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Domingo de Manhã

Entro no chuveiro e sinto a água escorrer pelo meu corpo. De olhos fechados, passo os dedos pelo meu rosto. A barba crescida arranha e coça, já está pela hora de fazê-la. Abro os olhos e apanho meu pequeno espelho e o barbeador. Num dos cantos do espelho, uma mancha de batom vermelho. O seu batom. Aquilo me tira do sério. Atiro o espelho pra fora do boxe com raiva. Não importa se estilhaçou e está no chão molhado. Era o que eu faria com qualquer outra lembrança sua, mas jamais seria capaz de fazer com você. Olho para minhas mãos, bronzeadas e cheias de sabão. Jamais sonhei que mãos rudes segurariam algo tão frágil, frívolo e mágico como você. E que sua passagem seria tão rápida, como quando apanhamos o sabonete em plena queda e ele escapole pelos dedos, e por mais que tentemos segura-lo, ele continua a cair. No outro quarto, escuto ela cantar. Mas ela não é você. Ela já conhece meu temperamento e não reclama, mas você... você conseguia arrancar o pior e o melhor de mim. As noites...

Amor adoecido

Ela colocou a escova de cabelos em cima da penteadeira e encarou pela última vez o reflexo louro de olhos azuis, enquanto ouvia ele se aproximar. Guardou os grampos na gaveta, espantou as lágrimas dos olhos com a ponta dos dedos e ficou encarando as próprias mãos, depositadas em cima de suas coxas. Passos pesados, de pés dentro de coturnos militares, vinham ao seu encontro no mesmo ritmo de seu coração lento e descompassado. Ela segurava os soluços como se segurasse sua vida. Mordia o lábio que insistia em tremer, denunciando-a. Os passos pararam às suas costas, mas ela jamais se atreveria a encarar o reflexo do espelho. Ali encontraria os duros olhos azuis de Matthäus, e se pegaria de novo admirando os traços fortes do seu rosto, o modo como seu cabelo loiro era cuidadosamente aparado, as narinas levemente infladas quando ele estava furioso. Ela vestia o presente que ele havia lhe dado, o lindo vestido tomara que caia que tanto pedira, cor azul cobalto. Nunca estivera mais boni...

O Último Adeus

Estava sentada à mesa, levemente curvada, a nuca pálida à mostra enquanto escrevia uma carta. Ajeitou os óculos num gesto habitual seu empurrando-os e emendou os movimentos, apoiando a testa na palma da mão com os olhos fechados, os dedos tomando uma palidez ainda maior. Ficou assim uns instantes e voltou a escrever. Seus olhos cor-de-noz, tristes e de longas pestanas, moviam-se pelo papel como a vasculhar algo muito importante. Ela procurava uma brecha na breve carta que escrevia ao seu pai, que morava do outro lado do continente europeu. Não achando nenhuma, assinou seu nome com um floreio. Aquela era só uma das muitas cartas que já escrevera, e seria a única a realmente chegar até o destinatário. Todas as outras estavam trancadas no fundo falso de sua mala pronta, ao pé da escada, e seriam queimadas assim que ela tivesse partido. Tirou os óculos, respirou fundo. Ouvia os passos dele se dirigindo ao escritório, a porta abrir, ele se aproximar de suas costas. Sentiu sua mão de d...

Foge comigo?

Me dê sua mão, me siga por essa trilha. Vê, no final dela brilha um raio de sol. Não, não tema, que bifurcações virão. Te levarei sempre pelos caminhos que têm mais flores. Pode ouvir? Os passarinhos chamam o seu nome, só o seu. Me dá a mão, vamos correr, que o vento bate nas folhas e traz esse burburinho, as árvores cochicham da beleza dos seus olhos. As andorinhas trouxeram um verão só pra você e eu, vem, que mal tem? Cuidado com esses galhinhos que querem te arranhar, eles não compreendem a nossa corrida atrás da felicidade. Prendem nos cabelos e nas roupas, fazem barulho, twic, twic, twic , perguntando em euforia... Onde vão? Quem são? O que querem? Vamos aonde nossos pés nos levam. Sou nada e quem me acompanha, é tudo. Queremos a fuga descompromissada atrás de algo novo. Trago uma cesta com frutas, que é pro meu amor não sentir fome. Trago uma estrela amarrada num lampião, que é pra iluminar quando anoitecer. Trago um pedaço de nuvem, pra descansar a cabeça, e um rouxinol m...

A Janela

Os cabelos em cachos caprichosos e vermelhos caíam pelas costas dela, e entre eles, podia se ver a tenra pele rosada que estava exposta. Ela usava um vestido de frente única e o cetim azul abraçava-lhe o corpo como um amante. Sentada de lado em uma cadeira, apoiava-se no encosto da janela cujos vidros estavam fechados. Seus tristes olhos castanhos olhavam uma figura se aproximar. Para vê-lo melhor, aproximou-se até sentir o vidro frio pressionando a ponta de seu nariz e seus longos cílios. Espalmou as mãos pequeninas e alvas contra a janela, as unhas longas arranhando o vidro, uma tentativa vã de segurar entre os dedos aquele momento. Lá vinha ele... O semblante sério, um cigarro pendendo molemente dos lábios, os olhos escuros e grandes semicerrados contra o vento frio. Os cabelos despenteados e a magreza davam um ar de desamparo ao seu rosto. Vinha apressado, mas aproximando-se da casa, parou de súbito como se algo chamasse sua atenção. Colada contra a janela, os olhos chorosos ...

Solitária I

Já era o quarto dia e já podia crer que meu juízo estava perdido. Mas deixe-me contar minha história, talvez isso me faça são. Certo dia, abri meus olhos. Ao invés do teto iluminado em tons pastéis pelo sol, achei estar cego, tamanha a escuridão ao meu redor. Toquei meu rosto pra perceber que estavam abertos e logo em seguida entrei em pânico. Encontrava-me deitado num catre, preso à uma parede de pedra, por correntes. Toquei meu próprio corpo em busca de cicatrizes, podiam ter roubado-me os órgãos enquanto dormia, um desses crimes terríveis dos dias de hoje. Mas nada estava fora do normal, e pelo que parecia, vestia o mesmo da noite anterior: meu suéter branco, minha camiseta, e minhas calças de pijama cor de creme. Levantei-me. Com braços esticados, segui as paredes e constatei que me achava num quarto vazio com paredes de pedra, na completa escuridão e tudo além do catre, era uma pia com água gelada, um sanitário e uma porta. Estava só. Fazia frio, e a única coisa que possuía ...

Conto terceiro

Os pés mal tocavam a areia quente, lépidos. Os cachos insistiam em entrar na frente de seus olhos, que escorriam, escorriam em cascatas. Nas costas, sangue e vestígios de luta, arranhões e uma asa arrancada, penas presas no sangue seco. Sua pele parecia um raio de luar e só usava um grande pedaço de cetim para cobrir-se como em uma toga com as costas abertas. E os olhos, que escorriam em cascatas. Sua asa restante movia-se trêmula, em pequenos espasmos, como que sentindo a falta da outra. Um filete rubro escorria diretamente de sua omoplata direita tal qual uma pequena mina d'água que brotara ali, manchando o tecido branco que envolvia seu corpo. Suas pernas estavam pesadas, cada vez mais pesadas, mas forçava-se à continuar, a correr naquela mesma direção. As pedras pontudas e a areia quente machucavam-lhe os pés, tão acostumados a voar, mas corria. Nuvens gordinhas se aglomeravam no céu do amanhecer todo colorido de violeta, rosa e dourado, e o sol despontava como...

Conto segundo

Ele era um jovem prodígio. Tocava violino desde os oito anos, num talento sem igual. Seus olhos castanhos e vívidos se fechavam quando suas mãos punham-se em ação , em melodias melancólicas e contagiantes. Não havia criança mais bela e tímida que ele na pequena vila. Seu pai era barbeiro, e ele o via afiar as lâminas cuidadosamente todas as tardes. Orgulhoso, o pai bagunçava os caprichados cachos do menino e pedia para que tocasse alguns minutos para ele. Ele sentava-se num banquinho , posicionava seu querido instrumento musical e fechava os olhos - os minutos seguintes se passavam num doce torpor. Sua pele pálida refletia os cálidos e últimos raios de sol, quando a barbearia era fechada, e o pai o convidava a ir jantar no restaurante da esquina. E lá iam os três, homem, garoto e violino. Ao chegar no conhecido lugar, sentavam-se numa mesa gasta e amarelada, pediam o prato do dia e comiam silenciosamente. Vez ou outra, passava um conhecido para cumprimentá -los e ver o brilho nos...

Conto primeiro

Os cabelos brilhantes e de cor violenta, num estranho corte jovem, balançavam-se em volta de seu rosto como um halo. Ela corria e a cena sensual e juvenil de seus seios balançando fazia com que vários homens se virassem ao vê-la passar, e seu ar rebelde fazia as velhas senhoras balançarem a cabeça. Entrou na pequena loja de Earl, quase deslizando na madeira recém encerada e tocando o sininho perto da porta. Tudo ali parecia ser de outro século, até o próprio Earl. Ele era um boticário, e as prateleiras empoeiradas da loja continham toda sorte de vidrinhos com líquidos coloridos, quase um caleidoscópio. O velhinho, de olhos azuis e pele de seda, devia estar nos fundos fazendo suas preciosas fórmulas. Curiosa, contornou o balcão e pôs-se a examinar detidamente cada garrafinha de tamanho e cor diferente - cada uma parecia um pequeno tesouro, com suas cores vívidas e aura misteriosa. No entanto, um vidrinho chamou sua atenção. Era verde jade o líquido dentro dele, viscoso, p...

A Enforcada

A árvore era um grosso carvalho no jardim de trás. A casa era antiga, toda em estilo vitoriano, com aquela delicada pátina que apenas o tempo pode oferecer. Das varandas, pendiam samambaias que tocavam o chão como longos cabelos verdes, as janelas observavam a rua tão pitoresca quanto a casa. Joseph vinha visitá-la todas as tardes com uma flor na mão, roubada do cemitério. Não era bonito, mas era um rapaz atraente. Dotado de um sorriso gentil e mãos artísticas, ele era o pintor da pequena vila. Era frequentemente contratado para retratar a aristocracia quase rural daquela cidadela. Seus cabelos negros em ondas caprichosas estavam um tanto quanto amassados - arrumara uma nova namorada - e vinha em passos curtos com uma margarida na mão. Era amigo há meses de Manuela, a menina de olhos tristes e tez pálida. Em seus quinze anos, acumulava um incrível conhecimento filosófico e humanístico. Por ser hemofílica, a família a condenara a uma vida reclusa, cercada de delicadeza; e ela passava ...

Consulta

Delicado conto que levei um ano pra escrever, finalmente tive paciência para acabá-lo. - Por onde exatamente devo começar? - Comece por onde se sente mais confortável. - Mas... Ele pode aparecer... - É preciso confrontar todas as suas personalidades , para podermos tratá-las. Ou você não quer se tratar, Alexandra? Os grandes olhos se arregalaram ainda mais e ela enroscou-se na poltrona. Os cabelos cor de palha, com textura de teia de aranha, eram longuíssimos; tão longos que ultrapassavam a poltrona e iam repousar no carpete cor de vinho. Veemente, ela balançou a cabeça e abraçou os magros joelhos. - Ele... ele veio numa noite muito fria, a mais fria que me lembro. Da penteadeira , eu ouvia sussurros dizendo meu nome. Foi quando o vi encostado na cortina... Alexandra tomou uma pose diferente. Tombou as pestanas, sentou-se ereta , coçou uma barba inexistente. Quando falou, sua voz saiu do fundo do peito, grave e lenta. - Óbvio que era eu chamando, sua tonta...

Velha Alma Rabugenta

Num antigo calabouço de almas, ali estava ela. Já havia sido presa há tanto tempo que nem se lembrava mais de seus crimes e nem os guardas. Estava ali presa por convenção. No entanto, por mais que o tempo passasse, não deixava de reclamar. Passava o dia a resmungar e mastigar fumo, cuspindo-o numa jarra. Certo dia, alguém lhe deu um pedaço de giz. No dia seguinte, a alma não mais estava ali. As paredes escuras do calabouço, todavia, brilhavam com palavras prateadas, harmonicamente espalhadas como pombas brancas na noite. E as palavras cuidadosamente escritas diziam: "Eis que fujo desse calabouço para repousar eternamente em minhas palavras. Nada mais me segura nessas paredes. Minhas palavras hão de alcançar cada frestinha do mundo, e eu alcançarei os lugares mais belos junto delas. Fujo, sim, depois de tantos anos. Considerem uma aposentadoria de uma alma cansada e doente. Uma alma que nem corpo tinha para arrastar. No entanto, resmungar sempre me divertiu. Agradeço por ter tant...

Ensinamentos de uma Criança

Com o tempo, aprendi que amores nascem, mas morrem também. Que amigos vêm, vão, voltam... E que inimigos se acumulam. Aprendi que nunca vou encontrar alguém igual a mim, apenas semelhante. E que as semelhanças também estarão nos meus erros. Aprendi que só se pode confiar em si mesmo, guardar um segredo é nunca contá-lo. Que o pôr-do-sol é mais bonito acompanhado. Que a música tem mais sentido quando se gosta de alguém. Que quando a gente faz alguma coisa pra alguém e com dedicação, fica muito melhor. Aprendi que falta de diálogo mata pessoas e relacionamentos, nessa ordem. E que beijos não curam feridas, nem fazem doer menos. Aprendi também que nunca se deve confiar muito nem no corpo, nem na mente. Eles mentem. Seguir o espírito é o ideal. Aprendi, a duras penas, que ninguém estará lá pra te confortar. Mas a maioria estará presente na sua derrota. Aprendi que levantar dói, mas é necessário após a queda; mesmo que ela seja consecutiva. Que momentos felizes são bons... mas sempre nos le...

Menina de Asas

O sonho de Elisa era voar. Seu quarto ficava no segundo andar da antiga casa, e sua janela ficava no meio do telhado. Ela punha-se pra fora subindo em uma cadeira e escalava as telhas até ficar lá no alto. Sentia o vento levantar seus cabelos e cheirava a humidade que vinha dos campos, tão distantes de seu pequeno bairro. Depois, cuidadosamente, descia de volta ao quarto pra fazer a lição de casa. A mãe a chamava para o almoço pontualmente ao meio dia, e antes de descer ela ainda olhava humildemente para o céu, estreitando os olhos para ver nuvens mais distantes. Depois da escola, deprimente e entediante, Elisa voltava pra casa olhando pro céu. Invejava os passarinhos e queria ser-lhes amiga, até aprendera a imitar seus cantos pra atraí-los. Quando achava um filhote, acariciava sua penugem macia imaginando como seria possuir grandes asas, brancas e macias como espuma do mar. Devolvendo o filhote ao ninho, ela seguia seu caminho habitual. À noite, à mesa com seus pais, a voz grave e...

A Torre

Naquele reino havia um príncipe belíssimo, cujo pai já estava para morrer. Todos os anos, ele fazia uma competição entre as mulheres para saber quem casaria com ele e seria a rainha, mas como era muito exigente, a última prova sempre rejeitava todas as candidatas. No centro do reino, fora erguida há muito tempo, uma torre. Tão alta, mas tão alta, que não se podia enxergar o pico, que ia distante, furando as nuvens; como um palito furando algodão doce. O príncipe exigia que, para casar-se com ele, deveria-se subir na torre. Ao alcançar o topo, lá ela encontraria um tesouro, e deveria trazê-lo para baixo, para provar que estivera lá em cima. No entanto, a torre era escorregadia, ao chegar muito alto fazia frio, e muitas desistiam só de ver seu tamanho. No entanto, uma jovem resolveu tentar. Não que quisesse realmente casar com o príncipe, mas gostava de desafios. Sendo a torre escorregadia, amarrou nas mãos e nos pés trapos secos, que a permitiam escalar. Sendo acima das nuvens muito f...

As Uvas

Com um movimento delgado de sua pequena e magra mão, ela a estendia até o prato, no alto do encosto do divã, e destacava uma das uvas grandes e verdes do cacho com suas longas unhas, pintadas de vermelho. O contraste ácido e delicioso de suas mãos, unhas e a fruta suculenta. Ela levava a fruta até os lábios, também rubros, e a mordia e sugava. Rapidamente, jazia só uma casca vazia: até as sementes ela levava. E, dentro da boca, sentia aquele invólucro fino que cobre a polpa gelatinosa, ácida, doce, cujo sumo escorria pelo canto de seus lábios de modo quase obceno. Ela esperava por Regard, e embora estivesse impaciente, não o demonstrava. Sorvia as uvas como se provasse um delicado e saboroso vinho, uma de cada vez. Um gole de cada vez. E atirava às cascas ao chão, como que para afrontá-lo e chocá-lo quando ele chegasse; mesmo que ela soubesse que não iria funcionar. Ele tiraria o casaco, jogaria na poltrona e sussurraria, tirando os sapatos: - Georgia, olhe o que você fez...

Prisão em Lembranças

Olho pra essas paredes de pedra escura, antiga, e me sinto tão antiga quanto elas. Não sei há quanto tempo existo, mas rogo todos os dias pra deixar de existir. A escuridão, a umidade, a tristeza que emana dessas paredes às vezes é mais densa que a escuridão, a umidade e a tristeza dentro de mim. Talvez, minha alma tenha se tornado uma apologia à esse quarto: vazia, infeliz e mergulhada na melancolia. Passam-se os minutos, escoam-se as horas, e há muito parei de contar os dias. Pra quê? Eles vêm e vão, e só diferencio a noite do dia pelo buraco no teto, que parece dar numa campina. Às vezes, o vento traz o aroma fraco de flores ou faz cair fios dourados de capim. Mas parece que tudo que entra nesse quarto torna-se como ele, e o aroma torna-se pútrido e o capim, seco e sem vida. Por que ainda sobrevivo aqui? Já faço essa pergunta sem esperança de encontrar resposta, mesmo que já tenha ruminado esse pensamento tantas vezes... Meu corpo não é o que me faz continuar. Não sei porque não d...

Doce Paladar

Eles, e elas também, sempre vinham. Com seus rostos sedentos por luz, com seus lábios até molhados, sedentos por paixão. Seus olhos buscavam os meus, com medo e fome, suas bocas buscam a minha até hoje, com sede. Engraçado como a sede de cada um tinha um gosto diferente. Havia aquele cuja boca cobria a minha, e cujos lábios tinham o simples gosto da carne humana... Nada de muito extraordinário. Havia aquela de boca macia e lábios gelatinosos. Um dos mais marcantes, era aquele cuja sede tinha gosto de perfume... Seu perfume era fortíssimo e embriagante, preso em mim até hoje. Uma em particular chamou minha atenção. A sede daquela menina magrinha, de cabelos cortados à Chanel, que parecia tão cheia de si do outro lado do salão. O que era interessante não era sua sede de paixão... Era sua sede de contato. Seus lábios eram contidos ao alcançar os meus, mas falava como ninguém, e chegou a me apresentar para - vejam só! - todos os seus amigos. Também houveram muitos que tinham simplesmente s...

Desejos Medrosos

Tinha dezessete anos quando fora vendida. Aquela garota vivia numa vila pobre com seu padrasto e suas outras doze irmãs, que só não eram estupradas por ele porque podiam ser vendidas por um preço bem alto. Ah, o que os velhos ricos não faziam por uma esposinha virgem! E agora, chegara a vez dela. Os cabelos avermelhados foram penteados, e lhe permitiram - pela primeira vez na vida! - um banho decente e até borrifadas de perfume. E ela tinha medo. Tanto medo, que sentia os joelhos baterem-se sob a renda do vestido. E sentia aquela coisa engraçada que vinha toda vez que ficava ansiosa... Seus braços arrepiavam-se e sentia seus ossos um tanto quanto fora de lugar, e a vontade de ajustá-los sem poder. Sabia que ele chegaria às três. Eles sempre vinham buscar as mocinhas às três. Alguns eram violentos e dominadores, e quando a garota era muito atrevida, recebia apenas uma bofetada. Aquilo era um aviso: o pior viria depois. Marana só queria que tudo aquilo fosse um pesadelo, que ele viess...

Pedido

Socorro! Perco-me entre fingimentos e ilusões. Engano a mim mesma mais facilmente do que a qualquer outro. Salva-me. Escondo meus olhos, engulo minha língua, amarro-me as mãos. Tira esse sofrimento de dentro de mim, arranca minh'alma com um abraço. Ajuda-me. Um simples olho nos olhos, um trocar de mãos; faria meu pensamento mais leve e meu sorriso, mais fácil. Mata-me. Deixa de ser cruel e me deixa. Crava o punhal árabe... Não! Não o faz tão lentamente, não... não deixa com que cada onda da lâmina crie seu caminho, não... Morro. Mas, antes de morrer, suspiro. Tudo o que eu desejo, desejei, desejaria; e já é tarde demais.