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Macabro

Aproximou-se, o coração batendo tão forte e tão alto. Olhou os cabelos espalhados pela fronha, e as pálpebras róseas fechadas. Observou os lábios grossos e o rosto de simétrica perfeição, a pele tão lisa e macia que parecia uma fruta madura. A beleza que sempre admirara, desde o começo. O peito subindo e descendo, a respiração durante o sono.
Por um momento, a negritude presente naquele quarto foi cortada pelo brilho de uma faca, afiada e comprida feito um punhal árabe. E o brilho, que refletia a luz dos postes na rua, subiu e culminou numa descida. Antes que houvesse um mínimo som, subiu e desceu mais uma dezena de vezes, até que todos os sons cessaram outra vez.
Um sorriso dorido cortou seu rosto, e antes que pudesse se conter, ajoelhou-se e deixou-se cair sobre as colchas manchadas do sangue que não podia ver. Tocou pela última vez as mãos dela e beijou uma delas com carinho, antes de levantar-se. Depois, guardou suas coisas, arrumou-se cuidadosamente no banheiro, lavou as últimas evidências e abriu o portão. Deu uma última olhada nas estrelas que cobriam o céu acima do telhado da velha casa, e partiu, sem olhar para trás. Ela jamais voltou ali.

ps.: título em homenagem a meu agridocinho, Marquíssimo.

Comentários

Margos disse…
E ela jamais voltou alí! Profundo tão quanto o punhal árabe!

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