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Postagens

Lágrimas de Orvalho

- Finalmente percebi que estou envelhecendo rápido demais. Ela estava sentada à beira de um penhasco, abaixo o mar lambia a areia e arrulhava. A grama onde ela estava sentada ainda estava verde e brilhante, úmida do orvalho, e ela embolava as folhas entre os dedos. Atrás dela, havia um grande carvalho vermelho e estava em flor. O vento balançou os galhos fazendo com que flores e bolotas caíssem em seus cabelos. - Flores? Já é maio, não é mesmo, carvalho? Nem mesmo estava reparando no passar dos meses. Ela levantou-se, calçou os sapatos e se despediu da antiga árvore, acariciando sua casca. - Carvalho, já está na hora de ir. Obrigada por me ouvir... - ela sorriu, pensando no quão idiota parecia todas as vezes que vinha falar com uma árvore. - Até mais. Ela foi se afastando, os cabelos voando com a brisa. O cheiro de água salgada nem a incomodava mais, e todos os dias ela voltava pra casa cheirando a mar. Quando entrava em sua pequena cabana, tirava as sandálias e voltava a trabalhar...

Longo Setembro

Aos 13 anos entrei para o seminário, pois me tornar padre era meu sonho. O sacerdócio me inspirava as mais belas e fortes emoções, queria entregar meu coração, alma, mente e corpo para O Senhor. Estudava cuidadosamente os salmos todos os dias, e qualquer pecado que surgisse em minha mente era afastado e punido com orações. Com o tempo devido, tornei-me padre e fui viver em uma pequena cidadezinha do meio rural, onde havia apenas um pequeno vilarejo e muita, muita poeira. Todos os domingos eu rezava a missa para todos os que moravam por ali, e entre eles destacava-se uma criança de rara beleza. Era uma menina de no máximo 10 anos, longos cachos de platina e ouro escorrendo-lhe pela cabecinha, os olhos do azul mais puro e pálido. E era possuidora de tal pureza e tal aura de bondade, aquela criança, que não era difícil afeiçoar-se aos seus gestos graciosos. Vinha visitar-me com uma cestinha com flores todos os dias, e ria-se de meu encabulamento em ter seus bracinhos roliços envolvendo me...

Prisão

Se olharmos por um lado ao mesmo tempo lúdico e ao mesmo tempo realista, veremos que cada um nasce carregando suas próprias barras de ferro. Vemos o sol nascer e se pôr, todos os dias, por trás de grades de carne e sangue. Nosso espírito, que diz-se livre e imortal, não passa de um infeliz prisioneiro do nosso destino genético. Nossa prisão, corpórea e frágil prisão, não passa da mesma prisão de nossos pais. Seria ter filhos, uma vingança disfarçada? Pois filhos são cópias, na personalidade e aparência, não passam de falsas projeções do passado. Assim como eu, que achava ter visto pela última vez o rosto de meu pai através de um grosso vidro de caixão... Ah, como eu me enganei esse tempo todo! Observando-me assombrada, diante de um espelho sujo, vi ele ressurgir através do meu rosto. Tanto medo, tantas lembranças me vieram, que evito ver meu reflexo com frequência. Fujo, não somente do fantasma que carrego em mim mesma, mas dessa aparência totalmente contrária ao meu imaginário de mim ...

Terra Fértil

Assim vou correndo, pra longe daqui, sorrindo, sozinha, morrendo de rir; Já desperdicei meu veneno, quem merece, tanto faz ; não há mais alvo seguro pra se correr atrás. Talvez muito longe, talvez muito perto, o que procuro, não sei ao certo; já é tarde demais pra poder discutir, sorrindo, sozinha, morrendo de rir. Não mais lágrimas, nem mais esperança; vou rindo sozinha, como uma criança. Meus passos seguros, sozinhos, certeiros, perseguidos por sombras infinitas, não importa quantas vezes forem ditas, meus pés se movem lépidos, rasteiros. Assim vou correndo, pra longe daqui, sorrindo, sozinha, morrendo de rir. Meu sorriso conformado, em sua dor ele florece; minha lágrima fútil, em teu sangue se aquece. Acordei um tanto quanto sádica, imperativa em meu modo de amar; essas lacerações na tua carne, mais me fazem te admirar. Cortes profundos, sangrentos, tão belos quanto pinturas. Teus ossos e pele magra, as mais perfeitas molduras. Seu desespero estampado, doentio, em teus olhos sedento...

Macabro

Aproximou-se, o coração batendo tão forte e tão alto. Olhou os cabelos espalhados pela fronha, e as pálpebras róseas fechadas. Observou os lábios grossos e o rosto de simétrica perfeição, a pele tão lisa e macia que parecia uma fruta madura. A beleza que sempre admirara, desde o começo. O peito subindo e descendo, a respiração durante o sono. Por um momento, a negritude presente naquele quarto foi cortada pelo brilho de uma faca, afiada e comprida feito um punhal árabe. E o brilho, que refletia a luz dos postes na rua, subiu e culminou numa descida. Antes que houvesse um mínimo som, subiu e desceu mais uma dezena de vezes, até que todos os sons cessaram outra vez. Um sorriso dorido cortou seu rosto, e antes que pudesse se conter, ajoelhou-se e deixou-se cair sobre as colchas manchadas do sangue que não podia ver. Tocou pela última vez as mãos dela e beijou uma delas com carinho, antes de levantar-se. Depois, guardou suas coisas, arrumou-se cuidadosamente no banheiro, lavou as última...

Ela disse Adeus

Estava finalmente partindo. Um suspiro de alívio escapou por entre seus dentes e uma lágrima do mais puro êxtase rolou de seu olho direito. Aquela seria a última vez que se entregaria ao homem que amava, mas que dela só esperava os prazeres carnais. Que tola fora! Foi tão rápido, como sempre, e já era hora de se despedir. Ela não quis deixar claras suas intenções. Havia planejado um enorme e elaborado discurso, onde ele apenas escutaria distante, mas o mesmo ficou preso em sua garganta. Então, antes que as lágrimas fossem mais fortes que seus cílios longos e pretos, ela apenas beijou-lhe uma das bochechas e aspirou aquele perfume que tantas vezes a deixara zonza. Ele fez menção de segurar-lhe o queixo e depositar um selo em seus lábios, mas ela esquivou-se antes que alguém conhecido os visse. A passos rápidos e largos, o escarpim batendo contra o cimento molhado da calçada, ela flutuou de volta até sua casa - vazia, escura e fria como um freezer. Apertou o sobretudo em volta do pesc...

O Menino

O garotinho vivia naquela casa desde que nascera, com seu mentor e padrinho, Gerard. Pierre era seu nome. Toda a aristocracia francesa se apiedara daquela linda criança - quem não se apiedaria? - quando seus pais, pouco depois de seu nascimento, morreram assassinados, misteriosamente, num vagão de trem. A casa era velha, pequena e assustadora. Seus diminutos jardins, em frente e nos fundos, eram mal cuidados e isso dava um ar de abandono à residência. A tinta descascava e embolorava, e o que um dia fora um bonito cinza de céu nublado, hoje era apenas um bocado de manchas esverdeadas de limo e musgo. No segundo andar, havia apenas uma grande e única janela de vidro, onde ficava o quarto do pequeno Pierre. Todos os dias ali ele colocava seus redondos olhos, de um azul tempestade. Seu cabelo em tons de loiro e ruivo cobria-lhe a alvíssima cabeça em cachos caprichosos. Pierre não tinha amigos, nem parentes, e não conhecia nada muito além daquela casa e da biblioteca, que ficava a poucos ...

Ferro e Ímã

Sempre fui uma rocha sólida, indobrável, nunca cedendo a nenhuma pressão. Meu modo de ver as coisas sempre foi o mesmo, e nenhum fator externo me mudaria a cabeça dura, minha direção seria a mesma, sempre. Sim, eu sempre fui de ferro. De certo modo, sempre fui muito sozinha. É claro que eu tinha meus amigos, mas, no meu interior tão duro quanto meu exterior, sempre senti um estranho vazio. Algo faltava ali, mas, de alguma forma, eu nunca descobrira o que me faltava. Até você aparecer. Como uma estrela da alvorada, todo sorrisos, quase um completo oposto de mim. Eu não te conhecia, mas, de algum modo, algo me impelia , contra ou a favor de minha vontade, a você. É claro que fiquei com medo, mas o que eu poderia fazer? Seu brilho sempre foi forte demais, e eu, uma pobre criatura tão cinzenta e deprimida, mesmo que a temesse, era atraída pela luz. Por que você, logo você, tinha de ser meu ímã? Desde o começo eu percebi que éramos mesmo opostos. Meu interior duro, que jamais deixou sequer ...

Nem um, Nem outro

Já faziam mais de dez anos que eu não voltava naquele lugar. Que tipo de pessoa eu me tornara, através daqueles anos sombrios que passei? Uma estranha parasita, que serpenteia pelos becos escuros, talvez. Conheci ambos em épocas diferentes, é verdade, e amei um, mais que o outro. Primeiro, o Ruivo. Ah, quão jovens éramos ambos, quando estávamos juntos! Sentia-me regredir todos os anos de sofrimento, e as palavras dele me faziam acreditar que ele sempre estaria ali, porém... Porém, eu o temia. Na verdade, confesso: temia perdê-lo, mas temia tanto, que não dava-lhe oportunidades. Foi assim que conheci o Loiro. Já o havia visto antes em outras de minhas noites, e cobiçava-o por seu ar distante e beleza estranha. Parecíamos de mundos tão diferentes, mas, numa noite, tivemos nosso eclipse. E foi aí, meus caros, que começou o meu tormento. O Ruivo nunca fora muito o meu tipo, não frequentava os mesmos meios que os meus, e detestava quase todos os meus gostos. No entanto... Tinha uma beleza f...

Teus lábios finos

- Conte-me seus segredos. A voz que vinha da poltrona de costas para mim não deixava dúvidas, era ele que estava ali sentado. As pontas de seus longuíssimos cabelos loiros estavam enroladas sobre a manga de seu sobretudo, e tive um súbito desejo de trançá-las. Que tipo de amigo era eu, afinal? Havíamos nos conhecido no final de nossos cursos de Advocacia. Ele, sempre impecavelmente vestido, no auge de seus trinta e poucos, em seu terceiro curso superior. Sua família tinha uma vasta fortuna, que ele administrava cuidadosamente e lhe gerava lucros enormes. Eu? Eu era só mais um jovem medíocre que cruzava o campus todos o dias, carregando pilhas de livros e sem tempo entre o estudo e o trabalho. Aconteceu de, numa dessas cruzadas, ele passar por mim e tomar o primeiro livro da pilha que eu trazia e perguntar, com voz educada: - Será que se importaria de me emprestar este livro por três dias? Meu nome é Achille. Um Aquiles francês ou italiano, que estranho. E ele realmente tinha lábi...

Querido Steinway,

Ela acariciou as teclas que, há tantos anos, estavam cobertas delicadamente com veludo vermelho. Ah, seu querido piano! Ali ele estava, sem ser tocado por ninguém, apenas esperando que seus singelos dedinhos marmóreos voltassem. Com cuidado, ela jogou a capa das teclas para o lado e montinhos de poeira se levantaram quando bateu no tapete. Abriu as cortinas pesadas da pequena janela, e a luz caiu em cheio sobre aquela obra de arte. Seu lindo, maravilhoso piano de cauda, tão lustroso e carregado de memórias. Ela sentou-se, vibrando de emoção, e pôs-se a discorrer uma melodia que aprendera nas aulas de música. Era tão simples e delicada quanto a jovem Marie, que com seus recém completados dezessete anos voltava àquela velha casa. Seus traços não haviam mudado em nada, as feições marcantes e tão perfeitas que pareciam intocáveis. Seu rosto tinha uma beleza tão pura, tão singela, tão delicada , que qualquer artista da época seria capaz de matar para retratá-la. Infelizmente, já era tarde ...

Parque Vital

Começa como um passeio na Roda Gigante. A gente sabe onde vai parar, mas mesmo assim dá aquele frio na barriga característico, a gente sente aquela sensação de mudança de pressão igual dentro de um elevador e parece que vai tocar as estrelas quando chega lá no alto. Quando se estabiliza, é como se a gente estivesse num Carrossel. Tudo é colorido, vai girando num ritmo gostoso... Até que enjôa. E aí que começa a Montanha Russa. Em alta velocidade, a gente vai do alto a baixo em um segundo, e no final, se pergunta se era aquilo mesmo que a gente queria. Sái com as pernas bambas, tremendo e suando frio. Mas o pior começa é quando a gente vai dormir, deita a cabeça no travesseiro, e entra no Túnel do Terror...

Excesso

Estrelas girando, mágicas, num caleidoscópio. Flores das mais belas cores, amores, dores se esvaindo ralo abaixo Brilho fulgente, dourado mil Velocidade que passa à tangente, tábua de salvação. Tão fácil e tão belo, sinistro e sereno, tão fácil, ameno. Por que? Tão doce, fugaz, difícil, sagaz. Por fora, no mundo real; fatal. Por que me deixou descobrir que tudo não passava de uma mentira?

Vício

Agora, não se preocupe. Não se ocupe, não se desculpe. Esqueça, deixa isso pra trás, é tão irrelevante, os teus problemas sobre mim. Joga o fardo, sorria novamente, seu sorriso é o meu sorriso. Desfaz essa cara fechada, tão preocupada. Deixa que eu passo os dedos pelos seus cabelos, levo de você a dor, levo por você. O brilho das estrelas nem chega perto do brilho que você tem, porque é que você se preocupa tanto? Por que é que você tem sempre que tentar ser mais, melhor, maior; se é tão melhor ser o de sempre, se é tão melhor deixar essa bobagem toda de lado e vir pro meu lado. Se é tão fácil. Por que você sempre prefere o meio mais difícil? Deixa de deixar essa flecha perfurar sua carne, deixa que o veneno escorra pra fora da ferida, pára já de injetar mais. Esse seu ópio que você consome tão vorazmente está te fazendo enxergar fadas verdes demais, luzes e cores demais, consolos demais. Pára. Pensa, não prefere as luzes e cores reais?