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Teus lábios finos

- Conte-me seus segredos. A voz que vinha da poltrona de costas para mim não deixava dúvidas, era ele que estava ali sentado. As pontas de seus longuíssimos cabelos loiros estavam enroladas sobre a manga de seu sobretudo, e tive um súbito desejo de trançá-las. Que tipo de amigo era eu, afinal? Havíamos nos conhecido no final de nossos cursos de Advocacia. Ele, sempre impecavelmente vestido, no auge de seus trinta e poucos, em seu terceiro curso superior. Sua família tinha uma vasta fortuna, que ele administrava cuidadosamente e lhe gerava lucros enormes. Eu? Eu era só mais um jovem medíocre que cruzava o campus todos o dias, carregando pilhas de livros e sem tempo entre o estudo e o trabalho. Aconteceu de, numa dessas cruzadas, ele passar por mim e tomar o primeiro livro da pilha que eu trazia e perguntar, com voz educada: - Será que se importaria de me emprestar este livro por três dias? Meu nome é Achille. Um Aquiles francês ou italiano, que estranho. E ele realmente tinha lábi...

Querido Steinway,

Ela acariciou as teclas que, há tantos anos, estavam cobertas delicadamente com veludo vermelho. Ah, seu querido piano! Ali ele estava, sem ser tocado por ninguém, apenas esperando que seus singelos dedinhos marmóreos voltassem. Com cuidado, ela jogou a capa das teclas para o lado e montinhos de poeira se levantaram quando bateu no tapete. Abriu as cortinas pesadas da pequena janela, e a luz caiu em cheio sobre aquela obra de arte. Seu lindo, maravilhoso piano de cauda, tão lustroso e carregado de memórias. Ela sentou-se, vibrando de emoção, e pôs-se a discorrer uma melodia que aprendera nas aulas de música. Era tão simples e delicada quanto a jovem Marie, que com seus recém completados dezessete anos voltava àquela velha casa. Seus traços não haviam mudado em nada, as feições marcantes e tão perfeitas que pareciam intocáveis. Seu rosto tinha uma beleza tão pura, tão singela, tão delicada , que qualquer artista da época seria capaz de matar para retratá-la. Infelizmente, já era tarde ...

Parque Vital

Começa como um passeio na Roda Gigante. A gente sabe onde vai parar, mas mesmo assim dá aquele frio na barriga característico, a gente sente aquela sensação de mudança de pressão igual dentro de um elevador e parece que vai tocar as estrelas quando chega lá no alto. Quando se estabiliza, é como se a gente estivesse num Carrossel. Tudo é colorido, vai girando num ritmo gostoso... Até que enjôa. E aí que começa a Montanha Russa. Em alta velocidade, a gente vai do alto a baixo em um segundo, e no final, se pergunta se era aquilo mesmo que a gente queria. Sái com as pernas bambas, tremendo e suando frio. Mas o pior começa é quando a gente vai dormir, deita a cabeça no travesseiro, e entra no Túnel do Terror...

Excesso

Estrelas girando, mágicas, num caleidoscópio. Flores das mais belas cores, amores, dores se esvaindo ralo abaixo Brilho fulgente, dourado mil Velocidade que passa à tangente, tábua de salvação. Tão fácil e tão belo, sinistro e sereno, tão fácil, ameno. Por que? Tão doce, fugaz, difícil, sagaz. Por fora, no mundo real; fatal. Por que me deixou descobrir que tudo não passava de uma mentira?