Não aguento mais segurar essa escuridão. O rancor, as lembranças dolorosas, o medo. Só isso que me sobrou, me prender aos meus medos, logo eu, tão confiante e certa das coisas. Nada como o sofrimento pra reavaliarmos quem somos e nos fazer perder o juízo.
Acho que esse é o meu problema, perdi o meu juízo naquela noite, enlouqueci e jamais voltei. Aquela fatídica noite em que chorei até meus olhos secarem e arderem como se estivessem em chamas, voltei a me machucar. Me joguei contra as paredes de azulejo frio, tão frios quanto meu interior naquele momento, me arranhei, causei bolhas de sangue em toda pele que conseguia alcançar. Lógico que não a pele visível, mesmo perdida no caos eu sabia que uma hora teria que voltar aparecer publicamente e teria de fingir quem sempre finjo ser. Que vergonha.
Aquelas manchas voltaram... Não eram os hematomas causados por mim, são aqueles causados pelos meus demônios interiores. Que vergonha, quanto asco senti de mim mesma. O pequeno espelho do boxe refletia no meu rosto toda a tormenta... e toda revolta. Alguma força cósmica deve ter me segurado pelas mãos, porque tudo me impelia a um assassinato. Se possível, de mim mesma.
Mas aquela noite passou... e outras noites negras também vieram. E muitos dias brancos. E muitas pessoas incolores. E o enfraquecimento da dor e o fortalecimento do desejo de vingança. A frustração. O entorpecimento.
Escrevo para manter os medos fora da porta. Estou trancada no quarto e ouço eles rastejarem do outro lado, raspam as unhas na madeira e fazem um som que faz meus ossos balançarem. Me obrigo a não esperar mais nada, mas não posso conter essa vontade urgente de virar o jogo.
Escrevo para manter os medos fora da porta. Estou trancada no quarto e ouço eles rastejarem do outro lado, raspam as unhas na madeira e fazem um som que faz meus ossos balançarem. Me obrigo a não esperar mais nada, mas não posso conter essa vontade urgente de virar o jogo.
Nada me faz ficar. Vejo meus medos como almas torturadas, mas torturada mesmo é a minha. Sozinha, perdida e escura.
Estou cansada de esperar alguém atrás da porta.
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