terça-feira, 5 de julho de 2011

Negro e pegajoso como piche, mordiscando meus calcanhares. Sinto sua respiração logo às minhas costas, pesada e contínua, lufadas de ar que passam por sua garganta e dentes como quando a gente respira com a boca ligada à um instrumento de sopro. Às vezes parece até uma risada. Esse sorriso rasgado, debochado... eu sei que vem rindo de mim há muito tempo.
Engraçado que seus olhos não combinam com seu sorriso. São olhos ocos, vazios como concha abandonada. Nem escuros nem claros, sem ambição, sem vida. Não há nada para ser tocado dentro de você, não há nada pra ser procurado. Porque você, num auto-canibalismo, consumiu seu coração e sua alma muito antes de nos encontrarmos por essa vida.
Você sugou tudo que havia de vivo dentro de mim. Minhas lágrimas em cascata, meu coração quente. Como se eu fosse um dirigível à pleno vapor... que deixou de ser. Deixei de voar, me elevar, por você, pra você. Em tantos sentidos. Hoje sou quase tão casca vazia quanto você.
O problema é que não estou de todo vazia. Se assim fosse, talvez não fosse ruim. Fui preenchida até o topo com o sofrimento desesperado, o medo. A vontade de fuga que não pode ser realizada... e como almejo, acima de tudo, fugir!
Dentro de mim havia incêndio que agora não passa de cinzas. Havia tornado, que virou sopro. Havia tempestade que agora é gota d'água. Havia sorriso e promessas... agora é lamento. E o que mais dói é tentar me reerguer e você aparecer e destruir meu progresso. A falta da sua presença é a única coisa que me permite respirar e viver.
Talvez seja eu a indesejada. A errada. Desde o começo. Porque ninguém nunca esteve do meu lado, eu não estava em lugar nenhum. E você está em todos os lugares. No espelho. Nos filmes. Nas fotos. Na comida. No meu corpo. Em cada dia que passa.
O que você faz quando o inferno está nos seus olhos?

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