Pular para o conteúdo principal

Lágrimas de Orvalho

- Finalmente percebi que estou envelhecendo rápido demais.
Ela estava sentada à beira de um penhasco, abaixo o mar lambia a areia e arrulhava. A grama onde ela estava sentada ainda estava verde e brilhante, úmida do orvalho, e ela embolava as folhas entre os dedos. Atrás dela, havia um grande carvalho vermelho e estava em flor. O vento balançou os galhos fazendo com que flores e bolotas caíssem em seus cabelos.

- Flores? Já é maio, não é mesmo, carvalho? Nem mesmo estava reparando no passar dos meses. Ela levantou-se, calçou os sapatos e se despediu da antiga árvore, acariciando sua casca.
- Carvalho, já está na hora de ir. Obrigada por me ouvir... - ela sorriu, pensando no quão idiota parecia todas as vezes que vinha falar com uma árvore. - Até mais.

Ela foi se afastando, os cabelos voando com a brisa. O cheiro de água salgada nem a incomodava mais, e todos os dias ela voltava pra casa cheirando a mar. Quando entrava em sua pequena cabana, tirava as sandálias e voltava a trabalhar como costureira, as mãos pequeninas e delicadas moldando pedaços de pano com destreza.

Algumas horas depois, seu marido chegava bêbado, gritava com ela e depois caía no sofá num sono profundo. Ela simplesmente suspirava e pensava, "Graças a Deus não tenho crianças para que ele as amedronte"; e voltava a trabalhar até altas horas da noite. Depois de terminadas as peças que tinha de entregar no dia seguinte, ela caía exausta sobre a máquina de costura e cochilava, sonhando que seus dedos ainda se moviam com agulha e linha.

De manhã, as peças sempre estavam delicadamente úmidas.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Encomenda

Metódico, cirurgicamente limpo, preciso. O sobretudo preto e a cartola de cetim da mesma cor; as delicadas luvas de pelica branca, tudo denotava sua classe. Era um assassino. E não era unicamente um assassino... era um gênio. O melhor e mais conhecido de todos os tempos, e além de tudo, o mais rico. Engraçado como essa noite não carregava sua maleta com seus preciosos instrumentos. Levava em uma das mãos sua bengala, engastada com pérolas negras; e na outra, um estranho embrulho branco. Era grande o suficiente para parecer um presente, mas a cobertura era uma tira de pano branco e simples. Não podia pertencer à nenhuma de suas amantes. Cuidadoso também nesse sentido, nunca deixara com que nenhuma delas sobrevivesse mais do que algumas noites de satisfação. Presenteava-as, claro, mas logo recuperava o lucro perdido. Até a noite em que a conhecera. Helena era uma figura mítica. Muito mais bela que Helena de Tróia, muito mais poderosa que qualquer rainha amazona. Seus cabelos de um ruivo ...

O Palhacinho

Volta e meia me pego olhando para aquela vitrine da antiga loja de brinquedos, que há muito foi fechada mas até hoje ninguém ousou arrombar e roubar. Os vidros já estão amarelados e tudo lá dentro está coberto de poeira, claro, mas os brinquedos parecem conter espíritos vivos dentro de si. De cada prateleira, seus olhos chamejam em nossa direção. De novo olhei para a estante de madeira escura e observei aqueles que sempre vinha ver, e podia jurar que mudavam de direção. Uma boneca, com ar sapeca e maravilhosos cabelos cor de rosa; um marionete de madeira, cujo títere sempre estava seguro em sua mão; e um palhacinho um tanto quanto macabro. Era um daqueles brinquedos educativos... Um poste coberto por aros coloridos de borracha, e na ponta, para segurar os aros, uma cabecinha sorridente de palhaço. Sempre me intrigava aquele brinquedo. Era o que mais parecia se mexer de propósito quando eu não estava olhando, e sorria de modo angelical lá da estante. Durante os últimos dias, tive até pe...

Ao amor

Ao meu precioso, peço desculpas por ter levado tanto tempo sem te levar em conta. Quando finalmente acordei para encarar que era você quem me movia, já era tarde demais. E quando achei que tinha encontrado minha ligação eterna com você, ela se transformou em cinzas diante dos meus olhos. Mesmo assim, tento te procurar nas pequenas coisas, e devo confessar que isso tem sido quase impossivelmente difícil, mas venho sobrevivendo há dias impossíveis há algum tempo. Aquele sopro de frio gelado sempre vem pela porta, mas agora tenho trancado-a à chaves toda vez que ele vem. Como eu te encontraria novamente, se partisse daqui? Da sua fiel amiga, Juliana.