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Postagens

A Enforcada

A árvore era um grosso carvalho no jardim de trás. A casa era antiga, toda em estilo vitoriano, com aquela delicada pátina que apenas o tempo pode oferecer. Das varandas, pendiam samambaias que tocavam o chão como longos cabelos verdes, as janelas observavam a rua tão pitoresca quanto a casa. Joseph vinha visitá-la todas as tardes com uma flor na mão, roubada do cemitério. Não era bonito, mas era um rapaz atraente. Dotado de um sorriso gentil e mãos artísticas, ele era o pintor da pequena vila. Era frequentemente contratado para retratar a aristocracia quase rural daquela cidadela. Seus cabelos negros em ondas caprichosas estavam um tanto quanto amassados - arrumara uma nova namorada - e vinha em passos curtos com uma margarida na mão. Era amigo há meses de Manuela, a menina de olhos tristes e tez pálida. Em seus quinze anos, acumulava um incrível conhecimento filosófico e humanístico. Por ser hemofílica, a família a condenara a uma vida reclusa, cercada de delicadeza; e ela passava ...

Consulta

Delicado conto que levei um ano pra escrever, finalmente tive paciência para acabá-lo. - Por onde exatamente devo começar? - Comece por onde se sente mais confortável. - Mas... Ele pode aparecer... - É preciso confrontar todas as suas personalidades , para podermos tratá-las. Ou você não quer se tratar, Alexandra? Os grandes olhos se arregalaram ainda mais e ela enroscou-se na poltrona. Os cabelos cor de palha, com textura de teia de aranha, eram longuíssimos; tão longos que ultrapassavam a poltrona e iam repousar no carpete cor de vinho. Veemente, ela balançou a cabeça e abraçou os magros joelhos. - Ele... ele veio numa noite muito fria, a mais fria que me lembro. Da penteadeira , eu ouvia sussurros dizendo meu nome. Foi quando o vi encostado na cortina... Alexandra tomou uma pose diferente. Tombou as pestanas, sentou-se ereta , coçou uma barba inexistente. Quando falou, sua voz saiu do fundo do peito, grave e lenta. - Óbvio que era eu chamando, sua tonta...

Velha Alma Rabugenta

Num antigo calabouço de almas, ali estava ela. Já havia sido presa há tanto tempo que nem se lembrava mais de seus crimes e nem os guardas. Estava ali presa por convenção. No entanto, por mais que o tempo passasse, não deixava de reclamar. Passava o dia a resmungar e mastigar fumo, cuspindo-o numa jarra. Certo dia, alguém lhe deu um pedaço de giz. No dia seguinte, a alma não mais estava ali. As paredes escuras do calabouço, todavia, brilhavam com palavras prateadas, harmonicamente espalhadas como pombas brancas na noite. E as palavras cuidadosamente escritas diziam: "Eis que fujo desse calabouço para repousar eternamente em minhas palavras. Nada mais me segura nessas paredes. Minhas palavras hão de alcançar cada frestinha do mundo, e eu alcançarei os lugares mais belos junto delas. Fujo, sim, depois de tantos anos. Considerem uma aposentadoria de uma alma cansada e doente. Uma alma que nem corpo tinha para arrastar. No entanto, resmungar sempre me divertiu. Agradeço por ter tant...

Ensinamentos de uma Criança

Com o tempo, aprendi que amores nascem, mas morrem também. Que amigos vêm, vão, voltam... E que inimigos se acumulam. Aprendi que nunca vou encontrar alguém igual a mim, apenas semelhante. E que as semelhanças também estarão nos meus erros. Aprendi que só se pode confiar em si mesmo, guardar um segredo é nunca contá-lo. Que o pôr-do-sol é mais bonito acompanhado. Que a música tem mais sentido quando se gosta de alguém. Que quando a gente faz alguma coisa pra alguém e com dedicação, fica muito melhor. Aprendi que falta de diálogo mata pessoas e relacionamentos, nessa ordem. E que beijos não curam feridas, nem fazem doer menos. Aprendi também que nunca se deve confiar muito nem no corpo, nem na mente. Eles mentem. Seguir o espírito é o ideal. Aprendi, a duras penas, que ninguém estará lá pra te confortar. Mas a maioria estará presente na sua derrota. Aprendi que levantar dói, mas é necessário após a queda; mesmo que ela seja consecutiva. Que momentos felizes são bons... mas sempre nos le...

Menina de Asas

O sonho de Elisa era voar. Seu quarto ficava no segundo andar da antiga casa, e sua janela ficava no meio do telhado. Ela punha-se pra fora subindo em uma cadeira e escalava as telhas até ficar lá no alto. Sentia o vento levantar seus cabelos e cheirava a humidade que vinha dos campos, tão distantes de seu pequeno bairro. Depois, cuidadosamente, descia de volta ao quarto pra fazer a lição de casa. A mãe a chamava para o almoço pontualmente ao meio dia, e antes de descer ela ainda olhava humildemente para o céu, estreitando os olhos para ver nuvens mais distantes. Depois da escola, deprimente e entediante, Elisa voltava pra casa olhando pro céu. Invejava os passarinhos e queria ser-lhes amiga, até aprendera a imitar seus cantos pra atraí-los. Quando achava um filhote, acariciava sua penugem macia imaginando como seria possuir grandes asas, brancas e macias como espuma do mar. Devolvendo o filhote ao ninho, ela seguia seu caminho habitual. À noite, à mesa com seus pais, a voz grave e...

A Torre

Naquele reino havia um príncipe belíssimo, cujo pai já estava para morrer. Todos os anos, ele fazia uma competição entre as mulheres para saber quem casaria com ele e seria a rainha, mas como era muito exigente, a última prova sempre rejeitava todas as candidatas. No centro do reino, fora erguida há muito tempo, uma torre. Tão alta, mas tão alta, que não se podia enxergar o pico, que ia distante, furando as nuvens; como um palito furando algodão doce. O príncipe exigia que, para casar-se com ele, deveria-se subir na torre. Ao alcançar o topo, lá ela encontraria um tesouro, e deveria trazê-lo para baixo, para provar que estivera lá em cima. No entanto, a torre era escorregadia, ao chegar muito alto fazia frio, e muitas desistiam só de ver seu tamanho. No entanto, uma jovem resolveu tentar. Não que quisesse realmente casar com o príncipe, mas gostava de desafios. Sendo a torre escorregadia, amarrou nas mãos e nos pés trapos secos, que a permitiam escalar. Sendo acima das nuvens muito f...

As Uvas

Com um movimento delgado de sua pequena e magra mão, ela a estendia até o prato, no alto do encosto do divã, e destacava uma das uvas grandes e verdes do cacho com suas longas unhas, pintadas de vermelho. O contraste ácido e delicioso de suas mãos, unhas e a fruta suculenta. Ela levava a fruta até os lábios, também rubros, e a mordia e sugava. Rapidamente, jazia só uma casca vazia: até as sementes ela levava. E, dentro da boca, sentia aquele invólucro fino que cobre a polpa gelatinosa, ácida, doce, cujo sumo escorria pelo canto de seus lábios de modo quase obceno. Ela esperava por Regard, e embora estivesse impaciente, não o demonstrava. Sorvia as uvas como se provasse um delicado e saboroso vinho, uma de cada vez. Um gole de cada vez. E atirava às cascas ao chão, como que para afrontá-lo e chocá-lo quando ele chegasse; mesmo que ela soubesse que não iria funcionar. Ele tiraria o casaco, jogaria na poltrona e sussurraria, tirando os sapatos: - Georgia, olhe o que você fez...

Prisão em Lembranças

Olho pra essas paredes de pedra escura, antiga, e me sinto tão antiga quanto elas. Não sei há quanto tempo existo, mas rogo todos os dias pra deixar de existir. A escuridão, a umidade, a tristeza que emana dessas paredes às vezes é mais densa que a escuridão, a umidade e a tristeza dentro de mim. Talvez, minha alma tenha se tornado uma apologia à esse quarto: vazia, infeliz e mergulhada na melancolia. Passam-se os minutos, escoam-se as horas, e há muito parei de contar os dias. Pra quê? Eles vêm e vão, e só diferencio a noite do dia pelo buraco no teto, que parece dar numa campina. Às vezes, o vento traz o aroma fraco de flores ou faz cair fios dourados de capim. Mas parece que tudo que entra nesse quarto torna-se como ele, e o aroma torna-se pútrido e o capim, seco e sem vida. Por que ainda sobrevivo aqui? Já faço essa pergunta sem esperança de encontrar resposta, mesmo que já tenha ruminado esse pensamento tantas vezes... Meu corpo não é o que me faz continuar. Não sei porque não d...

Doce Paladar

Eles, e elas também, sempre vinham. Com seus rostos sedentos por luz, com seus lábios até molhados, sedentos por paixão. Seus olhos buscavam os meus, com medo e fome, suas bocas buscam a minha até hoje, com sede. Engraçado como a sede de cada um tinha um gosto diferente. Havia aquele cuja boca cobria a minha, e cujos lábios tinham o simples gosto da carne humana... Nada de muito extraordinário. Havia aquela de boca macia e lábios gelatinosos. Um dos mais marcantes, era aquele cuja sede tinha gosto de perfume... Seu perfume era fortíssimo e embriagante, preso em mim até hoje. Uma em particular chamou minha atenção. A sede daquela menina magrinha, de cabelos cortados à Chanel, que parecia tão cheia de si do outro lado do salão. O que era interessante não era sua sede de paixão... Era sua sede de contato. Seus lábios eram contidos ao alcançar os meus, mas falava como ninguém, e chegou a me apresentar para - vejam só! - todos os seus amigos. Também houveram muitos que tinham simplesmente s...

Desejos Medrosos

Tinha dezessete anos quando fora vendida. Aquela garota vivia numa vila pobre com seu padrasto e suas outras doze irmãs, que só não eram estupradas por ele porque podiam ser vendidas por um preço bem alto. Ah, o que os velhos ricos não faziam por uma esposinha virgem! E agora, chegara a vez dela. Os cabelos avermelhados foram penteados, e lhe permitiram - pela primeira vez na vida! - um banho decente e até borrifadas de perfume. E ela tinha medo. Tanto medo, que sentia os joelhos baterem-se sob a renda do vestido. E sentia aquela coisa engraçada que vinha toda vez que ficava ansiosa... Seus braços arrepiavam-se e sentia seus ossos um tanto quanto fora de lugar, e a vontade de ajustá-los sem poder. Sabia que ele chegaria às três. Eles sempre vinham buscar as mocinhas às três. Alguns eram violentos e dominadores, e quando a garota era muito atrevida, recebia apenas uma bofetada. Aquilo era um aviso: o pior viria depois. Marana só queria que tudo aquilo fosse um pesadelo, que ele viess...

Pedido

Socorro! Perco-me entre fingimentos e ilusões. Engano a mim mesma mais facilmente do que a qualquer outro. Salva-me. Escondo meus olhos, engulo minha língua, amarro-me as mãos. Tira esse sofrimento de dentro de mim, arranca minh'alma com um abraço. Ajuda-me. Um simples olho nos olhos, um trocar de mãos; faria meu pensamento mais leve e meu sorriso, mais fácil. Mata-me. Deixa de ser cruel e me deixa. Crava o punhal árabe... Não! Não o faz tão lentamente, não... não deixa com que cada onda da lâmina crie seu caminho, não... Morro. Mas, antes de morrer, suspiro. Tudo o que eu desejo, desejei, desejaria; e já é tarde demais.

Passatempo

"Cada artista, à sua maneira, encontra sua forma de fugir. Ao invés de versar, pintar, cantar, musicar... Sonho. E são mais do que simplesmente deitar a cabeça ao travesseiro e ter delírios de subconsciente, me refiro ao lado lúdico de sonhar. E são sonhos tão palpáveis, que prendo-me a eles durante alguns minutos até recobrar a consciência. Durante pouco tempo, vejo-os - os fãs, os amigos, os inimigos - à minha frente e posso tocá-los e senti-los macios e quentes. Abraço-os, cumprimento-os, repreendo-os." Ela dizia isso com os olhos pregados na janela já escurecida pela chuva. Do lado de fora, as árvores se curvavam em respeito ao vento, e seus galhos arranhavam a madeira das paredes. Twic, twic, twic... E eu sentia minha pele arrepiar-se, os pelos grossos ganhando vida, mas não de frio. Era o medo. - Ivan? Você ainda me acha bonita como antes? - ela perguntou, levantando e rodopiando. Aquela pergunta me chocou e entristeceu. - Claro, meu amor. - Mesmo tendo virado... i...

Reflexo

- Pare de tentar me impedir, você jamais será melhor que eu. Ela, aquela que eu tanto temia, sussurrou no canto escuro do quarto. Quem era ela, afinal, pra se achar tão superior? Era um monstro, um demônio de mil faces, um espírito maligno aterrorizante. - Saia logo daqui! - gritei. Não era minha intenção, mas o terror atingira minha garganta. Ela riu. Suspirou. Pigarregou. - Não posso sair, sua tola. Se ainda não percebeu, somos uma só e jamais deixaremos de ser. As palavras vinham do canto onde eu deixara... Não, não podia ser. Lentamente, me aproximei daquela escuridão que cobria uma pequena parcela do quarto... A parte do quarto cujas cortinas de veludo vermelho e pesado escondiam o sol, que ofuscava meus olhos de onde eu estava. Primeiro, encarei meus pés. Presos em sapatinhos delicados. Depois, vi meu lindo vestido do baile, cuja costureira trabalhara incansavelmente durante noites. Perfeito em cada ponto. Vi minhas clavículas e meu colo pálido, coberto com delicados rubis, meu p...

O Palhacinho

Volta e meia me pego olhando para aquela vitrine da antiga loja de brinquedos, que há muito foi fechada mas até hoje ninguém ousou arrombar e roubar. Os vidros já estão amarelados e tudo lá dentro está coberto de poeira, claro, mas os brinquedos parecem conter espíritos vivos dentro de si. De cada prateleira, seus olhos chamejam em nossa direção. De novo olhei para a estante de madeira escura e observei aqueles que sempre vinha ver, e podia jurar que mudavam de direção. Uma boneca, com ar sapeca e maravilhosos cabelos cor de rosa; um marionete de madeira, cujo títere sempre estava seguro em sua mão; e um palhacinho um tanto quanto macabro. Era um daqueles brinquedos educativos... Um poste coberto por aros coloridos de borracha, e na ponta, para segurar os aros, uma cabecinha sorridente de palhaço. Sempre me intrigava aquele brinquedo. Era o que mais parecia se mexer de propósito quando eu não estava olhando, e sorria de modo angelical lá da estante. Durante os últimos dias, tive até pe...

Jardineiro Fiel

Eu, terra infértil. Meus antigos frutos há muito secaram, e minhas raízes por muito pouco não morrem. Minhas flores? As pobrezinhas se foram há muito... Foram perdendo as cores, tornando-se ressequidas e sem perfume. Sempre estive aqui, e estarei até secar o suficiente para virar areia. Só assim, o vento incansável há de me empurrar através do mundo. Enquanto isso não acontece, espero-o. Talvez tão velho e ressequido em sua alma quanto eu, talvez igualmente tão triste. Ele vem de vez em quando, e essas visitas sorrateiras e vespertinas são o que me fazem continuar vivendo. Traz na mão um regador velho, enferrujado, cheio de orvalho fresco. Ah, o orvalho... Há algum tempo, conversávamos. Ele tocava-me cheio de cuidados, esfarelava-me entre os dedos e suspirava. Perguntei "que há no regador, jardineiro?". Ele pensou, fumou seu cigarrinho de palha e pisou nele. "É cheio de orvalho que colho todas as manhãs". Orvalho. Sei. Algum dia ele me contará porque colhe toda...

Encomenda

Metódico, cirurgicamente limpo, preciso. O sobretudo preto e a cartola de cetim da mesma cor; as delicadas luvas de pelica branca, tudo denotava sua classe. Era um assassino. E não era unicamente um assassino... era um gênio. O melhor e mais conhecido de todos os tempos, e além de tudo, o mais rico. Engraçado como essa noite não carregava sua maleta com seus preciosos instrumentos. Levava em uma das mãos sua bengala, engastada com pérolas negras; e na outra, um estranho embrulho branco. Era grande o suficiente para parecer um presente, mas a cobertura era uma tira de pano branco e simples. Não podia pertencer à nenhuma de suas amantes. Cuidadoso também nesse sentido, nunca deixara com que nenhuma delas sobrevivesse mais do que algumas noites de satisfação. Presenteava-as, claro, mas logo recuperava o lucro perdido. Até a noite em que a conhecera. Helena era uma figura mítica. Muito mais bela que Helena de Tróia, muito mais poderosa que qualquer rainha amazona. Seus cabelos de um ruivo ...

Sofrimento Carmim

Os olhos eram cobertos por um lenço branco, que o permitia ver apenas o vulto dela. As mãos haviam sido atadas às costas e ele estava novamente de joelhos e nu naquele quarto mal iluminado. Por um segundo, ele sentiu o couro lamber suas costas rapidamente. A dor lancinante veio em seguida, mas ele trancou o maxilar para não deixá-la ouvir os gemidos. Sentiu os lábios dela tocarem, silenciosos e sedentos, a carne avermelhada. Depois, a língua fez pequenos círculos em dos ombros e ele sentiu pingarem as gotas quentes da cera da vela perfumada que ela tanto gostava. Em seguida, as unhas que ele sabia pintadas cuidadosamente de vermelho brincaram com sua pele queimada arrancando os cuidadosos pingos. Por que o torturava daquele jeito, se sabia que era seu modo preferido de ser castigado? Seu lombo ardia agora, sob os golpes consecutivos do chicote de montaria. Ele respirava mais rápido e rápido sem emitir sons, e no quarto ecoava o barulho da pele sendo machucada. Até que em determinado...

Túmulo

Expressar toda a minha dor nas minhas palavras era meu desejo, mas meu último suspiro cansado já o fez por mim. Hora de partir outra vez, e começar a cavar...

Lágrimas de Orvalho

- Finalmente percebi que estou envelhecendo rápido demais. Ela estava sentada à beira de um penhasco, abaixo o mar lambia a areia e arrulhava. A grama onde ela estava sentada ainda estava verde e brilhante, úmida do orvalho, e ela embolava as folhas entre os dedos. Atrás dela, havia um grande carvalho vermelho e estava em flor. O vento balançou os galhos fazendo com que flores e bolotas caíssem em seus cabelos. - Flores? Já é maio, não é mesmo, carvalho? Nem mesmo estava reparando no passar dos meses. Ela levantou-se, calçou os sapatos e se despediu da antiga árvore, acariciando sua casca. - Carvalho, já está na hora de ir. Obrigada por me ouvir... - ela sorriu, pensando no quão idiota parecia todas as vezes que vinha falar com uma árvore. - Até mais. Ela foi se afastando, os cabelos voando com a brisa. O cheiro de água salgada nem a incomodava mais, e todos os dias ela voltava pra casa cheirando a mar. Quando entrava em sua pequena cabana, tirava as sandálias e voltava a trabalhar...

Longo Setembro

Aos 13 anos entrei para o seminário, pois me tornar padre era meu sonho. O sacerdócio me inspirava as mais belas e fortes emoções, queria entregar meu coração, alma, mente e corpo para O Senhor. Estudava cuidadosamente os salmos todos os dias, e qualquer pecado que surgisse em minha mente era afastado e punido com orações. Com o tempo devido, tornei-me padre e fui viver em uma pequena cidadezinha do meio rural, onde havia apenas um pequeno vilarejo e muita, muita poeira. Todos os domingos eu rezava a missa para todos os que moravam por ali, e entre eles destacava-se uma criança de rara beleza. Era uma menina de no máximo 10 anos, longos cachos de platina e ouro escorrendo-lhe pela cabecinha, os olhos do azul mais puro e pálido. E era possuidora de tal pureza e tal aura de bondade, aquela criança, que não era difícil afeiçoar-se aos seus gestos graciosos. Vinha visitar-me com uma cestinha com flores todos os dias, e ria-se de meu encabulamento em ter seus bracinhos roliços envolvendo me...