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Almas

Madrugada alta e o vento da noite me abraçava como a uma filha. O silêncio, meu companheiro das ruas desertas, já vinha me acompanhando há dias. A luz macia dos postes fazia meu rosto parecer ainda mais terrível do que já fora - aprofundava minhas marcas, sombreava meus ossos e tornava, senão cruéis, muito melancólicos aqueles meus olhos. E aquele silêncio... Aquele silêncio me incomodava. Quase ninguém sabe, mas há pessoas cuja alma canta. Ou vibra ao som de cordas. Ou mancha nossa visão com cores, de vez em quando. A minha devia ser cantante, mas há tanto tempo jazia calada... Como se tivessem apertado sua garganta. E por acaso a minha garganta também estava apertada agora. Na boca tinha aquele gosto de cabo de guarda chuva que a gente sente depois de acordar de ressaca e meus olhos estavam meio embaçados. Enquanto eu dobrava a esquina, começou a chover fininho. Pareciam lágrimas doces que acariciavam meu rosto, misturadas com as minhas, tão amargas. Pois quando a pessoa se tor...

Sofrimento Carmim II

Ajoelhada na cama, nua, os pulsos e tornozelos amarrados. Uma venda cobria seus olhos e uma mordaça selava seus lábios. Os cabelos quase azuis de tão negros estavam despenteados e caíam tampando os seios. Não que ela se importasse, se ele estivesse olhando. A pele rosada se arrepiou quando sentiu o perfume dele no ar. Tentou chamá-lo, mas a mordaça só permitia grunhir. - Shhh... Um dedo em riste tocou seus lábios. Aquele era sempre o momento favorito dos dois. A mordaça foi tirada delicadamente e também a venda. A pele dourada fazia os olhos azuis de seu senhor ainda mais bonitos aquela noite, mesmo coberta pelo terno. - Lhe comprei um presente e quero que use para mim. - Obrigada, meu senhor. Não mereço sua generosidade. Ele tirou do guarda-roupas uma caixa grande e branca. Abrindo-a, cobertas de cetim, estava um par de botas pretas de couro cano alto, salto fino, quase um pecado de tão bonitas. Os olhos dela marejaram. - Tem certeza? - Shhh. Seu senhor sempre tem ce...

Cinzas

Chove bonito e triste lá fora. E chove também aqui dentro de mim. O vapor do café se enrola nos meus cabelos enquanto tento engolir a situação. Chovem aqui no meu peito gotas castanhas, como mil reflexos dos seus olhos. Gotas de âmbar e mogno que escorrem por dentro das minhas costelas e arrastam consigo meu pouco amor próprio. Minhas mãos tremem. Meus olhos tremem. Meus ossos tremem na sua direção. Minhas palavras também tremem... Minhas preciosas palavras! A única coisa na qual podia me apoiar, esfarela sob meus dedos. E meu coração também se esfarelou. Tal qual pedaço duro de carvão que após a queima, mal resvala e já é cinzas. Nem brasa me restou. Só poeira escurecida e doce, como seus olhos e como a minha tristeza. Tão doces que fazem minha cabeça girar. Já passava da hora de te ver partir.

Velha História

A noite tinha um aspecto achocolatado. Quente, seca, triste. De novo eu estava na janela, fumando meu cigarro pra ver se tirava os problemas do pensamento. Eram sempre os mesmos problemas... Por que eles vivem em círculos? Meu problema é com teu sorriso. Dentes brancos que mastigam minh'alma. E também com seus olhos expressivos, que não se voltam para nada além do infinito sonho. Meu problema vem das tuas poucas carícias, da tua pouca opinião. Da tua pouca atenção. Do teu muito mistério. Porque te fizeram assim, de massa mais pura e distinta da minha? Meus olhos são cascalho, os seus, ágatas marrons. Dos teus lábios em concha brotam pérolas, dos meus, palavras vazias. Minhas mãos rudes e desgraciosas tentam veementemente cobrir e acariciar as suas mãos de artista. Bebo mais uma dose de uísque. Já deve ser o quarto ou quinto. Parei de contar as doses quando você parou de se preocupar. Mastigo uma ponta da gola do meu casaco, pois roer os dentes me dói. Uma lufada de ar quente ...

Dia de Verão

- Ei, você está acordado? Um grande e sonolento par de olhos azuis se abriu. Confuso, Jacques olhou em volta. Marine havia escalado de novo o suporte da hera e entrado por sua janela, e estava parada em pé junto ao guarda roupa. Penteava languidamente os cabelos alaranjados muito compridos e ondulados, olhando para as pinturas do teto que ela mesma deixara na noite anterior. Sentando-se na cama, ele sentiu aquele cheiro de lavanda que ela exalava... Era como se, a todo momento, ela tivesse saído do banho. - Por que você sempre faz isso? - Isso o quê? - Entra pela minha janela enquanto estou dormindo. Você sabe que eu detesto isso. Ela deu ombros e girou os olhos. - Eu estava entediada... - Entediada às cinco horas da manhã?! - soou mais ríspido do que ele pretendia. Ela deu ombros novamente e saiu do quarto. Jacques podia apostar suas cuecas que ela fora assaltar a geladeira. Enquanto ela descia as escadas, ele se arrastou pra dentro do chuveiro. Quando saiu do banho,...

Apartamento Vazio

Os dias passam devagar desde que você foi embora. Vazios. Dias brancos e noites negras. Seus passos ainda reboam no corredor. A fumaça branca do meu último cigarro - e eu fumei três maços numa noite só - espirala em direção ao teto, mas nem todos os cigarros que fumei conseguiram disfarçar o perfume que você deixou, como num rastro, pela casa. A meia luz da cortina fechada ilumina o quarto. A lareira apagada mostra vestígios de lenha queimada. Uma garrafa vazia pende da minha mão esquerda e um cigarro, da direita. Meu corpo parece frágil e doente afundado nessa poltrona. No outro cômodo, encimando a escrivaninha, repousa a máquina de escrever, silenciosa pela primeira vez em dias. Cheguei a escrever dezoito poemas e cinco contos durante a madrugada. Palavras tão vazias quanto meus dias. Escritas somente na intenção de tirá-las dos meus pensamentos. Levanto-me, ou melhor, arrasto-me. Deixo de lado a garrafa e vou até a janela. A luz me fere os olhos, os prédios parecem cinzentos, ...

Domingo de Manhã

Entro no chuveiro e sinto a água escorrer pelo meu corpo. De olhos fechados, passo os dedos pelo meu rosto. A barba crescida arranha e coça, já está pela hora de fazê-la. Abro os olhos e apanho meu pequeno espelho e o barbeador. Num dos cantos do espelho, uma mancha de batom vermelho. O seu batom. Aquilo me tira do sério. Atiro o espelho pra fora do boxe com raiva. Não importa se estilhaçou e está no chão molhado. Era o que eu faria com qualquer outra lembrança sua, mas jamais seria capaz de fazer com você. Olho para minhas mãos, bronzeadas e cheias de sabão. Jamais sonhei que mãos rudes segurariam algo tão frágil, frívolo e mágico como você. E que sua passagem seria tão rápida, como quando apanhamos o sabonete em plena queda e ele escapole pelos dedos, e por mais que tentemos segura-lo, ele continua a cair. No outro quarto, escuto ela cantar. Mas ela não é você. Ela já conhece meu temperamento e não reclama, mas você... você conseguia arrancar o pior e o melhor de mim. As noites...

Amor adoecido

Ela colocou a escova de cabelos em cima da penteadeira e encarou pela última vez o reflexo louro de olhos azuis, enquanto ouvia ele se aproximar. Guardou os grampos na gaveta, espantou as lágrimas dos olhos com a ponta dos dedos e ficou encarando as próprias mãos, depositadas em cima de suas coxas. Passos pesados, de pés dentro de coturnos militares, vinham ao seu encontro no mesmo ritmo de seu coração lento e descompassado. Ela segurava os soluços como se segurasse sua vida. Mordia o lábio que insistia em tremer, denunciando-a. Os passos pararam às suas costas, mas ela jamais se atreveria a encarar o reflexo do espelho. Ali encontraria os duros olhos azuis de Matthäus, e se pegaria de novo admirando os traços fortes do seu rosto, o modo como seu cabelo loiro era cuidadosamente aparado, as narinas levemente infladas quando ele estava furioso. Ela vestia o presente que ele havia lhe dado, o lindo vestido tomara que caia que tanto pedira, cor azul cobalto. Nunca estivera mais boni...

O Último Adeus

Estava sentada à mesa, levemente curvada, a nuca pálida à mostra enquanto escrevia uma carta. Ajeitou os óculos num gesto habitual seu empurrando-os e emendou os movimentos, apoiando a testa na palma da mão com os olhos fechados, os dedos tomando uma palidez ainda maior. Ficou assim uns instantes e voltou a escrever. Seus olhos cor-de-noz, tristes e de longas pestanas, moviam-se pelo papel como a vasculhar algo muito importante. Ela procurava uma brecha na breve carta que escrevia ao seu pai, que morava do outro lado do continente europeu. Não achando nenhuma, assinou seu nome com um floreio. Aquela era só uma das muitas cartas que já escrevera, e seria a única a realmente chegar até o destinatário. Todas as outras estavam trancadas no fundo falso de sua mala pronta, ao pé da escada, e seriam queimadas assim que ela tivesse partido. Tirou os óculos, respirou fundo. Ouvia os passos dele se dirigindo ao escritório, a porta abrir, ele se aproximar de suas costas. Sentiu sua mão de d...

Foge comigo?

Me dê sua mão, me siga por essa trilha. Vê, no final dela brilha um raio de sol. Não, não tema, que bifurcações virão. Te levarei sempre pelos caminhos que têm mais flores. Pode ouvir? Os passarinhos chamam o seu nome, só o seu. Me dá a mão, vamos correr, que o vento bate nas folhas e traz esse burburinho, as árvores cochicham da beleza dos seus olhos. As andorinhas trouxeram um verão só pra você e eu, vem, que mal tem? Cuidado com esses galhinhos que querem te arranhar, eles não compreendem a nossa corrida atrás da felicidade. Prendem nos cabelos e nas roupas, fazem barulho, twic, twic, twic , perguntando em euforia... Onde vão? Quem são? O que querem? Vamos aonde nossos pés nos levam. Sou nada e quem me acompanha, é tudo. Queremos a fuga descompromissada atrás de algo novo. Trago uma cesta com frutas, que é pro meu amor não sentir fome. Trago uma estrela amarrada num lampião, que é pra iluminar quando anoitecer. Trago um pedaço de nuvem, pra descansar a cabeça, e um rouxinol m...

A Janela

Os cabelos em cachos caprichosos e vermelhos caíam pelas costas dela, e entre eles, podia se ver a tenra pele rosada que estava exposta. Ela usava um vestido de frente única e o cetim azul abraçava-lhe o corpo como um amante. Sentada de lado em uma cadeira, apoiava-se no encosto da janela cujos vidros estavam fechados. Seus tristes olhos castanhos olhavam uma figura se aproximar. Para vê-lo melhor, aproximou-se até sentir o vidro frio pressionando a ponta de seu nariz e seus longos cílios. Espalmou as mãos pequeninas e alvas contra a janela, as unhas longas arranhando o vidro, uma tentativa vã de segurar entre os dedos aquele momento. Lá vinha ele... O semblante sério, um cigarro pendendo molemente dos lábios, os olhos escuros e grandes semicerrados contra o vento frio. Os cabelos despenteados e a magreza davam um ar de desamparo ao seu rosto. Vinha apressado, mas aproximando-se da casa, parou de súbito como se algo chamasse sua atenção. Colada contra a janela, os olhos chorosos ...

Solitária I

Já era o quarto dia e já podia crer que meu juízo estava perdido. Mas deixe-me contar minha história, talvez isso me faça são. Certo dia, abri meus olhos. Ao invés do teto iluminado em tons pastéis pelo sol, achei estar cego, tamanha a escuridão ao meu redor. Toquei meu rosto pra perceber que estavam abertos e logo em seguida entrei em pânico. Encontrava-me deitado num catre, preso à uma parede de pedra, por correntes. Toquei meu próprio corpo em busca de cicatrizes, podiam ter roubado-me os órgãos enquanto dormia, um desses crimes terríveis dos dias de hoje. Mas nada estava fora do normal, e pelo que parecia, vestia o mesmo da noite anterior: meu suéter branco, minha camiseta, e minhas calças de pijama cor de creme. Levantei-me. Com braços esticados, segui as paredes e constatei que me achava num quarto vazio com paredes de pedra, na completa escuridão e tudo além do catre, era uma pia com água gelada, um sanitário e uma porta. Estava só. Fazia frio, e a única coisa que possuía ...

Conto terceiro

Os pés mal tocavam a areia quente, lépidos. Os cachos insistiam em entrar na frente de seus olhos, que escorriam, escorriam em cascatas. Nas costas, sangue e vestígios de luta, arranhões e uma asa arrancada, penas presas no sangue seco. Sua pele parecia um raio de luar e só usava um grande pedaço de cetim para cobrir-se como em uma toga com as costas abertas. E os olhos, que escorriam em cascatas. Sua asa restante movia-se trêmula, em pequenos espasmos, como que sentindo a falta da outra. Um filete rubro escorria diretamente de sua omoplata direita tal qual uma pequena mina d'água que brotara ali, manchando o tecido branco que envolvia seu corpo. Suas pernas estavam pesadas, cada vez mais pesadas, mas forçava-se à continuar, a correr naquela mesma direção. As pedras pontudas e a areia quente machucavam-lhe os pés, tão acostumados a voar, mas corria. Nuvens gordinhas se aglomeravam no céu do amanhecer todo colorido de violeta, rosa e dourado, e o sol despontava como...

Conto segundo

Ele era um jovem prodígio. Tocava violino desde os oito anos, num talento sem igual. Seus olhos castanhos e vívidos se fechavam quando suas mãos punham-se em ação , em melodias melancólicas e contagiantes. Não havia criança mais bela e tímida que ele na pequena vila. Seu pai era barbeiro, e ele o via afiar as lâminas cuidadosamente todas as tardes. Orgulhoso, o pai bagunçava os caprichados cachos do menino e pedia para que tocasse alguns minutos para ele. Ele sentava-se num banquinho , posicionava seu querido instrumento musical e fechava os olhos - os minutos seguintes se passavam num doce torpor. Sua pele pálida refletia os cálidos e últimos raios de sol, quando a barbearia era fechada, e o pai o convidava a ir jantar no restaurante da esquina. E lá iam os três, homem, garoto e violino. Ao chegar no conhecido lugar, sentavam-se numa mesa gasta e amarelada, pediam o prato do dia e comiam silenciosamente. Vez ou outra, passava um conhecido para cumprimentá -los e ver o brilho nos...

Conto primeiro

Os cabelos brilhantes e de cor violenta, num estranho corte jovem, balançavam-se em volta de seu rosto como um halo. Ela corria e a cena sensual e juvenil de seus seios balançando fazia com que vários homens se virassem ao vê-la passar, e seu ar rebelde fazia as velhas senhoras balançarem a cabeça. Entrou na pequena loja de Earl, quase deslizando na madeira recém encerada e tocando o sininho perto da porta. Tudo ali parecia ser de outro século, até o próprio Earl. Ele era um boticário, e as prateleiras empoeiradas da loja continham toda sorte de vidrinhos com líquidos coloridos, quase um caleidoscópio. O velhinho, de olhos azuis e pele de seda, devia estar nos fundos fazendo suas preciosas fórmulas. Curiosa, contornou o balcão e pôs-se a examinar detidamente cada garrafinha de tamanho e cor diferente - cada uma parecia um pequeno tesouro, com suas cores vívidas e aura misteriosa. No entanto, um vidrinho chamou sua atenção. Era verde jade o líquido dentro dele, viscoso, p...

A Enforcada

A árvore era um grosso carvalho no jardim de trás. A casa era antiga, toda em estilo vitoriano, com aquela delicada pátina que apenas o tempo pode oferecer. Das varandas, pendiam samambaias que tocavam o chão como longos cabelos verdes, as janelas observavam a rua tão pitoresca quanto a casa. Joseph vinha visitá-la todas as tardes com uma flor na mão, roubada do cemitério. Não era bonito, mas era um rapaz atraente. Dotado de um sorriso gentil e mãos artísticas, ele era o pintor da pequena vila. Era frequentemente contratado para retratar a aristocracia quase rural daquela cidadela. Seus cabelos negros em ondas caprichosas estavam um tanto quanto amassados - arrumara uma nova namorada - e vinha em passos curtos com uma margarida na mão. Era amigo há meses de Manuela, a menina de olhos tristes e tez pálida. Em seus quinze anos, acumulava um incrível conhecimento filosófico e humanístico. Por ser hemofílica, a família a condenara a uma vida reclusa, cercada de delicadeza; e ela passava ...

Consulta

Delicado conto que levei um ano pra escrever, finalmente tive paciência para acabá-lo. - Por onde exatamente devo começar? - Comece por onde se sente mais confortável. - Mas... Ele pode aparecer... - É preciso confrontar todas as suas personalidades , para podermos tratá-las. Ou você não quer se tratar, Alexandra? Os grandes olhos se arregalaram ainda mais e ela enroscou-se na poltrona. Os cabelos cor de palha, com textura de teia de aranha, eram longuíssimos; tão longos que ultrapassavam a poltrona e iam repousar no carpete cor de vinho. Veemente, ela balançou a cabeça e abraçou os magros joelhos. - Ele... ele veio numa noite muito fria, a mais fria que me lembro. Da penteadeira , eu ouvia sussurros dizendo meu nome. Foi quando o vi encostado na cortina... Alexandra tomou uma pose diferente. Tombou as pestanas, sentou-se ereta , coçou uma barba inexistente. Quando falou, sua voz saiu do fundo do peito, grave e lenta. - Óbvio que era eu chamando, sua tonta...

Velha Alma Rabugenta

Num antigo calabouço de almas, ali estava ela. Já havia sido presa há tanto tempo que nem se lembrava mais de seus crimes e nem os guardas. Estava ali presa por convenção. No entanto, por mais que o tempo passasse, não deixava de reclamar. Passava o dia a resmungar e mastigar fumo, cuspindo-o numa jarra. Certo dia, alguém lhe deu um pedaço de giz. No dia seguinte, a alma não mais estava ali. As paredes escuras do calabouço, todavia, brilhavam com palavras prateadas, harmonicamente espalhadas como pombas brancas na noite. E as palavras cuidadosamente escritas diziam: "Eis que fujo desse calabouço para repousar eternamente em minhas palavras. Nada mais me segura nessas paredes. Minhas palavras hão de alcançar cada frestinha do mundo, e eu alcançarei os lugares mais belos junto delas. Fujo, sim, depois de tantos anos. Considerem uma aposentadoria de uma alma cansada e doente. Uma alma que nem corpo tinha para arrastar. No entanto, resmungar sempre me divertiu. Agradeço por ter tant...

Ensinamentos de uma Criança

Com o tempo, aprendi que amores nascem, mas morrem também. Que amigos vêm, vão, voltam... E que inimigos se acumulam. Aprendi que nunca vou encontrar alguém igual a mim, apenas semelhante. E que as semelhanças também estarão nos meus erros. Aprendi que só se pode confiar em si mesmo, guardar um segredo é nunca contá-lo. Que o pôr-do-sol é mais bonito acompanhado. Que a música tem mais sentido quando se gosta de alguém. Que quando a gente faz alguma coisa pra alguém e com dedicação, fica muito melhor. Aprendi que falta de diálogo mata pessoas e relacionamentos, nessa ordem. E que beijos não curam feridas, nem fazem doer menos. Aprendi também que nunca se deve confiar muito nem no corpo, nem na mente. Eles mentem. Seguir o espírito é o ideal. Aprendi, a duras penas, que ninguém estará lá pra te confortar. Mas a maioria estará presente na sua derrota. Aprendi que levantar dói, mas é necessário após a queda; mesmo que ela seja consecutiva. Que momentos felizes são bons... mas sempre nos le...

Menina de Asas

O sonho de Elisa era voar. Seu quarto ficava no segundo andar da antiga casa, e sua janela ficava no meio do telhado. Ela punha-se pra fora subindo em uma cadeira e escalava as telhas até ficar lá no alto. Sentia o vento levantar seus cabelos e cheirava a humidade que vinha dos campos, tão distantes de seu pequeno bairro. Depois, cuidadosamente, descia de volta ao quarto pra fazer a lição de casa. A mãe a chamava para o almoço pontualmente ao meio dia, e antes de descer ela ainda olhava humildemente para o céu, estreitando os olhos para ver nuvens mais distantes. Depois da escola, deprimente e entediante, Elisa voltava pra casa olhando pro céu. Invejava os passarinhos e queria ser-lhes amiga, até aprendera a imitar seus cantos pra atraí-los. Quando achava um filhote, acariciava sua penugem macia imaginando como seria possuir grandes asas, brancas e macias como espuma do mar. Devolvendo o filhote ao ninho, ela seguia seu caminho habitual. À noite, à mesa com seus pais, a voz grave e...