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Ruínas

Meu palácio era de pedra escura. Pedregulhos grandes e rústicos formavam as paredes,  que tornaram os cômodos escuros e frios. Agora, gastas, as pedras são de um cinza sem graça. As janelas, de cristal claro como o dia, já foram cobertas por hera. Depois que os criados foram embora, meu palácio está sem cuidados... Os cômodos cobertos de tapeçarias turcas e lençóis de seda agora são apenas ninhos de traças. As velas dos castiçais não são mais trocadas e por isso vivo quase na escuridão total. O jardim? Ah, minhas queridas rosas vermelhas. A única delas que restou mantenho guardada seca, entre as páginas de um livro. O piano que existia na sala está desafinado há muito, muito tempo... E ninguém nunca mais veio tocar.

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O Palhacinho

Volta e meia me pego olhando para aquela vitrine da antiga loja de brinquedos, que há muito foi fechada mas até hoje ninguém ousou arrombar e roubar. Os vidros já estão amarelados e tudo lá dentro está coberto de poeira, claro, mas os brinquedos parecem conter espíritos vivos dentro de si. De cada prateleira, seus olhos chamejam em nossa direção. De novo olhei para a estante de madeira escura e observei aqueles que sempre vinha ver, e podia jurar que mudavam de direção. Uma boneca, com ar sapeca e maravilhosos cabelos cor de rosa; um marionete de madeira, cujo títere sempre estava seguro em sua mão; e um palhacinho um tanto quanto macabro. Era um daqueles brinquedos educativos... Um poste coberto por aros coloridos de borracha, e na ponta, para segurar os aros, uma cabecinha sorridente de palhaço. Sempre me intrigava aquele brinquedo. Era o que mais parecia se mexer de propósito quando eu não estava olhando, e sorria de modo angelical lá da estante. Durante os últimos dias, tive até pe...

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Caçada

Entrei no quarto e fui atingida pelo cheiro fraco de incenso e perfume amadeirado, o chuveiro estava ligado e sussurrava baixinho no outro cômodo. Suas roupas estavam largadas de qualquer jeito sobre a cama, como se não pudesse esperar se livrar delas e tivesse arrancado de seu corpo assim que possível. Não era a primeira vez que eu entrava em um quarto barato de motel, com a cama desconfortável e ar burocrático, mas sentia uma pontada de ansiedade no fundo do estômago. Acho que é assim que a pantera se sente logo depois de avistar sua presa. Deixei meu casaco em uma cadeira e me aproximei da porta entreaberta do banheiro, de onde escapava vapor. Quando vi seu cabelo molhado e suas costas nuas, comecei a salivar. Lambi os lábios, nervosa, sedenta. Bati na porta com os nós dos dedos para anunciar minha chegada e encostei meu quadril na pia, de onde podia observa-lo. - Você quer companhia? Meus dedos já acariciavam o tecido de minha roupa, inquietos, esperando um sinal de aprovação...