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Ao amor

Ao meu precioso, peço desculpas por ter levado tanto tempo sem te levar em conta. Quando finalmente acordei para encarar que era você quem me movia, já era tarde demais. E quando achei que tinha encontrado minha ligação eterna com você, ela se transformou em cinzas diante dos meus olhos. Mesmo assim, tento te procurar nas pequenas coisas, e devo confessar que isso tem sido quase impossivelmente difícil, mas venho sobrevivendo há dias impossíveis há algum tempo. Aquele sopro de frio gelado sempre vem pela porta, mas agora tenho trancado-a à chaves toda vez que ele vem. Como eu te encontraria novamente, se partisse daqui? Da sua fiel amiga, Juliana.

Cachoeiras do universo

Observei a tez bem escura de uma moça, cujo cabelo se punha como uma coroa de cabelos crespos, e imaginei como diria a ela que sua cor é belíssima. Imagino que nos confins do universo, o céu se transforma em água e jorra em cachoeira para se desfazer em nada. Todos os dias, uma das deusas leva um jarro na cabeça para colher a água e reabastecer um pequeno poço. Ela tem a pele da cor dos grãos de café e o corpo delgado, com um fino e elegante pescoço onde a cabeça divina repousa, o cabelo crespo cortado bem baixo de modo a fazer pequenos círculos onde deveriam ser cachos. Vestida de laranja e dourado, seu ventre hoje está menor que o normal pois ela deu a luz recentemente. A menina veio como um bebê frágil e que quase não respirava. Sábia, a mãe-deusa banhou o bebê no céu escuro sem estrelas e garantiu a ela a cor divina que tinha por direito. Mas não digo nada.

Como um meteorito

Pedi companhia à noite para que minha solidão não fosse aparente, e logo ela me cobriu com um manto negro de estrelas. Quando saí de casa, a lua já estava no céu, como um rosto a me observar lá de cima. Aumentei o som nos meus fones de ouvido até que as batidas ficassem quase  ensurdecedoras e obscurecessem os suspiros de outros como eu que estavam escondidos pelos cantos da cidade. Escondi uma adaga na bota e ajustei o vestido sob a manta da noite. Poucos passos e a situação que eu queria me foi oferecida. Uma porta de um bar bem iluminado que cheirava a carvalho abriu-se derramando luz dourada na calçada e um homem mal vestido foi jogado para fora. - E não volte mais! Está me ouvindo? O cabelo castanho do rapaz refletia de modo muito bonito a luz dourada, e seus olhos faiscaram na minha direção. Ele pareceu embaraçado por um segundo, antes de me oferecer o sorriso mais delicioso que eu já tinha visto e me estender a mão. - A senhorita, ao contrário, está muito convidada a entr...

Caçada

Entrei no quarto e fui atingida pelo cheiro fraco de incenso e perfume amadeirado, o chuveiro estava ligado e sussurrava baixinho no outro cômodo. Suas roupas estavam largadas de qualquer jeito sobre a cama, como se não pudesse esperar se livrar delas e tivesse arrancado de seu corpo assim que possível. Não era a primeira vez que eu entrava em um quarto barato de motel, com a cama desconfortável e ar burocrático, mas sentia uma pontada de ansiedade no fundo do estômago. Acho que é assim que a pantera se sente logo depois de avistar sua presa. Deixei meu casaco em uma cadeira e me aproximei da porta entreaberta do banheiro, de onde escapava vapor. Quando vi seu cabelo molhado e suas costas nuas, comecei a salivar. Lambi os lábios, nervosa, sedenta. Bati na porta com os nós dos dedos para anunciar minha chegada e encostei meu quadril na pia, de onde podia observa-lo. - Você quer companhia? Meus dedos já acariciavam o tecido de minha roupa, inquietos, esperando um sinal de aprovação...

Veneno

Coloquei as mãos no meu colo e abri meus dedos, as palmas viradas para cima. Enquanto as unhas longas das quais eu tinha tanto orgulho despontavam, meus dedos finos e pálidos pareciam tingir-se gradualmente de preto. Quando pingamos uma gota de tinta na água e ela se espalha, mas a água sou eu. Estou apodrecendo. Lenta e continuamente. Eu que achava que tinha conseguido me lavar das marcas interiores que me faziam deteriorar antes, depois de raspar e desgastar a carne podre e acabar como um daqueles filhotes que nascem de um ovo com a carapaça tão mole e incolor que é a mesma coisa de estarem completamente nus, meu interior totalmente exposto e sensível e cru e torturado. Percebi que nada tem a ver com as marcas envenenadas, embora elas definitivamente tenham acelerado o processo. A corrupção vem de dentro.

Cela vazia

Alguns diriam que ele pediu por aquela situação. Vagando pelos corredores escuros, o que mais podia querer? Foi quando algo chamou sua atenção dentro de um dos quartos. Ele levantou seu lampião, tentando ver melhor, mas só encontrou a parede de pedra de mais uma cela. Adentrando o quarto, ele acendeu as poucas velas que ali existiam e olhou em volta. Aquele era um quarto vazio, mas pequenos detalhes denunciavam que alguém vivia ali. Os lençóis amassados no catre, migalhas sobre a mesa, uma cortina de trapos fechando a pequena janela gradeada. Foi quando observou melhor as sombras e viu algo se mexer. Aproximou-se delas, a mão estendida. - Vamos, deixe-me ver seu rosto. Olhos vazios se viraram para ele, semicerrados, porém cravados em seu rosto. Uma mão feita de névoa e noite se estendeu para ele e se colocou sobre a sua. - Tem certeza? - ela perguntou.

Noite escura

Um vento vindo do norte, úmido e salgado, entrou pela janela. O candelabro que eu usava para escrever uma carta foi apagado pelo sopro, e por um segundo vi as letras brilharem no pergaminho antes da luz se apagar por completo. Larguei a pena sobre a mesa, recostei-me na poltrona e fechei os olhos... Não que fizesse diferença, com a lua coberta por nuvens escuras, o quarto havia ficado na total escuridão. E ainda restava o gosto de sal deixado nos meus lábios, como se o mar tivesse me beijado, divertido com a minha frustração. Ouvi um leve burburinho aos poucos se elevar - eram aqueles malditos quadros que ele tinha deixado. Mesmo tirando todos da parede e virando-os de costas para mim, eles cochichavam entre si. Eu podia ouvir o tom debochado em seus cochichos, as risadinhas carregadas de veneno. Ouvi meu nome repetido várias vezes. - Ainda posso ouvir, vocês sabem. Mais risadas. No escuro, sozinha, eu nada podia fazer. Devia ter ateado fogo em todos quando tive oportunidade, aprovei...

O Orgulho e A Culpa

Caminhavam de mãos dadas por uma trilha. Joelhos ossudos e olhos fundos, cabelos finos e despenteados. A pele coberta de veias, hematomas, cicatrizes. A Culpa mantinha na outra mão uma série de fotografias, que já estavam amareladas, amassadas e rasgadas de tanto tempo e manuseio. Já sua pequena mão esquerda era segurada por um cavalheiro distinto. A pele escura e lustrosa, os olhos cor de ônix, uma cartola e um monóculo de ouro pendendo sob o nariz largo. Seus lábios grossos se moviam rapida e silenciosamente, sussurrando as próprias glórias. Volta e meia usava a mão livre para ajeitar sua bonita cartola de cetim no topo da gloriosa cabeça. E seguiam, cada um à sua maneira, para dentro da escuridão.

Pó de Estrelas

Ser tocado por alguém que - mil tempestades caiam sobre mim - te ama é como se você permanecesse em uma cela escura por meses, até que alguém vem e espalma uma mão cheia de vagalumes em sua pele nua. Como se, depois de enegrecer seu rosto com carvão, alguém lhe soprasse uma brisa cheia de lantejoulas que acabassem por ficar presas em suas bochechas.

Ruínas

Meu palácio era de pedra escura. Pedregulhos grandes e rústicos formavam as paredes,  que tornaram os cômodos escuros e frios. Agora, gastas, as pedras são de um cinza sem graça. As janelas, de cristal claro como o dia, já foram cobertas por hera. Depois que os criados foram embora, meu palácio está sem cuidados... Os cômodos cobertos de tapeçarias turcas e lençóis de seda agora são apenas ninhos de traças. As velas dos castiçais não são mais trocadas e por isso vivo quase na escuridão total. O jardim? Ah, minhas queridas rosas vermelhas. A única delas que restou mantenho guardada seca, entre as páginas de um livro. O piano que existia na sala está desafinado há muito, muito tempo... E ninguém nunca mais veio tocar.

Prisão

Quando saí da prisão, deixando pra trás um canto escuro, imundo e um rosto marcado pelas sombras das barras de ferro, o sol feriu meus olhos quando finalmente pude ver sua luz. Os raios cálidos tocaram meu rosto mornamente, os cantos dos pássaros vinham até mim no vento, os ramos de lavanda dançavam entre si. Caminhando, cheguei ao abismo. E, ao observá-lo, concluí: nunca saímos da prisão, ela apenas muda de aspecto.

Reflexo

Na tarde daquele dia, andando pelo mercado, passei pelas vitrines da Ótica. Andando apressadamente, busquei meu próprio olhar nos vidros polidos. Mais tarde, já dentro do ônibus, olhei para o lado para observar os passageiros de outro veículo. Ao perceber que as janelas refletiam os passageiros próximos a mim, busquei um vislumbre meu. Ao jantar, entre murmúrios de aprovação, sorvi minha sopa de legumes. No final da refeição, tomei a colher entre os dedos e a encarei profundamente, esperando ver meu reflexo invertido. Por fim, num ímpeto cheio de raiva, corri até o espelho que fora pendurado no hall. "Para aumentar o cômodo", me disseram. Agarrei as molduras de madeira até os nós dos dedos ficarem brancos, e aos poucos deixei minhas pálpebras abrirem. Eu não estava ali.

Eterno

Ela caminhou até o outro lado do quarto e se jogou no divã, estendendo as pernas e cruzando os tornozelos, os braços pendendo em cada lado do móvel. Suspirou muito alto, e virou-se de costas para mim. - Jéssica, - disse eu - eu estava falando. - Não me importo, há momentos em que o som da sua voz me cansa. Ofendido e um pouco magoado, fechei a boca ainda aberta para retrucar, mas que parara assim por pura surpresa. Alisei o linho das coxas da minha calça e, olhando em volta sem saber o que fazer, decidi sair do quarto para a varanda. Os móveis escuros e os muitos objetos pessoais espalhados ali não me deram resposta sobre como reagir. Trouxe comigo um copo de uísque, mesmo que fossem apenas nove da manhã. Deixei-o no balaústre de pedra, vitoriano e caríssimo, enquanto acendia um cigarro. Enquanto sentia a fumaça circular dentro de mim, senti-me relaxar os músculos das costas, ainda tensos. Realmente, não fazia sentido ficar chateado. Aquela era uma reação muito típica de Jesse. Vi...

Maresia

Ela beijava com lábios salgados e não me surpreendi quando me disse se chamar Marina. Aquela que vem do mar... Moramos juntos por alguns meses. Aos domingos à tarde ela se recolhia exatamente no meio do sofá, como uma grande papoula: seu cabelo amarelo espalhado para todos os lados, as pernas longas ocultas sob a saia do vestido vermelho. Era assim que preferia ler. Sempre que me emprestava algum de seus livros, o encontrava cheio de rabiscos e pequenos poeminhas, com dedicatória tão cheia de amor que só a ingenuidade traz. Mas ai de mim se pensasse que era sua única face. Certa vez cheguei ao quarto para achar lençóis e cortinas rasgados, parte do carpete arrancado do chão e rasgos vertiginosos no papel de parede que ela mesma escolhera (cheio de flores de liz, suas favoritas, em tons pastéis). Ela exigia mudança, e exigia agora . Eu mais me divertia do que realmente me enfurecia com seus súbitos tornados na alma... E quando seu mar voltava à calmaria, ela me beijava as pálpebras e c...

Serenata

Se teu riso não fosse tão fácil de decorar e se suas sobrancelhas não se juntassem com seus cílios longos de forma a tornar teus olhos tão expressivos, eu não estaria aqui. E se suas mãos não coubessem exatamente nas minhas, meus dedos pesariam nos seus até que você os largasse horrorizado. Talvez o caramelo da tua pele não combine com os tons inócuos da minha. Penso que seu sorriso, estrela esculpida em seu rosto - com pequenas falhas para não ser perfeito demais -, não possa ser, exatamente, comparado ao meu. Como se compara um baú de tesouro a uma concha achada na praia? Se é verdade o que dizem, que cada um tem um mundo em si, verdade seja dita que sou um planeta morto. Minha terra deserta e árvores mortas nem choram mais porque morrem de sede, mas ao ver você tudo estremeceu e salivou. Estou fadada a ser apenas isso: planetinha morto, enquanto assisto cometas maravilhosos passarem pela minha vida... e partirem. Geralmente por minha culpa. Como entreter figuras tão maravilhosas? C...

Poesia Matinal

- Que horas são? - Sete e meia da manhã. - Sério isso? Eu virei a noite outra vez? Mas que merda. Ele coçou a barba, revirou aqueles olhos fundos e agarrou a caneca favorita, que eu tinha enchido de café. - Você escreveu algo novo? - Nada. Continuo preso naquele projeto que sei que não vai render nada. - Não se preocupe, querido. Ele me tomou a mão, distraído, massageando-me as juntas com as pontas dos dedos. Depois, acendeu um cigarro e o deixou pender molemente nos lábios. - Você quer cortar os cabelos hoje? Aquele olhar de criança surpresa sempre me fascinara. Rasgou-se num sorriso agradecido. - Se você puder... Só não estranhe se eu dormir. E foi-se, sentou na cadeira alta, o cigarro nos lábios e a caneca numa das mãos, um caderninho na outra. Enfiado atrás de uma orelha, um lápis muito mordido. Joguei a capa por cima de seus ombros, molhei seu cabelo, ia apanhando tufos entre os dedos e a tesoura deslizava. - Como você pretende escrever ideias se não larga desse café? ...

Taça de Vinho

A campainha do apartamento tocou. Lógico que era ele, o porteiro já o tinha anunciado, mas ela não se impediu de dar uma rápida espiadela pelo olho de vidro. Do outro lado da porta, passando a mão destraidamente pelo cabelo, ele olhava para os quadros pendurados pelo corredor. Usando um terno grafite e camisa branca, ela podia até sentir o perfume dele chegar numa lufada de ar. Ajeitou o vestido rapidamente nos quadris e os dedos escorregadios tropeçaram na fechadura, até ela conseguir girar a chave. Cuidadosamente, abriu a porta, mordendo o lábio inferior. Ele, no entanto, não estava lá. - Charles? Você está aí? Uma mão se estendeu na direção dela, segurando uma brilhante rosa vermelha. O riso dela tilintou quando ele, dando um passo pro lado, surgiu na porta segurando um pequeno buquê de rosas. - Alô, querida. São para você... Não sabia se você gostava de flores, então trouxe poucas. - Eu as adoro, ainda mais agora. - Se eu soubesse, tinha trago duas dúzias de uma vez. Tomando...

Olhos Teus

Minhas musas sempre tiveram pele clara e olhos azuis. Sardas que cobrem o nariz, cabelos que cascateiam pelos ombros. Já meus musos, esses sempre têm olhos escuros, andar melancólico e ar de quem desconhecem o bom sono. Como fui cair na armadilha de olhar nos teus olhos da mesma cor que os meus? Olhos que espelham o sorriso que se abre como flor da primavera toda vez que o meu olhar vai parar dentro deles. Olhos que lampejam luz, olhos de lava e água, minério de ferro e fogo.

Bailarina

O palco estava vazio e escuro, as luzes apagadas. Nas sombras, porém, podia-se ver a forma de alguém sentado bem no meio dele. Um holofote se ligou no alto, formando uma roda de luz amarela, onde surgia a pálida forma de uma bailarina. Tudo nela era branco: sapatilhas brancas, meias finas brancas, vestidinho branco e cabelos tão platinados que pareciam prateados, caindo-lhe pelas costas. Levantou-se do chão com a graça e a delicadeza de uma pétala no vento, ficou na ponta dos pés e começou a girar. Em algum lugar, no velho teatro, um piano tristonho começara a tocar. Era uma peça belíssima, cujas notas ressoavam como lágrimas caindo num poço escuro e sem fundo. E a bailarina girava. Quando a música parou, já amanhecia e a luz começava a entrar pelas janelas no alto do teatro. A luz dourada iluminou as poltronas, as teias de aranha nas cortinas e a grossa camada de pó que cobria o palco, vazio há tanto tempo.  Fim do primeiro ato.