Pular para o conteúdo principal

Postagens

Cela vazia

Alguns diriam que ele pediu por aquela situação. Vagando pelos corredores escuros, o que mais podia querer? Foi quando algo chamou sua atenção dentro de um dos quartos. Ele levantou seu lampião, tentando ver melhor, mas só encontrou a parede de pedra de mais uma cela. Adentrando o quarto, ele acendeu as poucas velas que ali existiam e olhou em volta. Aquele era um quarto vazio, mas pequenos detalhes denunciavam que alguém vivia ali. Os lençóis amassados no catre, migalhas sobre a mesa, uma cortina de trapos fechando a pequena janela gradeada. Foi quando observou melhor as sombras e viu algo se mexer. Aproximou-se delas, a mão estendida. - Vamos, deixe-me ver seu rosto. Olhos vazios se viraram para ele, semicerrados, porém cravados em seu rosto. Uma mão feita de névoa e noite se estendeu para ele e se colocou sobre a sua. - Tem certeza? - ela perguntou.

Noite escura

Um vento vindo do norte, úmido e salgado, entrou pela janela. O candelabro que eu usava para escrever uma carta foi apagado pelo sopro, e por um segundo vi as letras brilharem no pergaminho antes da luz se apagar por completo. Larguei a pena sobre a mesa, recostei-me na poltrona e fechei os olhos... Não que fizesse diferença, com a lua coberta por nuvens escuras, o quarto havia ficado na total escuridão. E ainda restava o gosto de sal deixado nos meus lábios, como se o mar tivesse me beijado, divertido com a minha frustração. Ouvi um leve burburinho aos poucos se elevar - eram aqueles malditos quadros que ele tinha deixado. Mesmo tirando todos da parede e virando-os de costas para mim, eles cochichavam entre si. Eu podia ouvir o tom debochado em seus cochichos, as risadinhas carregadas de veneno. Ouvi meu nome repetido várias vezes. - Ainda posso ouvir, vocês sabem. Mais risadas. No escuro, sozinha, eu nada podia fazer. Devia ter ateado fogo em todos quando tive oportunidade, aprovei...

O Orgulho e A Culpa

Caminhavam de mãos dadas por uma trilha. Joelhos ossudos e olhos fundos, cabelos finos e despenteados. A pele coberta de veias, hematomas, cicatrizes. A Culpa mantinha na outra mão uma série de fotografias, que já estavam amareladas, amassadas e rasgadas de tanto tempo e manuseio. Já sua pequena mão esquerda era segurada por um cavalheiro distinto. A pele escura e lustrosa, os olhos cor de ônix, uma cartola e um monóculo de ouro pendendo sob o nariz largo. Seus lábios grossos se moviam rapida e silenciosamente, sussurrando as próprias glórias. Volta e meia usava a mão livre para ajeitar sua bonita cartola de cetim no topo da gloriosa cabeça. E seguiam, cada um à sua maneira, para dentro da escuridão.

Pó de Estrelas

Ser tocado por alguém que - mil tempestades caiam sobre mim - te ama é como se você permanecesse em uma cela escura por meses, até que alguém vem e espalma uma mão cheia de vagalumes em sua pele nua. Como se, depois de enegrecer seu rosto com carvão, alguém lhe soprasse uma brisa cheia de lantejoulas que acabassem por ficar presas em suas bochechas.

Ruínas

Meu palácio era de pedra escura. Pedregulhos grandes e rústicos formavam as paredes,  que tornaram os cômodos escuros e frios. Agora, gastas, as pedras são de um cinza sem graça. As janelas, de cristal claro como o dia, já foram cobertas por hera. Depois que os criados foram embora, meu palácio está sem cuidados... Os cômodos cobertos de tapeçarias turcas e lençóis de seda agora são apenas ninhos de traças. As velas dos castiçais não são mais trocadas e por isso vivo quase na escuridão total. O jardim? Ah, minhas queridas rosas vermelhas. A única delas que restou mantenho guardada seca, entre as páginas de um livro. O piano que existia na sala está desafinado há muito, muito tempo... E ninguém nunca mais veio tocar.

Prisão

Quando saí da prisão, deixando pra trás um canto escuro, imundo e um rosto marcado pelas sombras das barras de ferro, o sol feriu meus olhos quando finalmente pude ver sua luz. Os raios cálidos tocaram meu rosto mornamente, os cantos dos pássaros vinham até mim no vento, os ramos de lavanda dançavam entre si. Caminhando, cheguei ao abismo. E, ao observá-lo, concluí: nunca saímos da prisão, ela apenas muda de aspecto.

Reflexo

Na tarde daquele dia, andando pelo mercado, passei pelas vitrines da Ótica. Andando apressadamente, busquei meu próprio olhar nos vidros polidos. Mais tarde, já dentro do ônibus, olhei para o lado para observar os passageiros de outro veículo. Ao perceber que as janelas refletiam os passageiros próximos a mim, busquei um vislumbre meu. Ao jantar, entre murmúrios de aprovação, sorvi minha sopa de legumes. No final da refeição, tomei a colher entre os dedos e a encarei profundamente, esperando ver meu reflexo invertido. Por fim, num ímpeto cheio de raiva, corri até o espelho que fora pendurado no hall. "Para aumentar o cômodo", me disseram. Agarrei as molduras de madeira até os nós dos dedos ficarem brancos, e aos poucos deixei minhas pálpebras abrirem. Eu não estava ali.

Eterno

Ela caminhou até o outro lado do quarto e se jogou no divã, estendendo as pernas e cruzando os tornozelos, os braços pendendo em cada lado do móvel. Suspirou muito alto, e virou-se de costas para mim. - Jéssica, - disse eu - eu estava falando. - Não me importo, há momentos em que o som da sua voz me cansa. Ofendido e um pouco magoado, fechei a boca ainda aberta para retrucar, mas que parara assim por pura surpresa. Alisei o linho das coxas da minha calça e, olhando em volta sem saber o que fazer, decidi sair do quarto para a varanda. Os móveis escuros e os muitos objetos pessoais espalhados ali não me deram resposta sobre como reagir. Trouxe comigo um copo de uísque, mesmo que fossem apenas nove da manhã. Deixei-o no balaústre de pedra, vitoriano e caríssimo, enquanto acendia um cigarro. Enquanto sentia a fumaça circular dentro de mim, senti-me relaxar os músculos das costas, ainda tensos. Realmente, não fazia sentido ficar chateado. Aquela era uma reação muito típica de Jesse. Vi...

Maresia

Ela beijava com lábios salgados e não me surpreendi quando me disse se chamar Marina. Aquela que vem do mar... Moramos juntos por alguns meses. Aos domingos à tarde ela se recolhia exatamente no meio do sofá, como uma grande papoula: seu cabelo amarelo espalhado para todos os lados, as pernas longas ocultas sob a saia do vestido vermelho. Era assim que preferia ler. Sempre que me emprestava algum de seus livros, o encontrava cheio de rabiscos e pequenos poeminhas, com dedicatória tão cheia de amor que só a ingenuidade traz. Mas ai de mim se pensasse que era sua única face. Certa vez cheguei ao quarto para achar lençóis e cortinas rasgados, parte do carpete arrancado do chão e rasgos vertiginosos no papel de parede que ela mesma escolhera (cheio de flores de liz, suas favoritas, em tons pastéis). Ela exigia mudança, e exigia agora . Eu mais me divertia do que realmente me enfurecia com seus súbitos tornados na alma... E quando seu mar voltava à calmaria, ela me beijava as pálpebras e c...

Serenata

Se teu riso não fosse tão fácil de decorar e se suas sobrancelhas não se juntassem com seus cílios longos de forma a tornar teus olhos tão expressivos, eu não estaria aqui. E se suas mãos não coubessem exatamente nas minhas, meus dedos pesariam nos seus até que você os largasse horrorizado. Talvez o caramelo da tua pele não combine com os tons inócuos da minha. Penso que seu sorriso, estrela esculpida em seu rosto - com pequenas falhas para não ser perfeito demais -, não possa ser, exatamente, comparado ao meu. Como se compara um baú de tesouro a uma concha achada na praia? Se é verdade o que dizem, que cada um tem um mundo em si, verdade seja dita que sou um planeta morto. Minha terra deserta e árvores mortas nem choram mais porque morrem de sede, mas ao ver você tudo estremeceu e salivou. Estou fadada a ser apenas isso: planetinha morto, enquanto assisto cometas maravilhosos passarem pela minha vida... e partirem. Geralmente por minha culpa. Como entreter figuras tão maravilhosas? C...

Poesia Matinal

- Que horas são? - Sete e meia da manhã. - Sério isso? Eu virei a noite outra vez? Mas que merda. Ele coçou a barba, revirou aqueles olhos fundos e agarrou a caneca favorita, que eu tinha enchido de café. - Você escreveu algo novo? - Nada. Continuo preso naquele projeto que sei que não vai render nada. - Não se preocupe, querido. Ele me tomou a mão, distraído, massageando-me as juntas com as pontas dos dedos. Depois, acendeu um cigarro e o deixou pender molemente nos lábios. - Você quer cortar os cabelos hoje? Aquele olhar de criança surpresa sempre me fascinara. Rasgou-se num sorriso agradecido. - Se você puder... Só não estranhe se eu dormir. E foi-se, sentou na cadeira alta, o cigarro nos lábios e a caneca numa das mãos, um caderninho na outra. Enfiado atrás de uma orelha, um lápis muito mordido. Joguei a capa por cima de seus ombros, molhei seu cabelo, ia apanhando tufos entre os dedos e a tesoura deslizava. - Como você pretende escrever ideias se não larga desse café? ...

Taça de Vinho

A campainha do apartamento tocou. Lógico que era ele, o porteiro já o tinha anunciado, mas ela não se impediu de dar uma rápida espiadela pelo olho de vidro. Do outro lado da porta, passando a mão destraidamente pelo cabelo, ele olhava para os quadros pendurados pelo corredor. Usando um terno grafite e camisa branca, ela podia até sentir o perfume dele chegar numa lufada de ar. Ajeitou o vestido rapidamente nos quadris e os dedos escorregadios tropeçaram na fechadura, até ela conseguir girar a chave. Cuidadosamente, abriu a porta, mordendo o lábio inferior. Ele, no entanto, não estava lá. - Charles? Você está aí? Uma mão se estendeu na direção dela, segurando uma brilhante rosa vermelha. O riso dela tilintou quando ele, dando um passo pro lado, surgiu na porta segurando um pequeno buquê de rosas. - Alô, querida. São para você... Não sabia se você gostava de flores, então trouxe poucas. - Eu as adoro, ainda mais agora. - Se eu soubesse, tinha trago duas dúzias de uma vez. Tomando...

Olhos Teus

Minhas musas sempre tiveram pele clara e olhos azuis. Sardas que cobrem o nariz, cabelos que cascateiam pelos ombros. Já meus musos, esses sempre têm olhos escuros, andar melancólico e ar de quem desconhecem o bom sono. Como fui cair na armadilha de olhar nos teus olhos da mesma cor que os meus? Olhos que espelham o sorriso que se abre como flor da primavera toda vez que o meu olhar vai parar dentro deles. Olhos que lampejam luz, olhos de lava e água, minério de ferro e fogo.

Bailarina

O palco estava vazio e escuro, as luzes apagadas. Nas sombras, porém, podia-se ver a forma de alguém sentado bem no meio dele. Um holofote se ligou no alto, formando uma roda de luz amarela, onde surgia a pálida forma de uma bailarina. Tudo nela era branco: sapatilhas brancas, meias finas brancas, vestidinho branco e cabelos tão platinados que pareciam prateados, caindo-lhe pelas costas. Levantou-se do chão com a graça e a delicadeza de uma pétala no vento, ficou na ponta dos pés e começou a girar. Em algum lugar, no velho teatro, um piano tristonho começara a tocar. Era uma peça belíssima, cujas notas ressoavam como lágrimas caindo num poço escuro e sem fundo. E a bailarina girava. Quando a música parou, já amanhecia e a luz começava a entrar pelas janelas no alto do teatro. A luz dourada iluminou as poltronas, as teias de aranha nas cortinas e a grossa camada de pó que cobria o palco, vazio há tanto tempo.  Fim do primeiro ato.

O Abismo

Como Nitszche, olhei pro abismo e ele me olhou de volta. A compreensão foi mútua. Como um amor à primeira vista, nos queríamos um ao outro. Antes que chegasse a saltar, algo me arrastou pra longe do meu alívio... Talvez seja o peso dos meus últimos arrependimentos. Agora que minha última e única âncora verdadeira deixou de me fincar aqui, já não sei mais o que fazer. Só sei suspirar, sob as folhas desse salgueiro chorão, cujas folhas me acariciam os ombros com tristeza. Sem minha âncora que mantinha meus pés firmemente enterrados na areia, me arrasto a passos devagares de volta pro abismo. Só assim me sinto querida.

O Mundo Cinza

Céu cinzento, com nuvens escuras e raios cinzentos de um sol triste. Dias coloridos apenas em diferentes escalas de branco e preto, e até o vento que ressoa pelas ruas trás grãos de poeira cinza. A noite chega cinza suave e vai embora negro profundo. O dia chega cinza frio e vai embora cinza chumbo. Música cinza, pinturas cinzas, palavras cinzas como cinzas de cigarro; meu único companheiro de tantas noitadas infelizes. Vida escura e amarga como borra de café, que tomo todos os dias na esperança de ainda ver algo mudar. E mudou. Alguém coloriu as casas da esquina e as florezinhas do meu jardim morto. Com lápis de cor, um desconhecido cobriu os banquinhos de tinta azul e as árvores de verde e as cercas de rosinha. E antes que eu pudesse reclamar, pintou um sorriso amarelo na minha cara. Sorriso dorido... Era uma estrela, passando rápida pela alameda. Espantou os grãos escuros e trouxe grãos de poeira colorida, como se um arco íris tivesse se desfeito e deixado para trás pó de todas a...

Sussurro

- Você está arruinando minha vida. Ou o que resta dela. Os olhos escuros dele não responderam de imediato ao meu desabafo. Sorriu, aparentemente tão cansado quanto eu. - Me desculpe. Desabei na poltrona à sua frente, lágrimas escorrendo pelo meu rosto e ocasionalmente ficando presas nas lentes dos meus óculos escuros, formando gotas maiores e geladas. Antes que sua mão, grande e morena, me alcançasse, arranquei os óculos e limpei os olhos rudemente. - Seus olhos... - Eu sei. Levantei e fui parar, de costas para ele e de frente ao grande espelho inclinado que ficava sobre a cômoda. Realmente não era de se impressionar que ele comentasse dos meus olhos. Inchados pelo choro, avermelhados pelo cansaço e arroxeados pela falta de sono, eu era o retrato da miséria. Até meu rosto, agora muito sulcado, revelava que eu tinha passado pelo Vale das Sombras. - O que aconteceu? Antes, aquela pergunta me provocaria uma crise incontrolável. No entanto, mastiguei suas palavras, absorvendo lenta...

Poesia

"Quando a vida não funcionar: poesia. Quando os pedaços se perderem: poesia. Quando os espaços aumentarem: poesia. Quando os silêncios lhe tomarem: poesia. Quando a poesia morrer: poesia. E o resto, sabe-se lá… Venho preferindo a vida numas boas linhas." Camila Costa. Vi nas asas daquele passarinho, voar pra bem longe de mim, sem aviso, meu último ninho. Pois lar é onde o coração está, e meu coração estava naquelas asas e por mais tortura e lamentação, por mais canto e choro, por mais verso que eu verse, não volta passarinho, não volta...

A Ruína

Uma estranha, dentro de seu carro esporte do último ano, cruzou os batentes da citadela. Levou o carro pelas ruelas até se aproximar da floresta. Abandonando o carro, seguiu a pé por uma pequena trilha entre as últimas casas. Apoiada na janela, uma senhora cujas rugas podiam dar-lhe mais de 100 anos, apertou os oblíquos olhos azuis para a visitante e sussurrou: - Ora, mas voltou, Madie... O rosto cansado se voltou para a velhinha. Os grandes olhos cor de noz pareciam tristes e vazios, círculos roxos e profundos os haviam sulcado naquela face. - Pois é, vó Gilda. A filha pródiga, à mãe retorna... Ela foi se afastando, e as casas foram ficando pra trás. O vento gelado do começo do inverno rodopiada em  torno de seus tornozelos, balançando seu vestido e atravessando seu casaco. Sentia sua pele arrepiar por baixo do tecido, mas já era tarde demais. Atravessou o limiar formado pelas árvores e foi seguindo por uma trilha meio escondida pelo mato, a luz diminuindo enquanto o sol se ...