Caminhavam de mãos dadas por uma trilha. Joelhos ossudos e olhos fundos, cabelos finos e despenteados. A pele coberta de veias, hematomas, cicatrizes. A Culpa mantinha na outra mão uma série de fotografias, que já estavam amareladas, amassadas e rasgadas de tanto tempo e manuseio. Já sua pequena mão esquerda era segurada por um cavalheiro distinto. A pele escura e lustrosa, os olhos cor de ônix, uma cartola e um monóculo de ouro pendendo sob o nariz largo. Seus lábios grossos se moviam rapida e silenciosamente, sussurrando as próprias glórias. Volta e meia usava a mão livre para ajeitar sua bonita cartola de cetim no topo da gloriosa cabeça. E seguiam, cada um à sua maneira, para dentro da escuridão.
Volta e meia me pego olhando para aquela vitrine da antiga loja de brinquedos, que há muito foi fechada mas até hoje ninguém ousou arrombar e roubar. Os vidros já estão amarelados e tudo lá dentro está coberto de poeira, claro, mas os brinquedos parecem conter espíritos vivos dentro de si. De cada prateleira, seus olhos chamejam em nossa direção. De novo olhei para a estante de madeira escura e observei aqueles que sempre vinha ver, e podia jurar que mudavam de direção. Uma boneca, com ar sapeca e maravilhosos cabelos cor de rosa; um marionete de madeira, cujo títere sempre estava seguro em sua mão; e um palhacinho um tanto quanto macabro. Era um daqueles brinquedos educativos... Um poste coberto por aros coloridos de borracha, e na ponta, para segurar os aros, uma cabecinha sorridente de palhaço. Sempre me intrigava aquele brinquedo. Era o que mais parecia se mexer de propósito quando eu não estava olhando, e sorria de modo angelical lá da estante. Durante os últimos dias, tive até pe...
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