Vicente chegou perto o suficiente, sorriu para ele e o apertou contra si em um abraço afetuoso. Ricardo demorou um pouco a se soltar no fim do abraço, corando visivelmente. Apontando a roda gigante, disse em voz alta: - Você não queria ir na roda gigante? Vicente virou sua atençã...

Arpeggio

Acordei suado com o corpo embolado entre os lençóis. Minha cabeça ainda estava confusa, mas a primeira coisa que percebi foram todos os meus nervos esticados por conta de uma onda avassaladora de tesão. O lençol escondia uma ereção quase dolorosa, ainda presa sob a cueca, que precisava ser resolvida o mais rápido possível. Eu tinha sonhado de novo com aquela mulher predadora. Saí de casa disposto a encontrá-la e trazê-la comigo, nem que isso custasse um preço um pouco alto demais. Entrei em alguns bares e clubes ao acaso, olhei rapidamente quem estava ali e saí de novo, mas encontrei meu objetivo quando me virei para o outro lado da rua. Lá estava ela, com um vestido fendado expondo uma das coxas, que estava sensualmente envolvida nos quadris de um homem trêmulo. Quando me aproximei ela cruzou olhares comigo e seus grandes olhos castanhos fizeram um calafrio cruzar meu corpo. Lambeu os lábios gostosamente e sorriu - fazendo eu sentir um latejar dentro das calças - e deixou o homem que...

Crescendo (continuação)

Com um estrondo, alguém abriu a porta o suficiente para enfiar a cabeça e olhar pra dentro, deixando derramar luz colorida e música alta pelo cômodo. Quando fixei meus olhos na moça, reconheci imediatamente no padrão de manchas em seu cabelo que ela era uma selkie. Ela olhou com desdém para o corpo que eu não me preocupei em cobrir e soltou uma risada baixa. - Não vou atrapalhar sua diversão. - depois, virou-se para minha companhia - Você sabe onde está se metendo? Senti uma pontada de adrenalina. Aquela selkie estava me desmascarando, já que não tinha tido atenção pra enfeitiçá-la também, mas minha companheira levantou seus olhos completamente negros e os estreitou em direção à ela, fazendo um gesto dismissivo para que saísse. A porta se fechou sozinha, empurrando a selkie e a luz para fora. - O quê...? - Eu sei quem você é. Seu feitiço não funciona em mim. Minha mente ficou em branco por um momento antes que a balbúrdia de perguntas preencherem todo o espaço. Essa situação ...

Branca de Neve

O barulho dos sapatos de dança contra o assoalho ditavam o ritmo. Tá-tá- tá  tá-tá- tá.  Mexi na gola do meu paletó, desconfortável, e empurrei meus óculos que teimavam em escorregar. As roupas emprestadas do meu irmão mais velho não causavam grande impressão, mas ao menos eu não parecia muito diferente dos outros rapazes. Aquelas eram as aulas de dança para o baile de inverno, dali a duas semanas, e eu nem ao menos tinha ideia de quem seria meu par. Para treinar, a professora me fazia colocar uma das mãos em sua cintura e com a outra, entrelaçava seus dedos roliços como salsichas nos meus. Nenhuma das outras garotas parecia remotamente comigo - enquanto todas eram altas, magras e pareciam rosadas como pêssegos, eu era como um reflexo pálido na madeira escura. Não formaria um bom par com nenhuma delas e nenhuma aceitaria, se eu convidasse. Já era a décima vez que fazia a professora girar e dessa vez tinha que trocar de par e girar outra garota, mas no meio do caminho um dos m...

Fetiche

Deixei que o relógio terminasse de dar onze batidas no outro cômodo para enfim me levantar. Minha última aventura tinha me enfraquecido tanto que agora já tinha se passado uma semana que eu dormia, e não me sentia na melhor das disposições ainda. Mas a fome falava mais alto que a indisposição e meu interior parecia uma folha seca no fogo, cujos lados se curvam para dentro enquanto ela morre. Penteei os cabelos e me vesti de forma simples, não esperava nada dessa noite além de uma refeição quente. Saí, não andei nem duas quadras e já avistei meu tipo favorito: nas mãos uma garrafa meio vazia de aguardente, um cigarro pendendo dos lábios, roupas surradas e aquele ar de miséria. Podia reconhecer um escritor há milhas de distância. Não demorou para que me convidasse para seu apartamento, e quase estraguei a diversão quando minha boca tocou seu ombro. Ele cheirava a cigarro e perfume, o que era ao mesmo tempo desagradável e irresistível. O prédio onde ele vivia parecia ser habitado por ou...

Jardim

Cada vez que sua mão alcançava a minha no alvoroço do momento, cascateavam jóias dos meus olhos. Cada palavra de amor que eu te dizia fazia rolarem pérolas dos meus lábios. Quando seu olhar tocava minha pele, eu sentia o calor do sol mesmo em um quarto escuro. Se seus lábios tocavam os meus, uma brisa envolvia minha alma e a tirava para dançar. Para cada vez que eu sorri para você, brotou uma flor. E, entre elas, caminho para sempre. 

Crescendo

O som abafado de uma batida rítmica vinha do outro cômodo, mas a porta fechada garantia que estivéssemos sozinhas no escuro. Ouvi o som de suas asas de libélula tremendo de desejo, e uma fresta na porta lançava um raio de luz colorida que deixava ver a nuvem formada por sua respiração ofegante. Me aproximei devagar, encostando uma mão na parede atrás de sua cabeça e a outra em sua cintura. - Você tem certeza? Senti seu olhar vagar pelo quarto e ela respondeu com voz trêmula. - Tenho. Mesmo que ela não pudesse enxergar, sorri. Tateei seu rosto levemente, como a me guiar pelas mãos, e encontrei onde podia enfiar meus dedos por seus cabelos macios. Com a boca, encontrei sua frágil orelha e escorreguei minha língua por ela, deixando soprar um pouco de respiração. Como previ, isso foi lido como um sinal de desejo. Senti suas pequenas mãos agarrarem minha cintura e me puxarem para mais perto, chocando nossos quadris enquanto seus lábios procuravam os meus. Deixei escapar uma risada, ma...

À coragem

Para a cavidade sob o sexto par de costelas Minha querida companheira, Todos esses anos não percebi sua companhia, delicadamente movendo as peças quando necessário, mas acho que é chegada a hora de reconhecer seu mérito. Obrigada por ter me carregado através dos anos mesmo quando eu não conseguia enxergar o caminho a frente, ou me empurrado nos braços de determinadas oportunidades às quais eu não iria sozinha.  Nunca fui de me considerar uma pessoa corajosa, mas vejo que sou, sim, nas pequenas coisas. Eu escolhi andar descalça em um terreno em que a terra se mistura a espinhos, sendo totalmente genuína e aberta sobre o que sinto enquanto a maioria das pessoas se fecha. Espero que você me leve pela mão durante mais um ano. Afetuosamente, Juliana.

À dor

À minha fiel companheira, Sei que hoje não é tão comum nos encontrarmos. Ao mesmo tempo em que suspiro de alívio, estremeço por medo de ter me tornado mais fraca sem você. Quem sou eu sem a sua presença? Tenho minhas dúvidas. Sei que sua existência, por mais que pareça desagradável, também indicava que eu estava viva. O que cumpre essa função agora? Nós estivemos tão interligadas que estou tendo dificuldades em me encontrar longe de você. Te procuro cegamente à noite, esperando cair em lâminas ao final do corredor escuro, atravessando a rua de olhos vendados, pulando refeições, me autodestruindo de várias formas. Sei que é ingratidão minha ter reclamado tanto e agora te querer de volta. Você me perdoa por ter te deixado? Com carinho, Juliana.

À saudade

À minha mais nova amante, Se todos têm um vazio na alma, o meu foi preenchido totalmente pela sua presença. Quando a luz do sol vai sumindo e eu atravesso um cômodo, no canto dos olhos posso te observar atrás de mim. Se estou acordada, você se esconde sob os móveis enquanto fuma um cigarro cuja fumaça faz meu peito se apertar. Se durmo, você seleciona as imagens que preenchem meus sonhos e acordo no meio da noite apavorada ao ouvir o som de sinos dourados que é a risada dele. Não sei se quero que me deixe ou não. Mas não posso negar que você me envolve completamente, como ninguém fez antes, e seus dedos tocam cada faceta de mim. Reconheço sua presença e amor pela minha escuridão, e a amo de volta. Devotamente sua, Juliana.

Ao amor

Ao meu precioso, peço desculpas por ter levado tanto tempo sem te levar em conta. Quando finalmente acordei para encarar que era você quem me movia, já era tarde demais. E quando achei que tinha encontrado minha ligação eterna com você, ela se transformou em cinzas diante dos meus olhos. Mesmo assim, tento te procurar nas pequenas coisas, e devo confessar que isso tem sido quase impossivelmente difícil, mas venho sobrevivendo há dias impossíveis há algum tempo. Aquele sopro de frio gelado sempre vem pela porta, mas agora tenho trancado-a à chaves toda vez que ele vem. Como eu te encontraria novamente, se partisse daqui? Da sua fiel amiga, Juliana.

Cachoeiras do universo

Observei a tez bem escura de uma moça, cujo cabelo se punha como uma coroa de cabelos crespos, e imaginei como diria a ela que sua cor é belíssima. Imagino que nos confins do universo, o céu se transforma em água e jorra em cachoeira para se desfazer em nada. Todos os dias, uma das deusas leva um jarro na cabeça para colher a água e reabastecer um pequeno poço. Ela tem a pele da cor dos grãos de café e o corpo delgado, com um fino e elegante pescoço onde a cabeça divina repousa, o cabelo crespo cortado bem baixo de modo a fazer pequenos círculos onde deveriam ser cachos. Vestida de laranja e dourado, seu ventre hoje está menor que o normal pois ela deu a luz recentemente. A menina veio como um bebê frágil e que quase não respirava. Sábia, a mãe-deusa banhou o bebê no céu escuro sem estrelas e garantiu a ela a cor divina que tinha por direito. Mas não digo nada.

Como um meteorito

Pedi companhia à noite para que minha solidão não fosse aparente, e logo ela me cobriu com um manto negro de estrelas. Quando saí de casa, a lua já estava no céu, como um rosto a me observar lá de cima. Aumentei o som nos meus fones de ouvido até que as batidas ficassem quase  ensurdecedoras e obscurecessem os suspiros de outros como eu que estavam escondidos pelos cantos da cidade. Escondi uma adaga na bota e ajustei o vestido sob a manta da noite. Poucos passos e a situação que eu queria me foi oferecida. Uma porta de um bar bem iluminado que cheirava a carvalho abriu-se derramando luz dourada na calçada e um homem mal vestido foi jogado para fora. - E não volte mais! Está me ouvindo? O cabelo castanho do rapaz refletia de modo muito bonito a luz dourada, e seus olhos faiscaram na minha direção. Ele pareceu embaraçado por um segundo, antes de me oferecer o sorriso mais delicioso que eu já tinha visto e me estender a mão. - A senhorita, ao contrário, está muito convidada a entr...

Caçada

Entrei no quarto e fui atingida pelo cheiro fraco de incenso e perfume amadeirado, o chuveiro estava ligado e sussurrava baixinho no outro cômodo. Suas roupas estavam largadas de qualquer jeito sobre a cama, como se não pudesse esperar se livrar delas e tivesse arrancado de seu corpo assim que possível. Não era a primeira vez que eu entrava em um quarto barato de motel, com a cama desconfortável e ar burocrático, mas sentia uma pontada de ansiedade no fundo do estômago. Acho que é assim que a pantera se sente logo depois de avistar sua presa. Deixei meu casaco em uma cadeira e me aproximei da porta entreaberta do banheiro, de onde escapava vapor. Quando vi seu cabelo molhado e suas costas nuas, comecei a salivar. Lambi os lábios, nervosa, sedenta. Bati na porta com os nós dos dedos para anunciar minha chegada e encostei meu quadril na pia, de onde podia observa-lo. - Você quer companhia? Meus dedos já acariciavam o tecido de minha roupa, inquietos, esperando um sinal de aprovação...

Veneno

Coloquei as mãos no meu colo e abri meus dedos, as palmas viradas para cima. Enquanto as unhas longas das quais eu tinha tanto orgulho despontavam, meus dedos finos e pálidos pareciam tingir-se gradualmente de preto. Quando pingamos uma gota de tinta na água e ela se espalha, mas a água sou eu. Estou apodrecendo. Lenta e continuamente. Eu que achava que tinha conseguido me lavar das marcas interiores que me faziam deteriorar antes, depois de raspar e desgastar a carne podre e acabar como um daqueles filhotes que nascem de um ovo com a carapaça tão mole e incolor que é a mesma coisa de estarem completamente nus, meu interior totalmente exposto e sensível e cru e torturado. Percebi que nada tem a ver com as marcas envenenadas, embora elas definitivamente tenham acelerado o processo. A corrupção vem de dentro.

Cela vazia

Alguns diriam que ele pediu por aquela situação. Vagando pelos corredores escuros, o que mais podia querer? Foi quando algo chamou sua atenção dentro de um dos quartos. Ele levantou seu lampião, tentando ver melhor, mas só encontrou a parede de pedra de mais uma cela. Adentrando o quarto, ele acendeu as poucas velas que ali existiam e olhou em volta. Aquele era um quarto vazio, mas pequenos detalhes denunciavam que alguém vivia ali. Os lençóis amassados no catre, migalhas sobre a mesa, uma cortina de trapos fechando a pequena janela gradeada. Foi quando observou melhor as sombras e viu algo se mexer. Aproximou-se delas, a mão estendida. - Vamos, deixe-me ver seu rosto. Olhos vazios se viraram para ele, semicerrados, porém cravados em seu rosto. Uma mão feita de névoa e noite se estendeu para ele e se colocou sobre a sua. - Tem certeza? - ela perguntou.

Noite escura

Um vento vindo do norte, úmido e salgado, entrou pela janela. O candelabro que eu usava para escrever uma carta foi apagado pelo sopro, e por um segundo vi as letras brilharem no pergaminho antes da luz se apagar por completo. Larguei a pena sobre a mesa, recostei-me na poltrona e fechei os olhos... Não que fizesse diferença, com a lua coberta por nuvens escuras, o quarto havia ficado na total escuridão. E ainda restava o gosto de sal deixado nos meus lábios, como se o mar tivesse me beijado, divertido com a minha frustração. Ouvi um leve burburinho aos poucos se elevar - eram aqueles malditos quadros que ele tinha deixado. Mesmo tirando todos da parede e virando-os de costas para mim, eles cochichavam entre si. Eu podia ouvir o tom debochado em seus cochichos, as risadinhas carregadas de veneno. Ouvi meu nome repetido várias vezes. - Ainda posso ouvir, vocês sabem. Mais risadas. No escuro, sozinha, eu nada podia fazer. Devia ter ateado fogo em todos quando tive oportunidade, aprovei...

O Orgulho e A Culpa

Caminhavam de mãos dadas por uma trilha. Joelhos ossudos e olhos fundos, cabelos finos e despenteados. A pele coberta de veias, hematomas, cicatrizes. A Culpa mantinha na outra mão uma série de fotografias, que já estavam amareladas, amassadas e rasgadas de tanto tempo e manuseio. Já sua pequena mão esquerda era segurada por um cavalheiro distinto. A pele escura e lustrosa, os olhos cor de ônix, uma cartola e um monóculo de ouro pendendo sob o nariz largo. Seus lábios grossos se moviam rapida e silenciosamente, sussurrando as próprias glórias. Volta e meia usava a mão livre para ajeitar sua bonita cartola de cetim no topo da gloriosa cabeça. E seguiam, cada um à sua maneira, para dentro da escuridão.