Quando saí da prisão, deixando pra trás um canto escuro, imundo e um rosto marcado pelas sombras das barras de ferro, o sol feriu meus olhos quando finalmente pude ver sua luz. Os raios cálidos tocaram meu rosto mornamente, os cantos dos pássaros vinham até mim no vento, os ramos de lavanda dançavam entre si. Caminhando, cheguei ao abismo. E, ao observá-lo, concluí: nunca saímos da prisão, ela apenas muda de aspecto.
Volta e meia me pego olhando para aquela vitrine da antiga loja de brinquedos, que há muito foi fechada mas até hoje ninguém ousou arrombar e roubar. Os vidros já estão amarelados e tudo lá dentro está coberto de poeira, claro, mas os brinquedos parecem conter espíritos vivos dentro de si. De cada prateleira, seus olhos chamejam em nossa direção. De novo olhei para a estante de madeira escura e observei aqueles que sempre vinha ver, e podia jurar que mudavam de direção. Uma boneca, com ar sapeca e maravilhosos cabelos cor de rosa; um marionete de madeira, cujo títere sempre estava seguro em sua mão; e um palhacinho um tanto quanto macabro. Era um daqueles brinquedos educativos... Um poste coberto por aros coloridos de borracha, e na ponta, para segurar os aros, uma cabecinha sorridente de palhaço. Sempre me intrigava aquele brinquedo. Era o que mais parecia se mexer de propósito quando eu não estava olhando, e sorria de modo angelical lá da estante. Durante os últimos dias, tive até pe...
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