quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O Titereiro

- Sinto muito, querida.
Foi a última coisa que ela ouviu. E a última que viu foi uma lágrima no rosto pálido dele, vinda de seus lindos olhos cor de mogno. Com tristeza, ele fitou o rosto imóvel e fechou-lhe as pálpebras sobre os olhos vazios. Arrumou-lhe no corpo o vestido, arrufou-lhe os cabelos. Sentou-a cuidadosamente numa poltrona e limpou os vestígios de sangue, refez sua maquiagem e deu-lhe um tom rubro e saudável às bochechas sem vida.
Arrastou-a cuidadosamente para o porão, e deitou-a nua na maca. Seu corpo ainda não estava rígido, mal faziam cinco minutos. Com um compressor de ar barulhento às suas costas, tomou em mãos o aerógrafo e pulverizou sobre ela um líquido translúcido e perolado que seco, tornava a textura da pele branca de Melissa muito parecida com a porcelana.
Abriu-lhe os olhos e posicionou lentes grandes e azuis sobre seus já muito azuis olhos, vestiu-a de novo e sentou-a numa cadeira com pequenas rodas. Ainda delicadamente, empurrou a cadeira até outro cômodo, amplo, iluminado e parcialmente cheio.
Lindas bonecas sem expressão estavam ali, todas em posições variadas. Sentadas, fingindo tomar chá, em pé, sustentadas por um apoio que as segurava pela cintura.
- Você vai ficar aqui, Melissa.
Deu um sorriso torto que distorcia seu bonito rosto e despenteou ainda mais os já bagunçados cabelos ruivos. Tirou a Melissa da cadeira e sentou-a num banquinho junto à mais três moças, que com olhos igualmente vazios, pareciam conversar entre si.
Terminado todo seu trabalho, Lúcio afastou-se, limpando as mãos no avental que cobria o caríssimo terno preto. Estava pronta sua linda coleção.

1 comentários:

Mateus disse...

Gostei das descrições, bem trabalhadas, de fato.