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Prisão

Se olharmos por um lado ao mesmo tempo lúdico e ao mesmo tempo realista, veremos que cada um nasce carregando suas próprias barras de ferro. Vemos o sol nascer e se pôr, todos os dias, por trás de grades de carne e sangue. Nosso espírito, que diz-se livre e imortal, não passa de um infeliz prisioneiro do nosso destino genético. Nossa prisão, corpórea e frágil prisão, não passa da mesma prisão de nossos pais. Seria ter filhos, uma vingança disfarçada? Pois filhos são cópias, na personalidade e aparência, não passam de falsas projeções do passado. Assim como eu, que achava ter visto pela última vez o rosto de meu pai através de um grosso vidro de caixão... Ah, como eu me enganei esse tempo todo! Observando-me assombrada, diante de um espelho sujo, vi ele ressurgir através do meu rosto. Tanto medo, tantas lembranças me vieram, que evito ver meu reflexo com frequência.
Fujo, não somente do fantasma que carrego em mim mesma, mas dessa aparência totalmente contrária ao meu imaginário de mim mesma. Porque não possuir a infinita graça de uma dançarina, a pele tão alva quanto o puro branco da neve, as mãos pequenas e bonitas de verdadeira artista?
Grande presente, esse que ganhei! Graça trôpega, desajeitada, como pássaro com asas cortadas. A alvura manchada, de toque áspero e asqueroso. E essas mãos, malditas e desgraçadas mãos! Tudo que tocam morre, tudo que almejam se afasta, tudo que seguram com tanta força escapole pelos dedos!
Gritar impropérios contra a prisão que odeio não irá mudá-la, e nem todas as plásticas do mundo a mudariam. Afinal, esse é o meu tormento: arrastar esse corpo sem finalidade através dessa vida que parece não ter fim. Mas que, felizmente, o terá.

Comentários

Tchela le fay disse…
Ju, cada dia vc escreve melhor!

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